Livro de Wilde passou anos esquecido

Oscar Wilde preparou duas versõesde O Retrato do Sr. W. H.. A primeira surgiu em 1889, naspáginas da revista Blackwood Edinburgh Magazine, em queespeculava sobre a controvertida passagem da vida de WilliamShakespeare relativa aos seus sonetos ambíguos. Uma perigosaargumentação, pois levantava suspeitas sobre uma unanimidadenacional. O biógrafo do escritor irlandês, Frank Harris, citadopelo autor do prefácio da edição brasileira, Aníbal Fernandes,afirma que "Oscar Wilde sentia prazer com a tempestade deopiniões contraditórias que o seu conto originara". Talexcitação certamente o convenceu a rever o texto e a acrescentardois capítulos, reforçando uma importância que desejaria vê-loassumir. Em 1893, os editores Elkin, Matthews e John Laneanunciaram uma nova edição ampliada, a qual não passou deprojeto, pois o original foi devolvido a Oscar Wilde no dia 5 deabril de 1895, dia em que o tribunal divulgou a sentença que ocondenava a dois anos de trabalho forçado por corrupção demenor. Foi o célebre embate que o escritor travou com o marquêsde Queensberry, cujo filho, Alfred Douglas, fora amante deWilde. Eles se conheceram no verão de 1891: Bosie, como Douglasera conhecido, era um jovem louro, de corpo alto e esguio e umrosto de traços perfeitos. Na época, era um dos homossexuaismais desejados e acabou seduzindo o escritor, apresentando-o omundo das ruas. Faísca - Envolvido pelo rapaz, Wilde chegou a seintrometer na sua tortuosa relação com o pai até que adeflagração do conflito - no dia 18 de fevereiro de 1895, umfurioso marquês de Queensberry entrou no Albmarle Club e deixouseu cartão de visitas, endereçado a "Oscar Wilde, o sodomita".Era a faísca que detonaria um embate que culminaria com acondenação do escritor. Apesar de aconselhado pelos amigos a não tomar nenhumaatitude, Wilde não poderia se calar contra a ofensa do marquês eo processou. Era a senha esperada pelo puritanismo vitoriano,que reverteu a situação transformando-o de vítima em réu. Mesmo acuado, Wilde utilizou os interrogatórios públicospara exercitar, com grande prazer, sua brilhante e cativanteretórica - segundo Richard Ellmann, talvez seu melhor biógrafo,o escritor falava com "uma pronúncia muito própria do idiomainglês, mistura de pintura sonora com muitos maneirismos e umtom teatral de declamação". Nos diálogos que travou com os juízes que o interpelavam, Wilde aproveitou para também referendar os conceitos que diluiuem O Retrato do Sr. W. H., especialmente a discussãoespiritual do homossexualismo a partir dos sonetos de WilliamShakespeare. Interrogado pelo juiz Carson, por exemplo, curioso emsaber se alguma vez ele adorou loucamente um rapaz, o escritorrespondeu que nunca adorou outra pessoa além de si mesmo. Eacrescentou: "Lamento ter de dizer que essa idéia bebi-a emShakespeare... sim, nos Sonetos de Shakespeare". Foi condenadoa ter a liberdade vigiada. Revisão - Inconformado com a sentença, o marquês deQueensberry pediu a revisão do processo, o que conduziu OscarWilde a um novo julgamento. Agora diante do juiz C. F. Gill, queo interpelou sobre "o amor que não ousa dizer seu nome". Elerespondeu que, naquele século, tratava-se da grande amizade deum homem mais velho por um rapaz, "a que existiu entre David eJônatas, que foi a base da filosofia de Platão, a queencontramos nos sonetos de Michelângelo e Shakespeare". Apesar da defesa consistente, o escritor nãosensibilizou os juízes, que o condenaram a dois anos detrabalhos forçados por corrupção de menor, cumpridos emPentonville, Wandsworth e, finalmente, Reading. Londrescontinuou a ter em cena suas peças, mas com o nome do autoromitido dos cartazes. Salomé chegou mesmo a ser proibidapelo seu caráter necrófilo, o que aumentou, talvez, o êxito queobteve em Paris, representada no papel principal por SarahBernhardt. Em liberdade e com as finanças arruinadas, Wilde foiobrigado a permitir a venda pública de todos os seus bens -objetos pessoais, obras de arte, manuscritos, tudo foi dispersopor um leiloeiro inconsistente, eliminando o rastro de algunsoriginais inéditos. O texto ampliado de O Retrato do Sr. W.H. sofreu o mesmo destino e, durante 26 anos, não se soubenenhuma notícia de seu paradeiro, até uma aparição súbita eimprevisível nos Estados Unidos - um editor marginal de NovaYork republicou a história em 1921, com uma tiragem de milexemplares. Era a primeira aparição do texto ampliado, uma vez que areduzida versão ganhara duas edições: uma clandestina, de 1897,que coincidiu com o exílio de Wilde na França, e outra de 1904,privada e póstuma - o escritor morrera quatro antes, enterradoem um caixão barato, em Paris. Os mil exemplares da publicaçãoamericana logo se espalharam em algumas bibliotecas particulares, até novamente imperar um longo silêncio sobre a existência dotexto. O Retrato do Sr. W. H. só voltou ao mercado anosdepois, em 1973, quando a descoberta de um desses velhosexemplares fosse recuperado e incorporado à edição das ObrasCompletas, o que representou uma perfeita oportunidade para seobservar que a transcendência da arte, sua autonomia em relaçãoaos preceitos morais e o amor espiritual entre os homensestabelecem um grau de parentesco inegável entre seus escritos.

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