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Livre como um táxi

O ‘Pasquim’ era o bloco do sujo da mídia impressa, um elixir sem remédio nem bula

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

22 de junho de 2019 | 02h00

Numa noite qualquer de maio de 1964, fui, com minha amiga de infância e então colega de redação Ana Maria Martins, que vocês conhecem e admiram como a escritora e acadêmica Ana Maria Machado, ao lançamento da revista de humor Pif-Paf, no Clube Marimbás, desde sempre encostado no Forte Copacabana. A festa foi um sucesso e a revista também, pois, além de Millôr, que a criou e editava, reunia os maiores humoristas da praça.

Mas a Censura do regime militar, no poder havia pouco mais de um mês, não a deixou chegar ao número nove. “Lançar a revista ao lado do forte deve ter sido visto como uma provocação”, provocou Jaguar, um de seus colaboradores.

Outro ilustre colaborador, Sérgio Porto, vulgo Stanislaw Ponte Preta, pouco depois se envolveria com o tabloide A Carapuça, que sobreviveu à Censura mas não à morte do humorista, em setembro de 1968. Murilo Reis, que à frente da Distribuidora Carioca bancara A Carapuça, convidou Tarso de Castro para levar a experiência adiante. Tarso convocou Jaguar e Sérgio Cabral (pai), e ao grupo se incorporaram Claudius, o publicitário Carlos Prósperi e Luiz Carlos Maciel. 

Reunindo-se no bar Jangadeiros, em Ipanema, decidiram de cara que o certo seria inventar um tabloide novo, de humor, amenidades e crítica de costumes. E que, por sugestão de Jaguar, se chamaria, preventivamente, O Pasquim. 

Uma sala no número 100 da rua do Rezende, no centro do Rio, abrigou a primeira redação, acrescida de uma secretária (a inefável Dona Nelma) e um boy (Harold Zager), mais tarde diretor gráfico e factótum do jornal.

Insisto nestes detalhes porque volta e meia apontam, em geral em obituários, que fulano foi “um dos fundadores do Pasquim”. Paulo Francis, Ivan Lessa e Henfil não fundaram O Pasquim, foram agregados à turma, como Ziraldo, que apenas cedeu um cartum da série Os Zeróis para o número de estreia, que chegou às bancas em 26 de junho de 1969. 

Foi de fato ousadíssimo lançar um semanário daqueles em plena ditadura (já vivíamos sob o tacão do AI-5 desde dezembro de 1968): um jornal de esquerda, sem patrão, em que todos os colaboradores podiam escrever o que lhes desse na telha, no estilo de sua escolha. 

Impresso na gráfica do jornal Correio da Manhã, o primeiro número não saiu com o requinte gráfico originalmente projetado por Prósperi. Como se tratava de um pasquim, ninguém chiou. Tinha 20 páginas e duas delas tiveram de ser preenchidas, em cima do laço, com cartuns de Don Martin (da revista MAD) e textos de Groucho Marx. 

No alto da capa, o mascote do jornal, o ratinho Sig (de Sigmund Freud), egresso dos Chopnics, quadrinhos que Jaguar e Ivan Lessa bolaram para o lançamento da cerveja Skol no Brasil, anunciava as principais atrações do número. Sob o logotipo, um dístico que seria seguido à risca: “Aos amigos tudo; aos inimigos, justiça.” 

Jaguar, cauteloso, havia sugerido uma tiragem inicial de 5 mil exemplares. Puseram 14 mil nas bancas, que em dois dias esgotaram, obrigando-os a rodar mais 14 mil. Em 15 semanas, chegou quase aos 80 mil. O número 20 bateu nos 100 mil. E o 22, com a histórica entrevista da atriz Leila Diniz, pulou para 117 mil, alcançando o teto de 200 mil cinco semanas depois. Detalhe fundamental: só de venda em banca. 

O primeiro entrevistado foi o colunista social Ibrahim Sued. Sugestão do Tarso, uma irônica “homenagem” ao padrinho in absentia do jornal, Stanislaw Ponte Preta, que raramente passava um dia sem gozar as asneiras de Ibrahim, em sua página na Última Hora. O improvisado esquema de pôr o entrevistado rodeado pela redação ou parte dela, enchendo a cara de uísque, não apenas deu certo, criou um novo estilo de entrevista, ademais aprimorado pela forma como foi editada. Sozinho na redação, Jaguar, que nem sequer sabia o significado da palavra “copydesk”, transcreveu a entrevista do gravador e a enviou em estado bruto, sem qualquer correção, para a gráfica. Bingo!

O Pasquim pagou caro mas também se beneficiou da audácia de nascer do contra (sobretudo contra as babaquices da classe média) e – para citar alguns de seus dísticos – “livre como um táxi”, “equilibrado como um pingente”, incômodo como “um folião num velório”, “contra o trigo e a favor do joio”, “pequeno mas penetrante”. E, ainda que nos primeiros tempos fosse mais folgazão, gozador, festivo, e mais atento a questões de comportamento, “uma brincadeira num tempo triste”, na concisa avaliação de Francis, aos poucos deixou-se contaminar pelo inevitável: a indignação política. 

Misto de Harakiri (revista de humor francesa, precursora do Charlie Hebdô) com o semanário independente nova-iorquino The Village Voice, anárquico e “modestamente megalômano”, o Pasquim era o bloco do sujo da mídia impressa, um elixir sem remédio nem bula, lido em várias partes do mundo (todas elas no Brasil) e amado por quem valia a pena ser amado. 

Quem mais se surpreendeu com sua fenomenal penetração foram seus próprios redatores e cartunistas. A ditadura e a direita não achavam a menor graça no Pasquim (sem o artigo definido a partir de janeiro de 1970) e tentaram, de tudo quanto é jeito, destruí-lo – com censura, confiscos, prisões e até um atentado à bomba. Para eles, a fina flor da imprensa alternativa não passava de um antro de comunistas, bêbados, pervertidos e drogados, empenhados em difundir ideologias exóticas e subversivas, desencaminhar a juventude e destruir a família brasileira. 

“De tanto ver triunfar as nulidades, o Pasquim acabou dando certo.” A frase é de Millôr, um mea-culpa de seu presságio negativo no primeiro número do jornal, que afinal logrou chegar ao número 1072, o equivalente a 22 anos e cinco meses de vida. Um ano a mais que a ditadura militar, rá! rá!

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