Livre do rótulo

Fina Estampa é novela que sai de cena em três semanas, carregando a maior audiência entre as últimas seis novelas do horário na Globo. Quando a história de Aguinaldo Silva começou, Paulo, personagem de Dan Stulbach, sujeito divertido, bem-sucedido e fiel à sua Stela (Júlia Lemmertz), parecia ser o sonho de toda mulher. Mas, estéril e resistente aos planos de inseminação da parceira, logo incomodou a audiência feminina. "Ele é ambíguo, como somos na vida", argumenta. Resumo da ópera: Paulo e Stella fazem o casal preferido da classe AB na trama, segundo o Ibope.

CRISTINA PADIGLIONE, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2012 | 03h08

Sem disposição para falar de vida pessoal, Dan é resguardado, quase tímido. Aposta que quanto menos souberem dele, mais acreditarão em seus tipos. Consegue daí escapar de rótulos - à exceção da camisa corintiana, ostentada com orgulho.

Mas, assim como frequenta arquibancadas e mesas de futebol, também sabe se juntar ao elenco do Saia Justa, no canal GNT. E em abril, completa seis anos de Fim de Expediente, programa bem falado que apresenta com mais três amigos na rádio CBN, toda sexta-feira.

Agora tem convite para protagonizar o próximo filme de José Padilha, que sai da Tropa de Elite e volta seu foco para o mensalão, em Brasília. Ah, sim: Dan também estuda proposta de outro canal para dirigir um "programa dramatúrgico". E bem pode aceitar, porque, como profissional que escolhe o que faz, não tem contrato fixo com a Globo. Na última semana, enquanto conversávamos em um café no Shopping Higienópolis, Dan respondia com gentileza e discrição aos alegres acenos de quem o abordava.

Seu personagem em Fina Estampa parecia ser o sonho de toda mulher. E, no entanto...

Talvez agora ele volte a ser o sonho de toda mulher. A gente está num período em que a história dos dois voltou a crescer, nessas ondas que a novela faz. Minha ideia era fazer um cara que não fosse caricato, porque às vezes você cai nisso, até pela questão do tempo, pela quantidade de cenas, ou até pelo apelo do público. Meu desafio era fazer um homem ambíguo, porque a humanidade reside nisso. Queria que ele tivesse qualidades e defeitos, como a gente.

Até que ponto uma novela, com ritmo industrial, permite que você estude as cenas?

Quando a gente contracena com alguém superlegal, como a Júlia, e a gente se dá muito bem, têm cenas que viram um certo jazz, como é a vida. Nas nossas discussões, um não espera o outro falar, como na vida. Tem coisas que são sutis, que só eu, ela e o diretor sabem, mas esse é o desafio. Parte do incômodo das pessoas com a rejeição dele ao bebê é porque ele era legal. E também não era uma coisa doentia, ele tinha bons argumentos. Ele achava que aquele filho, sem o óvulo dela e sem o espermatozoide dele, era de ninguém. É impressionante a quantidade de gente que me encontra e diz que eu estava certo.

Homens, aposto.

Homens.

Alguns pontos são muito frisados para o espectador. Acha que, de Senhora do Destino para cá, a novela está mais didática?

Antes de responder, quero dizer que todo mundo fala que novela é um problema, não dá tempo de fazer. Não tem sido assim. Eu falei pra Júlia: 'eu sou responsável pelo que eu faço'. A gente chega lá antes, estuda a cena, chama o diretor, vê como é legal fazer. Senão fica uma coisa tipo 'é o que dá pra fazer'. Não é. Tem atenção, tem dedicação, tem estudo.

Mas tem ator que não gosta do rumo do papel e induz o autor a matá-lo em cena.

Tem de tudo, é uma Arca de Noé, como eu brinco, não necessariamente com as melhores espécies, mas é. Agora, nessa novela eu tenho a sorte de contracenar com gente muito legal. É bonito de ver o que a Lília (Cabral) imprimiu no início da novela, o trabalho da Chris (Torloni), intenso, assim como um diretor que chega preparado e um diretor que não chega preparado faz diferença. A grande diferença de Senhora do Destino pra cá é que o capítulo é maior. Lembro a final da Copa, com Brasil e Alemanha, 62 pontos no Ibope. O último capítulo de Senhora do Destino deu 63, mais que a final da Copa. Hoje em dia as pessoas têm mais referências, têm internet, TV a cabo, tem o trânsito, o caos... Não sei se a novela é mais didática, mas ela conta melhor e mais claramente a história,

Em algum momento, desde que você quis ser ator, houve resistência à televisão?

Não, nunca. Das novelas e séries que eu vi quando era garoto, Vale Tudo, Roque Santeiro, Anos Rebeldes, eu me lembro até das falas. Ali, eu queria ser ator e aquilo era muito distante em mim. Eu estudava no Rio Branco, estava ainda nas peças de teatro, meio escondido dos meus pais. Eles não queriam que eu fosse ator, queriam que eu fosse engenheiro ou químico. Eu era bom aluno, então era um desperdício enorme que eu fosse ator, e nem tinha humor nessa conversa.

Tem projeto em vista no cinema agora?

Tem, com o José Padilha. É a primeira vez que falo disso, mas já tô querendo falar. O roteiro já está sendo lapidado. Envolve Brasília, política.

Você trabalha com contratos por obra certa?

Eu tive contrato fixo durante quatro anos (com a Globo) e abri mão do contrato em Queridos Amigos. Foi uma decisão difícil, mas foi boa. Sempre que a gente conversa, a Globo me propõe contrato longo, mas eu prefiro assim, por enquanto.

A Record não lhe propõe troca de canal?

A Record me procurou duas vezes. Em uma delas, eu tinha contrato em vigor. Eles me ligaram, até me propuseram duas ou três vezes mais o que eu ganhava, mas não quis ir porque achei que não era ético romper contrato, e eu também sempre fui muito feliz na Globo. Com contrato ou sem, sempre faço um trabalho por ano lá.

Uma vez nos encontramos no Troféu Imprensa, do Silvio, e...

Eu falei que eu ia lá receber o troféu, mas que fazia questão de conhecer o Silvio (Santos). E, depois do Troféu Imprensa, ele me recebeu na sala toda branca, sofá branco, ele de branco, mesa branca, tudo branco, (imitando a voz de Silvio) 'senta, senta, que vamos conversar'. Foi o máximo. Ele gravou uma chamada para o meu programa de rádio, que foi histórica, e o melhor momento foi quando ele gravou 'venha ouvir o Fim de Expediente com Dan Stulbach...' e eu disse: 'Silvio, tem um problema: como é que as pessoas vão saber que é você e não uma imitação?' E ele: 'Não, veja bem, ouvinte, eu sou eu mesmo, e estou convidando para o Fim de Expediente'. Foi muito bom.

Ele não lhe fez proposta?

O SBT me convidou também, foi nessa época do Troféu Imprensa, eles me convidaram para ser apresentador. Era um programa aos domingos, às 4 da tarde, enquanto tivesse jogo na Globo, comigo e uma modelo. Foi um convite bacana pra fazer uma revista dominical, mas também em função da repercussão do programa de rádio.

E a proposta de fazer o programa do rádio no SporTV?

A do SporTV não era o programa do rádio. Eles pediram para eu desenvolver um programa para eles, até chamei um cara da O2, que é meu amigo, o Renato Amoroso, que é um craque, e a gente desenvolveu o programa, mas depois não deu certo. Quando tive a ideia do programa de rádio, andando de bicicleta com os amigos, nunca achei que ia durar tanto, vamos fazer 6 anos agora. Na época, eu achava que tinha que haver algo entre a mesa redonda do domingo (imita Roberto Avallone) - 'Curintia, 7 a 0' - e o Manhattan Connection, que tem uma discussão elevada, super inteligente e para poucas pessoas.

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