Livro conta a história da criação das cidades brasileiras

Nem a roda, nem o computador. A maior invenção da humanidade foi a cidade, que tornou possível todas as outras, inclusive a roda e o computador. Essa é uma das principais idéias que perpassam as 230 páginas do livro "Vida Urbana - A Evolução do Cotidiano da Cidade Brasileira?, recentemente lançado pela editora Ediouro. Escrita pelos arquitetos Francisco Salvador Veríssimo e William Seba Mallmann Bittar e pelo historiador e artista plástico José Maurício Alvarez, a obra conta a história da criação das cidades brasileiras e mostra os caminhos seguidos por elas ao longo do tempo. Segundo os autores, o livro é um texto que não se pretende especializado em urbanismo, mas disposto a revelar alguns segredos da vida urbana brasileira, desde os primórdios até os dias atuais, de maneira simples e objetiva. "Nós abordamos o surgimento das cidades no Brasil, seus desenvolvimentos e a maneira de se viver em cada uma delas", explicam. "Buscamos entender por que são tão diferentes de todo o resto e ainda guardam, ao mesmo tempo, tantas semelhanças com outras cidades do mundo." Para descobrir isso, os autores deram um mergulho no passado da humanidade, resgatando a história dos aglomerados urbanos. Mostram que as primeiras aldeias começaram a surgir no mundo há cerca de 10 mil anos, quando nossos antepassados trocaram a caça e a coleta de frutos pela agricultura. Assim, com o novo método de produção, uma pequena parte da população conseguia alimentar toda a sociedade. As outras pessoas, liberadas da luta pela sobrevivência na coleta e na caça, puderam, então, se concentrar em aldeias e cidades e se dedicar às invenções e ao desenvolvimento tecnológico. Cidades brasileiras eram espelho de PortugalNo Brasil, no entanto, as cidades são bem mais recentes. As primeiras não surgiram naturalmente. Foram criadas pelos portugueses, a partir do Descobrimento, à imagem e semelhança de suas cidades pátrias. Essas, por sua vez, inpiravam-se em dois modelos, o romano e o árabe. O primeiro foi difundido pelo Império Romano, que, no seu auge, no segundo século de nossa era, abrangia uma vasta área, indo desde o Oriente Médio até a Grã-Bretanha e a Península Ibérica. O segundo estabeleceu-se em Portugal, com os árabes, que dominaram a região de 711 a 1383. Segundo os autores, a cidade romana tinha seu território ordenado segundo um traçado regular. "Toda a sua extensão assemelhava-se a um tabuleiro de xadrez, recortado por vias", explica Veríssimo. "As linhas retas de seu planejamento, que se cruzavam em ângulos retos, formavam o tabuleiro, produzindo as ruas." As cidades muçulmanas portuguesas, por sua vez, não eram tão regulares. "Os árabes não tinham preocupação com o traçado de suas cidades", explica o arquiteto Nélson Goulart Reis, da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo. "Elas cresciam em volta de suas mesquitas e dos seus mercados, sem muita regularidade." Segundo Bittar, os árabes instalavam o centro cívico e administrativo da cidade em local elevado e o cercavam de muralhas para melhor se defender. "Descendo o morro, a cidade se esparramava como um polvo e seus tentáculos", explica. "As ruas surgiam espontaneamente, sinuosas, e cumpriam seu papel fundamental: a simples e objetiva via de ligação." De acordo com os autores de "Vida Urbana", esses dois modelos de cidade adotados pelos portugueses são, portanto, considerados a origem da maioria dos traçados das cidades brasileiras, ao longo destes cinco séculos. "Eles aparecem de forma isolada ou em conjunto", diz Veríssimo. "Dependendo das condições geográficas, físicas ou militares dos locais onde as cidades eram instaladas."

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