Livro conta saga do Morro do Castelo

Em meados do século 19, clássico no Rio de Janeiro não era ir ao Maracanã ver Flamengo e Vasco - até porque nada disso existia. A grande pedida era subir o Morro do Castelo e ir à igreja de São Sebastião pegar a missa das seis da manhã, na qual os capuchinhos benziam contra o mau-olhado. O Morro do Castelo, uma área elevada de 184 mil metros quadrados, não existe mais, tampouco a igreja de São Sebastião. Entre as décadas de 20 e 50, jatos d´água, picaretas e marteladas botaram abaixo o morro e a igreja. Parte de sua terra foi usada para aterrar o que hoje é conhecido como o Aeroporto Santos Dumont. Mas a história dessa colina e a importância para a cidade do Rio de Janeiro começa a ser recuperada esta semana. Na quinta-feira, às 18 horas, será lançado no Palácio Gustavo Capanema (Rua da Imprensa, 16, 2.º andar) o livro Era Uma Vez o Morro do Castelo, organizado por José Antônio Nonato e Núbia Melhem Santos. No livro, além da história contada em depoimentos, artigos, caricaturas e charges, há um rico levantamento fotográfico do local onde Mem de Sá criou a cidade, em 1567, após a morte de seu sobrinho Estácio de Sá. Uma dessas fotos inéditas é a da página 46, que mostra foto da Igreja de São Sebastião em festa, flagrante do fim do século 19. Lima Barreto foi contra a derrubada do morro. Monteiro Lobato também. O cartunista J. Carlos idem. Sinhô cantou a glória do morro, assim como Tom Jobim, Cartola, Zé Kéti, Assis Valente, Orestes Barbosa e Herivelto Martins. Mesmo assim, o Castelo foi abaixo. "A campanha pelo arrasamento do morro começou já em 1808, quando D. João VI pediu um parecer para saber se os ´miasmas febris´ que atingiam o Rio vinham mesmo do Morro do Castelo", conta Núbia Melhem Santos, formada em Letras na PUC do Rio. O parecer entregue a D. João desaconselhava a destruição do morro. Havia uma crença no Rio daquela época de que a origem dos males epidêmicos da cidade provinham do "entulho" geográfico do Morro do Castelo, que impedia a circulação do ar marítimo e tornava a cidade mais quente e úmida. A cidade estaria "espremida pelos morros". Isso nunca foi demonstrado, mas ninguém conseguiu impedir a derrubada. "Não consigo fazer um julgamento a posteriori, se aquilo foi bom ou ruim: é um fato consumado", diz Núbia. "Mas é preciso examinar a maneira como isso foi levado a cabo, recuperar a história para poder entender como se faz a história", pondera ela, que está desde 1996 envolvida na pesquisa que resultou no volume. A conclusão não é muito diferente da maioria dos casos semelhantes no Brasil - as megaobras e os projetos faraônicos empreendidos desde os primóridos: tudo foi feito atendendo a interesses financeiros e políticos. A Prefeitura do Rio recorreu a um banco holandês e fez um empréstimo monstruoso, e o governo brasileiro emitiu papel-moeda e ajudou a endividar o País. "Os homens de hoje são negocistas sem alma", protestava Monteiro Lobato. Desmonte - Tudo foi demolido e disperso. Só uma parte ínfima da história do Morro do Castelo e suas edificações - que registraram o nascimento de uma cidade - foram para museus. O desmonte começou antes mesmo da década de 20, em 1904, quando foi aberta a Avenida Central (atual Avenida Rio Branco). O principal agente do arrasamento, no entanto, foi o prefeito Carlos Sampaio, que empreendeu uma verdadeira cruzada para transformar a paisagem. Sampaio dizia que o objetivo era aplainar a área e depois vender lotes que dariam o ressarcimento aos cofres públicos. Nunca houve o ressarcimento. A terraplenagem estendeu-se até os anos 50. "Em termos de benefícios sociais, o que aconteceu?", pergunta Núbia. "A população desapropriada teve de ir para os outros morros, já que tudo foi feito sem planejamento de custos e de ocupação da área", conta. "O Morro do Castelo tornou-se um assunto varrido para baixo do tapete", diz Núbia, que estará hoje trazendo à tona, pela primeira vez, essa história um tanto esmaecida num lugar que foi construído justamente no coração do antigo morro: o Palácio Gustavo Capanema. Curiosa coincidência: o Palácio Gustavo Capanema, construído a partir de desenho original do arquiteto francês Le Corbusier, foi o detonador do modernismo arquitetônico no País. Nasceu no vácuo deixado por uma cidade que matava o seu passado para construir seu futuro.

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