Livro conta histórias da turma do rock de Brasília

Entre os moleques roqueiros do início dos anos 80 no Distrito Federal, o caçula deles resolveurelatar em o "Diário da Turma 1976/1986: A História do Rock de Brasília" - da Editora Conrad Livros, 199 págs., R$ 39 - a formação da mais relevante geração de grupos do cerrado. Embora muito já tenha sido dito, o jornalista Paulo Marchetti, o moleque, na ocasião com 11 anos, preenche "o vácuo" e narra hoje, aos 31anos, a saga do lendário grupo Aborto Elétrico até o sucesso da Legião Urbana. O lançamento é amanhã na Fnac Pinheiros, às 19 horas."Diário da Turma" é um registro despretensioso, porém legitima a importância do período. O livro mostra o ponto de vista de personagens anônimos fundamentais para a existência dos famosos e conta histórias das quadras da jovem Brasília. Nessecenário, foram esses personagens secundários que uniram pessoas da região da Colina e da 104 Sul, ambas dentro de Brasília, e, conseqüentemente, aproximaram roqueiros de grupos como a Legião,Plebe Rude, Paralamas e Capital Inicial. Além disso, ele não tem um tom saudosista nem glorifica aquele momento. "A minha preocupação era a de ser fiel aos depoimentos das pessoas daturma, até porque são como irmãos mais velhos para mim. Respeitei o limite de cada um", afirma ele."Como vivi aquele momento, sei que as históriasanteriores ao sucesso são muito importantes para entender o rock de Brasília. Acho que o que foi escrito até hoje trata vagamente desse momento e de outras coisas interessantes, como a relaçãodas pessoas com a cidade."Como no livro "Mate-me por Favor - Uma História sem Censura do Punk", de Legs Mc Neil e Gillian McCain, Marchetti ordena uma série de relatos, até mesmo de pessoas que não se viam havia mais de 15 anos, sem uma linha narrativa rígida. O que define o sabor literário de o "Diário" são os testemunhose a pauta do jornalista - dividida em duas partes: a turma e as bandas.A princípio, Marchetti achava que bastariam 15entrevistas, mas a cada conversa, um novo entrevistado era sugerido. Além do feito inédito de transcrever curiosidades, o autor também reuniu um grande material fotográfico inédito, numtotal de mais de 300 imagens, mas para o livro foi selecionada apenas a metade. "A sua leitura é bem fácil, coloquial e as imagens contribuem para deixá-lo ainda mais divertido; essa é, na verdade, a sua proposta principal: diversão", diz ele. O tratamento gráfico é, sem dúvida, um dos atrativos do livro. Um dos casos inéditos refere-se a uma das figuras mais emblemáticas do rock candango, Renato Russo (mas o livro não seprende a ele). Quem relata é a "anônima" Adriane: "O Renato tinha uma mania esquisita de gravar as conversas com as pessoas que iam na sua casa. Uma vez eu fui lá com o Eduardo e mais alguém e o Renato começou a fazer algumas perguntas filosóficas. Parecia que estava manipulando as conversas."Outra particularidade dele está exposta em uma dascartas que trocava com o amigo Hermano Vianna, até então nunca reveladas. Renato fala: "As aventuras da nossa turma: Nossa turma tem agora identidade. Somos reconhecidos onde quer que vamos. Não me incomodo de pensar que comecei, mais ou menos,tudo isso com o Fê, que era hippie na época (coitado), e André Pretórius."Radical - Em respeito as suas fontes, Marchetti usou o pseudônimo C.C para algumas declarações polêmicas, que não são de uma única pessoa. C.C fala abertamente sobre a relação decertos membros da turma com as drogas, em especial, a cocaína, sobre os desentendimentos entre eles e ainda o comportamento dosmoleques que, em certos momentos, era mais do que agressivo."Essa época skinhead foi f... Saímos para dar porrada mesmo, éramos muito radicais. Tinha umas pessoas que não gostavam de ficar com a gente. Foi uma época que só ouvíamos Dead Kennedys. Adotamos uma atitude racista."A turma, além de ter vivido ápices de rebeldia, com superfestas, drogas e até atos constantes de depredação e furtos era unida pela música. O punk foi o grande elo. Há mais histórias nessa saga. A da Plebe é uma das bem relatadas. Por fim, uma inclusão inusitada na turma: os Raimundos, que acabaram no mês passado. São eles que herdam aquele espírito, concorde ou não.

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