Livro de J.Carlos lembra 50 anos de sua morte

O elegante, o elaborado, o pioneiro, o cronista. São diversas as qualidades deste que é considerado, por muitos dos mestres atuais, o maior caricaturista que o Brasil já teve. Na próxima segunda, dia 2 de outubro, serão 50 anos desde que José Carlos de Brito e Cunha, o J. Carlos, deixou o divertido mundo do cartum. Um legado de mais de 50 mil desenhos em 49 anos (seriam quase três por dia, sem feriado ou fim de semana), publicados em mais de 10 revistas entre 1902 e 1930, e centenas de jornais no Brasil e no exterior (entre eles, Fon-Fon!, O Malho, Para Todos, Tico-Tico e Século XX). "Foi certamente um dos cinco maiores jornalistas brasileiros", afirma confiante o cartunista Cássio Loredano, um dos principais entusiastas da obra de J. Carlos.Por incrível que pareça, tamanha notoriedade passou despercebida por muitas gerações de caricaturistas. "Nunca foi esquecido de verdade, por que muita gente guardou, escondidinho, os trabalhos dele", conta o filho de J.Carlos e grande mantenedor do trabalho do pai, Eduardo Augusto de Brito e Cunha. Na década de 90, com o crescimento de investimentos oficiais na cultura e a restauração de arquivos nacionais importantes, a pesquisa sobre personalidades do tipo se tornou mais fácil. Foi assim que Loredano, que também é colaborador do O Estado de S. Paulo, saiu em busca da obra de J.Carlos, que já apreciava modestamente. Conseguiu em 1995 uma bolsa da prefeitura do Rio de Janeiro que patrocinou suas pesquisas. Coletou mais de 30 mil desenhos do ilustrador, e assim republicou três livros originais do autor: O Rio de J. Carlos (1998), Carnaval J. Carlos (1999), pela Lacerda Editores e, recentemente, Lábaro Estrelado, pela Casa da Palavra.Agora Loredano lança, novamente pela Casa da Palavra, J.Carlos Contra a Guerra. "Esta é a mais importante obra de J.Carlos, onde ele atacou com muita ironia o fascismo, que começava a se consolidar no Brasil", diz Loredano. Para este livro, o caricaturista e pesquisador reuniu mais de 300 desenhos, que abrangem as guerras mais importantes da primeira metade do século: a 1.ª e 2.ª Guerras Mundiais, a Guerra Civil Espanhola e a Guerra da Coréia. Eram iminentes o crescimento do integralismo e a ideologia fascista, e J.Carlos, munido da crítica e patriotismo que sempre aliou valorosamente, atacava esses fantasmas sem arredar o pé. Além do traço característico, esses eram ideais que o tornaram "o melhor ilustrador brasileiro de todos os tempos", como destaca o cartunista Chico Caruso."Seu traço tinha muita elegância, que aplicava quando retratava o buraco da rua até vestido de mulher", conta Chico, que não considera ter sido influenciado pelo mestre - "é muita areia para o meu caminhãozinho". Loredano também admite ter solidificado um estilo sem sofrer, infelizmente, influências de J.Carlos. "Simplesmente não conheci enquanto me formava". Agora, com a recuperação de sua memória, Loredano tem esperança de que as novas gerações possam ter esse importante referencial. Além da publicação do livro, J.Carlos terá como homenagem ao cinqüentenário de sua morte uma missa, que será realizada nessa segunda, 2 de outubro, às 18h no Patronato da Gávea, na avenida Lineu de Paula Machado, 795, Jardim Botânico, Rio de Janeiro.

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