Livro aborda gênese do teatro cooperativado

As filosofias de trabalho de grupos como o Teatro da Vertigem, atualmente em cena com Apocalipse 1,11, e Companhia do Latão, que montou recentemente A Comédia do Trabalho, têm um ponto em comum: uma formação teórica que concilia perfeitamente a criação em grupo com a presença de um diretor, que lapida e dá forma ao produto final. Tal característica, que marcou a trajetória dos principais grupos teatrais na década de 90, é o terceiro estágio de uma mudança que começou no final dos anos 60 e se fortificou no período seguinte."Foi o surgimento de companhias que abriu novas tendências no teatro brasileiro, pois o trabalho, antes isolado, passou a ser cooperativado", observa Sílvia Fernandes, autora do livro Grupos Teatrais - Anos 70, em que analisa o nascimento e a atuação de novos grupos, responsáveis por uma ruptura de linguagem e encenação no teatro brasileiro.Sílvia trata de grupos como o Ventoforte, mas se concentra no Asdrúbal Trouxe o Trombone, do Rio, e o Pod Minoga e Teatro do Ornitorrinco, de São Paulo. Todos com características próprias: formados por jovens, pregavam a espontaneidade, alegria e irreverência como alicerces de seu trabalho."Como as companhias estáveis da década de 60 já estavam dissolvidas (especialmente o Teatro de Arena, em 1971, e o Oficina, dois anos depois), abriu-se espaço para novos processos de criação e modos particulares de fazer teatro", conta a pesquisadora, atual professora conferencista do Departamento de Artes Cênicas da ECA/USP, escola pela qual defendeu o tema como dissertação de mestrado.Membro da Equipe Técnica de Artes Cênicas do Idart naquela época, quando trabalhou com Mariangela Alves de Lima e Maria Thereza Vargas, Sílvia acompanhou pessoalmente todo o processo. "Além de catalogarmos todos os espetáculos que estavam em cartaz, coletamos registros sonoros que agora foram valiosos para que eu pudesse reproduzir integralmente trechos de peças", conta Sílvia, que presenciou praticamente todas as montagens.O íntimo convívio com as companhias teatrais e o conhecimento teórico de dramaturgia permitiram à pesquisadora detectar diferenças básicas entre os grupos. O Asdrúbal, por exemplo, criado por Hamilton Vaz Pereira e Regina Casé, ambos com menos de 20 anos na época, não escondia um ar de carinho melancólico nas caricaturas, enquanto o Pod Minoga, com Naum Alves de Souza à frente, era mais irreverente na abordagem de tipos e acontecimentos. "Eles também inovaram ao criar o próprio figurino." Já o Ornitorrinco, de Cacá Rosset e Luiz Roberto Galízia, ostentava com orgulho seu conhecimento da teoria do teatro, valorizando a palavra.Antropologia - De todos, Sílvia concentrou-se mais no trabalho do Asdrúbal, em que o ator desponta como figura principal. "A base das improvisações está assentada na experiência vital desse tipo de ator, que aprende a teatralizar seu cotidiano a partir de estímulos que buscam especialmente a ocupação eficiente do espaço e ampliação do gesto e da voz", analisa. "Eles também construíram um trabalho ligado à antropologia, levando o comportamento de uma época para o palco." A estréia do grupo foi em 1974, quando "desconstruiu" os personagens criados por Nikolai Gogol em O Inspetor Geral e incluiu elementos circenses, que seriam uma marca nas encenações seguintes.Como contraponto, surge, em 1977, o Ornitorrinco, que segue um caminho inverso. "As cenas de suas montagens eram rigorosamente desenhadas e suas fontes eram dramaturgos como Brecht, Strindberg, Jarry, de quem faziam um trabalho de co-autoria, jamais uma adaptação", conta a pesquisadora. "Eles criaram novas concepções cênicas, algumas recheadas por piadas obscenas." A diferença entre os estilos dos grupos é marcada por uma lembrança de Sílvia de um encontro com Galízia, no Rio, também em 77, quando assistiram ao Trate-me Leão, do Asdrúbal.Maravilhada, Sílvia não continha sua emoção, enquanto Galízia, apesar de também surpreso, fez restrição às "sujeiras" da montagem, ou seja, aos excessos cênicos de determinados momentos. "Ele não admitia a falta de um elaborado processo de criação e um estudado período de ensaio."Se a década de 70 foi marcada pelo surgimento de trabalhos coletivos, a de 80 serviu para a consagração de diretores. É o segundo estágio, em que surgiram diversos nomes, como Gerald Thomas e Gabriel Vilela, que despontaram como verdadeiras grifes teatrais. À parte apenas Antunes Filho, que já iniciava sua busca da técnica e da forma, centralizadas no ator.Nos anos 90, ocorreu uma espécie de mistura entre as tendências anteriores, com diretores ainda encabeçando seus grupos (como Antônio Araújo, Eduardo Tolentino, Sérgio de Carvalho), mas mantendo um processo de criação coletiva, em que todos opinam desde a confecção do texto até dos figurinos e da iluminação. "Os desafios radicalizaram-se e as companhias adquiriram uma estrutura cênica ao mesmo tempo original e estável", observa Sílvia.Grupos Teatrais - Anos 70 - De Sílvia Fernandes. Editora Unicamp. 267 páginas. R$ 29,00.

Agencia Estado,

17 de novembro de 2000 | 17h31

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