Livro conta história de bandido elegante do interior de SP

Passados 105 anos do seu desaparecimento nas águas barrentas do Rio Mogi Guaçu, o lendário bandido Diogo da Rocha Figueira, o Dioguinho, está de volta e promete polêmica. O mítico personagem, cuja menção ainda causa arrepios nos mais antigos pela forma fria e cruel com que executou pelo menos 24 pessoas, a maioria por encomenda, era homossexual, ou "baita", como se dizia no linguajar caipira da época. Quem afirma e comprova é o escritor João Garcia, nome adotado pelo jornalista João Garcia Duarte Neto, no livro Dioguinho - O Matador de Punhos de Renda, que está sendo lançado pela editora Casa Amarela.Durante cinco anos, com faro de repórter, ele se embrenhou no passado em busca de depoimentos, testemunhos, processos e documentos que permitissem resgatar do esquecimento o mito que assombrou grande parte do interior paulista no fim do século 19. O resultado foi um duplo resgate: além de recontar, com muitas revelações e novos ingredientes, a história do matador, Garcia recupera, em 335 páginas, a linguagem caipira falada à época.O fio narrativo central, conduzido pelo personagem Manino - o próprio autor - é todo ele grafado na "língua´ dos sertanejos do interior. ?Conversei com muitas pessoas que ainda vivem isoladas nos meios rurais, fui anotando e recriando as falas", conta. Mas nada causa tanto impacto quanto a descoberta do lado efeminado do matador. O achado deu-se nas páginas amareladas de um processo no Fórum de Batatais: depoimentos de vítimas que sobreviveram às tocaias de Dioguinho informam que ele mantinha relações homossexuais com Zequinha Maia, o filho de um fazendeiro da região. O pai, que reprovava a relação do filho com o bandido, foi morto por este. A tese é reforçada pela descrição dos pertences encontrados no casebre onde Dioguinho se escondia: perucas e roupas femininas. O escritor aposta nesse achado e recria com detalhes o hipotético encontro amoroso de Dioguinho com o fazendeiro Javaé no meio de um cafezal e seus arroubos de paixão quase suicida por outro homem, Carlim. Questão é polêmicaJá o lado jornalista do autor não ficou de todo convencido de que Dioguinho era "veado", como afirma no livro o promotor de Batatais. "Não está absolutamente claro", disse. Ele invoca o testemunho da pesquisadora Selma Siqueira, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, autora de uma tese sobre Diogo Figueira, para quem o matador era realmente macho e chegou a ter mais de uma mulher ao mesmo tempo. Duas publicações anteriores sobre a vida do facínora, um livro escrito em 1903 por Antonio Godoi e outro de João Amoroso Neto, de 1945, passam praticamente ao largo do possível homossexualismo.O mesmo ocorre com o filme Dioguinho, estrelado por Hélio Souto, que o escritor não chegou a ver. "Acho que nem existem mais cópias." O bandido paulista não tinha o estilo espalhafatoso de João Francisco dos Santos, o negro carioca Madame Satã, este, sim, homossexual assumido. Era, ao contrário, um homem discreto, elegante, com bigodes de pontas viradas "à Joaquim Nabuco", apreciador da comida, bebida e festas.Como agrimensor, relacionava-se com os principais fazendeiros da época. Tornou-se praticamente um deles, chegando a ter gado, cavalos e terras. Do nascimento em Botucatu, em meados do século 19, aos primeiros crimes não se sabe ao certo quanto tempo se passou. Mortes por encomendaDocumentos obtidos por Garcia confirmam que Diogo Rocha Figueira foi oficial de Justiça. A primeira morte foi a de um dono de circo. A partir daí, começaram a surgir as encomendas. Pessoas influentes passaram a servir-se de sua perícia com armas brancas ou de fogo para se livrar dos desafetos. Dioguinho cercou-se de capangas e as mortes se sucediam.O bandido tinha um modo peculiar de comprovar que dera conta da tarefa: cortava uma orelha da vítima e enfiava-a em um cordão para mostrar ao contratante. O escritor jornalista mergulha fundo no Brasil da época: a conquista dos sertões paulistas, o ciclo do café com a imigração italiana, o comércio de gado, a chegada da estrada de ferro num período em que o Brasil monarquista cedia lugar ao republicano.Servindo aos coronéis, Diogo era por eles protegido. Nunca foi preso. Tinha assento cativo às mesas ou alpendres das casas-sede dos latifúndios. Tinha, até, certo prestígio, segundo Garcia: o bandido assinou a ata da República. Quando seus crimes começaram a incomodar o governo da então província, tornou-se um fugitivo. Narrativa em dois temposJoão Garcia narra a saga do matador em dois tempos. Como o estudante empenhado numa pesquisa, ele elabora um making of de sua garimpagem em busca da verdadeira história do personagem. Já encarnando o pequeno Manino, passa a integrar o bando e reconstrói os vários anos que Dioguinho dedicou ao crime. As cenas sucedem-se nas estradas poeirentas, plantações de café, imensas pastagens, amplos casarões, vilas e cidadezinhas da região de São Simão e Ribeirão Preto. Ecologista, o escritor dá vida e fartura à natureza daquele interior longínquo: aves, animais, peixes, rios caudalosos, o fragor de cachoeiras, o cheiro de terra molhada da chuva, o travo da boa cachaça, a gente com toda a sua humanidade. A italianinha Graça, cega e prostituída, que Manino encontra em um bordel isolado, é pretexto para introduzir na história paixão e saudade.VocabulárioImpressiona, também, a precisão lingüística da fala e do vocabulário, reproduzidos nos diálogos e nas narrações do Manino. Palavras como divurgá (entender), sédia (sede), ruíca (ruela), gasmira (cassemira), medoim (medonho), parêdia (parede) e vrido (vidro) só não requerem um dicionário de caipirês por causa do contexto na frase. Como esta, do Manino: "Nas vida nossa dos modo que eu já falei, nóis nem divurgava que dia que era, se telça, saubo ô mêmo um dumingo." Por meio da mente do garoto, Garcia vai aos poucos redimindo de sua vida criminosa o bandido. Não desfaz, no entanto, o mito que cerca Dioguinho, até amplia sua dimensão, fazendo mistério sobre sua possível morte. Depois de ter caído nas águas do Mogi-Guaçu, sob o fogo cerrado da polícia da capital, seu corpo desaparece. Dado como morto, o bandido é visto e reconhecido, anos depois, em vários lugares. "Continua um mito, porque mitos não se desfazem, gostam de confundir tudo", como diz, sobre o livro, o escritor Ignácio de Loyola Brandão.

Agencia Estado,

12 de janeiro de 2003 | 15h16

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