Livro debate origens étnicas do Brasil

O Museu da República está lançando o livro República das Etnias, que compila as conferências realizadas desde março deste ano na série de seminários que levou o mesmo nome da publicação. O museu, que neste ano completou quarenta anos, teve nos festejos de 500 anos do Brasil o pretexto para discutir a miscigenação como traço fundamental da cultura brasileira. E teve como resultado a identificação de um leque de heranças culturais que vai além de índios, portugueses e negros. Foram discutidas as influências que japoneses, holandeses, alemães, judeus, sírio-libaneses, italianos, espanhóis, franceses e poloneses exerceram sobre o Brasil, em algum período histórico. Para cada nacionalidade o museu dedicou, além das palestras, mostras de filmes, apresentações musicais e peças de teatro. "Não nos preocupamos com o aspecto político da questão, quisemos abordar a história pelo lado social", diz o curador do evento Paulo Reis. Os seminários reuniram nomes brasileiros de peso, como o filósofo Gerd Bornheim e o historiador Ronaldo Vainfas, e internacionais, como o ensaísta francês Jean Soublin. O livro traz as conferências na íntegra, tem capa dura e um caderno de fotos que transmite a idéia geral da obra. "Grandes nomes da nossa cultura, como Lasar Segall, Oswaldo Goeldi, Oscarito, Carmem Miranda, Clarice Lispector, Ruy Guerra, Eva Todor e Alfredo Volpi não eram brasileiros, e sim imigrantes que contribuíram para a formação de uma cultura no Brasil", diz Paulo Reis, explicando que fotos antigas dessas personalidades compõem o caderno de imagens do livro. A pergunta "que Brasil é esse?" motivou a iniciativa do República das Etnias. "Três quartos da nossa população é miscigenada", diz Paulo, "e somos o maior conjunto de japoneses fora do Japão, por exemplo". Para ele, mesmo que a questão da identidade brasileira já tenha sido fartamente discutida ao longo da história, ela continua. Cita um dos mais recentes censos do IBGE, que resumiu as opções étnicas do brasileiro a branco, negro ou miscigenado. "Todos os que não eram negros responderam ´branco´ e ficamos parecendo uma Suécia", brinca. Mas a questão está longe de se resumir à cor de pele. É o que quis dizer a maioria dos conferencistas que compareceram ao Museu da República durante o ano. O escritor Marco Lucchesi, quando falou da influência dos italianos, trouxe dados de sua pesquisa sobre o início da imprensa no Brasil. Ele fez um levantamento de personalidades que lançaram periódicos bilíngües, ou só em italiano, entre 1854 e 1921. O pai dos caricaturistas brasileiros, segundo Lucchesi, é o italiano Angelo Agostinni, editor da Revista Ilustrada, jornal de 6 páginas com a maior tiragem do período. Outro ponto alto das conferências do República das Etnias é o chamado Brasil Holandês. O período no qual o holandês Maurício de Nassau governou Pernambuco é tido por historiadores como o único momento em que o Brasil esteve equiparado às nações mais desenvolvidas. "Naquela época tivemos o primeiro Jardim Botânico da América, assim como o primeiro astrolábio, a primeira rua urbanizada e a primeira sinagoga", conta Paulo Reis. Houve até mesmo um jornal sobre o Brasil, com matérias enviadas por carta de Pernambuco para a Holanda, onde era impresso e distribuído. Os artigos reproduzidos no livro República das Etnias são unânimes em afirmar que é essa imensa circulação de povos, pessoas e informação que gerou o Brasil tal qual o conhecemos hoje. E que os elementos que formam uma cultura são mais amplos do que se costuma pensar. Paulo Reis lembra da língua como fator cultural. "O professor Manuel Morillo, que falou sobre heranças espanholas, mostrou que o português medieval nasce do castillo, um dialeto espanhol antigo", diz. E faz questão de citar os franceses como parte das origens do povo brasileiro de hoje: "toda a nossa academia, nossas belas artes e nossas leis são francesas". O público foi receptivo à proposta dos seminários, o que prova a atualidade da questão. Além de casa cheia, Paulo Reis diz que o importante é que muitos enxergaram suas origens pela primeira vez. "Vários saíram daqui preocupados em buscar suas raízes, e se perguntando se devem ter orgulho delas ou não". Mas a principal vitória do República das Etnias foi se debruçar sobre o nó etnográfico brasileiro. O curador Paulo Reis define: "o Brasil só resolverá sua angústia se entender a mistura que o compõe, já que somos mestiços, não importa a origem. Não somos uma paleta de cores, somos gente". República das Etnias - Editora Gryphus, 240 pp. R$ 29,00.

Agencia Estado,

13 de dezembro de 2000 | 20h16

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