Livraria Belas Artes fecha suas portas em SP

A prateleira de poesia já estava vazia. De nada adiantou o choro inesperado, um punhado de boas recordações ou os discursos indignados. Nem um generoso desconto de 50% foi capaz de ressuscitá-los. No andar de cima, Fernando Pessoa, Nietzsche e Dostoievski repousavam em caixas de papelão. Em poucas horas, o vendedor Nelson Reis desceria as portas de um dos pontos mais representativos da cultura paulistana, a Livraria Belas Artes. Apesar dos seus 27 anos (sempre na Paulista, quase esquina com a Consolação), a livraria não resistiu às Megastores, à internet e a uma proposta de reajuste de aluguel de R$ 10 mil por mês. Esta terça-feira foi o seu último dia de vida.O fechamento da Belas Artes aumentou a lista de finais trágicos na região. Antes dela, outros pontos importantes para a história do lugar tiveram o mesmo destino - como o Bar Riviera e a lanchonete La Baguette. Além disso, esse parece ser o derradeiro golpe nas livrarias de pequeno porte da Paulista. Nos últimos meses, a 5ª Avenida e a Duas Cidades também encerraram suas atividades.Um dos seus primeiros sócios, José Roberto Marinho, foi pego de surpresa pela notícia: "O quê?! Fechou mesmo! Lamento muito. É um pouco da minha história,um pouco da história da cidade indo embora."Livraria foi ícone culturalA Belas Artes foi criada em 1979 por um grupo de amigos, alunos da Universidade de São Paulo (USP) e membros do grupo trotskista Liberdade e Luta (Libelu). Com a ditadura agonizando, a livraria tornou-se um importante ponto de encontro de intelectuais e boêmios. Nomes como José Serra, José Genoino, Fernando Henrique Cardoso e Marilena Chauí montaram parte de suas bibliotecas ali."É muito triste. Foi uma livraria de referência. Ela teve grande importância na história cultural desta cidade", disse a filósofa e professora da USP Marilena Chauí. "As grandes livrarias são shoppings. Só em locais como a Belas Artes a gente se sente bem", comparou o deputado José Genoino (PT-SP).Seu segundo proprietário, José Luiz Goldfarb (que esteve à frente da livraria até 2003), também recebeu a má notícia pela reportagem. "É mesmo? Eles nem vão mudar de lugar? Eu lamento muito." Goldfarb lembrou das coisas inovadoras que a Belas Artes trouxe à Cidade. "Nós sempre estivemos na frente. A Belas Artes abria todos os dias, inclusive à noite. Além disso, ela foi a primeira livraria a ter um café."Quem não parecia com muito remorso era o último proprietário, Luiz Eduardo, dono da editora Códice. "O aluguel foi para R$ 10 mil. Não tem como fazer milagre. Esse valor é impossível. O dono do imóvel deve estar querendo o espaço de qualquer jeito." Sobre as lamentações de clientes históricos, Eduardo foi categórico: "Eles choram agora. Mas estavam comprando na Cultura, na Saraiva... Diziam que a gente andava careiro."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.