Livro anterior ganha edição brasileira

Lionel Shriver lembra aquele membro da família que, em ocasiões festivas, insiste em mencionar um problema ainda sem solução, como o primo que passa cheques sem fundo. Numa conversa, dias atrás, ela conta que ficou grudada no debate recente da Suprema Corte americana sobre a reforma do seguro-saúde, a mais importante iniciativa doméstica do governo Barack Obama. O investimento emocional mais do que se justifica. Em Tempo É Dinheiro (Intrínseca, tradução de Vera Ribeiro, R$ 39,90), de 2010, Shriver antecipou o tema que haveria de consumir o primeiro ano de governo do presidente americano e é emblemático da insegurança introduzida pela crescente longevidade. Como ter uma vida digna além da "fase produtiva"? De que adianta a sofisticação da ciência se o tratamento médico é sinônimo de ruína material?

O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2012 | 03h09

A romancista é capaz de traduzir o labirinto da burocracia da saúde em prosa eloquente e mordaz. O papel dos cifrões nas decisões de vida ou morte é central nesta trama. Shep Knacker acha que seu idílio imaginado, a Outra Vida, vai começar quando ele se aposentar numa ilha na costa da Tanzânia. Mas sua mulher Glynis se transforma em obstáculo quando é diagnosticada com um tipo raro de câncer e vai precisar que Shep continue trabalhando para receber seguro-saúde.

"A liberdade não é muito diferente do dinheiro, é?", pergunta Shep, neste romance que questiona o preço da vida e a cotação da lealdade. Uma adolescente, filha de um amigo de Shep, sofre de uma doença degenerativa que vai não só contribuir para arruinar as finanças da família como desfazer a própria família. E o pai de Shep quebra a perna e precisa ir para uma residência de idosos.

Não é preciso encontrar Lionel Shriver pessoalmente para ter uma medida da indignação que ela expressa. Seja nas páginas do romance, seja nas respostas em que pesa a munição das palavras, Shriver não quer ser cúmplice do esquecimento. Sua disposição de detalhar todo tipo de aflição física provocada por doenças catastróficas, sem a menor concessão sentimental, é um desafio para o leitor, sim, mas uma atitude corajosa num ambiente editorial que às vezes confunde realidade com muzak. / L.G.

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