Livro atravessa cinco décadas de energia na obra de José Roberto Aguilar

'Os pichadores e grafiteiros são geniais, fazem um renascimento maravilhoso'

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2014 | 02h11

É preciso um pique enorme, diz o artista José Roberto Aguilar, para criar uma obra tão múltipla em mais de cinco décadas de trajetória. As grandes telas coloridas que estão no seu ateliê, também sua casa na Bela Vista, bairro onde vive desde a infância, revelam imagens em que "a energia de tipo puramente físico se entrecruza com formas de vida em florescência", como escreveu, na década de 1960, o crítico e cientista Mário Schenberg.

Aguilar, aos 72 anos, mostra à reportagem do Estado, na tarde de terça-feira, um trecho do longa-metragem inédito que dirigiu, Anna K. (ficção em torno da Anna Karenina de Tolstoi), e o projeto da monumental exposição Rios Voadores e de Superfície, Perenes e Perecíveis, de experiências na Amazônia, mas, na verdade, o motivo do encontro é o livro que ele acaba de lançar, uma edição bilíngue, em dois volumes, sobre toda sua carreira.

  

Para se ter uma ideia, Aguilar- 50 Anos de Arte (Imprensa Oficial, 560 págs., R$ 120) pesa cerca de quatro quilos e apresenta a trajetória do artista em duas partes - a primeira, de 1960 a 1989; e a segunda, de 1990 a 2010. "Quando o vi pronto, parece que uma tonelada imensa saiu dos ombros", diz o pintor.

"Em uma exposição, você tem um vínculo pessoal, mas um livro te dá um distanciamento de você mesmo, me vi na posição de leitor, de espectador". Em 2010, Aguilar apresentou uma exposição retrospectiva no Centro Cultural Banco do Brasil, só que agora é diferente.

Segundo ele, foram mais de sete anos "passando o chapéu em um milhão de lugares" para editar a publicação, com design gráfico de sua mulher, Fernanda Sarmento, e que conta com apresentação do irmão do artista, o curador Nelson Aguilar, texto de Solange Lisboa, trechos de escritos críticos, fotografias e reproduções de trabalhos. É um percurso que tem como motor a pintura, mas se espraia para a videoarte, a performance, o cinema, a escrita (desde os anos 50, com o movimento literário Kaos), a administração cultural (foi diretor da Casa das Rosas e integrou a equipe do Ministério da Cultura sob o comando de Gilberto Gil), a curadoria, a música - criou, na década de 1980, a Banda Performática (com Arnaldo Antunes, Sergio Miklos, entre outros). "Fico pasmo com o vigor e a fúria", diz Aguilar sobre a própria trajetória em retrospecto.

Lâmpada de Aladim. Numa passagem curiosa do livro, o artista conta que foi o amigo do escritor, compositor e cantor Jorge Mautner, companheiro do Kaos com o também escritor e cineasta José Agripino de Paula (fundador da Tropicália), que o acompanhou na descoberta da pintura. "Um dia, ele (Mautner) chegou e disse, cheio de segurança e arrogância: 'Vamos pintar. Meu avô é pintor. Vou até lá, olho como ele faz e trago toda a informação'. Passou uma tarde com o avô e voltou: 'Já sei pintar. Temos que comprar uma tela, terebintina, uns pincéis e tintas'. Ele fez tudo isso e ficamos olhando o Mautner pintar. Compramos também nosso material. Quando abri o tubo de terebintina, aquele cheiro me envolveu. Foi como se tivesse acionado a lâmpada de Aladim. O cheiro evocou todas as maravilhas imaginadas e não imaginadas. Senti na hora que pintar seria muito mágico, um ritual. Fazíamos tudo como loucos, montávamos clubes de poesia, saíamos a pichar paredes. Éramos dadaístas".

"A década dos anos 60 é uma delícia", diz Aguilar. Seu antigo ateliê na Rua Frei Caneca era ponto de encontro cultural na época - e servia, à noite, para os trabalhos da gráfica do Partido Comunista. "O samba, muitas coisas da cultura brasileira foram catapultadas na ditadura de Getúlio Vargas, por exemplo. A cultura sempre é um redescobrimento do Brasil. É constante, diário", afirma.

Sempre em atividade, autodidata, Aguilar é contra a faculdade de arte. "Quando comecei, era mais pela cultura. Escrevia antes, sempre fui devorador de livros, e a pintura, a via dentro de um todo. Por isso, nunca frequentei faculdade. É mais fácil partir para outras mídias quando se tem um lado existencial."

O grande marco de sua carreira artística, conta Aguilar, foi a participação na histórica exposição Opinião 65, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, ao lado de artistas como Antonio Dias, Rubens Gerchman e Hélio Oiticica. "E ter sido aceito na 7.ª Bienal de São Paulo, em 1963. Eu pintava há um tempo, mas todo mundo detestava."

"Hoje, a Bienal ficou muito antidemocrática. Antigamente, cinco críticos selecionavam o que a gente mandava. Agora é uma espécie de ditadura dos curadores. São os meta-artistas", opina. "E é uma puta sacanagem para os artistas iniciantes. Têm de fazer um puta esforço, vender a mãe três vezes, para conseguir um pequeno local ao sol. É uma angústia muito grande que vejo entre os jovens."

É com entusiasmo que fala dos novos. E da "genialidade" que se faz hoje com a pichação e o grafite - já na década de 1960, Aguilar levou o spray para a pintura. "Os pichadores e grafiteiros estão fazendo um renascimento maravilhoso. Quando vejo uma pichação ou um grafite, acho muito bonito, muito lindo. As grandes coisas não são patrocinadas pelo governo, são iniciativas particulares, esses caras são geniais", expressa José Roberto Aguilar. Esses criadores foram tema de uma música da Banda Performática: "O sucesso é um canto de sereia/Não seja uma peça fabricada em série/Não vá morrer na areia", é o trecho da canção do "anti-herói".

AGUILAR - 50 ANOS DE ARTE

Autores: Nelson Aguilar e Solange Lisboa

Design: Fernanda Sarmento

Editora: Imprensa Oficial (560 págs. R$ 120)

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