Joao Brito/AE
Joao Brito/AE

Lives interrompidas: artistas relatam ataques de hackers, perda de seguidores e instabilidades

Destaques na era das lives, Maria Zilda Bethlem e Teresa Cristina relatam problemas para manter as apresentações no Instagram. A atriz decide processar a rede social. Teresa Cristina cria Movimento dos Sem- Lives

Danilo Casaletti, Especial para O Estado

16 de novembro de 2020 | 16h41

Desde meados de março, com a chegada da epidemia de covid-19 no Brasil e a consequente paralisação das atividades culturais, as lives se tornaram o palco de muitos artistas. Algumas delas se tornaram atrações fixas nas redes, como dias e horários definidos, e conquistaram fãs – e seguidores. As promovidas pela cantora Teresa Cristina e pela atriz Maria Zilda Bethlem são exemplos disso – ambas transmitidas via Instagram. Mas, desde outubro as apresentações ao vivo têm dado dor de cabeça para suas realizadoras, com episódios que envolvem ataques de hackers, perda de seguidores e instabilidade nas transmissões.


Teresa começou suas lives diárias em março. Misturando música e bate-papo em noites temáticas, ela viu sue fã-clube aumentar, ganhou patrocinadores e – quase sempre de surpresa – recebeu visitas virtuais de nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Gal Costa e o ex-presidente Lula. Mas, nos últimos tempos, as lives começaram, de acordo com sua assessoria de imprensa, a serem invadias e esvaziadas. Por duas vezes, ela pediu ajuda ao Instagram, que prometeu acompanhar as transmissões para tentar sanar o problema. 

Enquanto a questão não é resolvida, a cantora resolveu criar o Movimento dos Sem-Lives, que, durante o mês de novembro, vai levar suas apresentações para outros perfis. Entre os escolhidos, estão os atores Mariana Ximenes, Bruno Gagliasso, Babu Santana, Gregório Duvivier, Fabio Porchat e Fernanda Paes Leme. Questionada pela reportagem sobre como o Instagram a ajudou ou se teve algum prejuízo com a paralisação das apresentações online, Teresa não respondeu. 

Em maio, em meio ao isolamento social, a atriz Maria Zilda Bethlem criou a “Live da Alegria” para se encontrar virtualmente com amigos e colegas de profissão – tudo com transmissão por meio do Instagram. Não demorou para que os bate-papos ganhassem seguidores e despertassem o interesse da imprensa, já que a atriz costuma, de forma muito natural, fazer revelações envolvendo atores com os quais trabalhou, além de arrancar, com a mesma naturalidade, outras tantas confissões de famosos. Entre os entrevistados, estavam nomes como Antônio Fagundes, Tony Ramos, Lucélia Santos, Nicette Bruno, Miguel Falabella, Wolf Maya, Matheus Solano e Marcos Pasquim. Apenas uma pequena parte desse material ela tinha armazenado também em sua conta no YouTube.


No último dia 20 de outubro, quando completou 67 anos de idade, a atriz ganhou um presente nada agradável. Sua conta do Instagram, criada em 2011, foi invadida e todo o conteúdo que ela tinha em @mariazildabethlem foi deletado pelo suposto hacker. Em um vídeo publicado em um novo perfil que criou (@mzbethlemoficial), a atriz disse “perdeu um trabalho de valor inestimável” e que a invasão lhe causou “profundo desgosto”.

A reportagem do Estado estava em contato com Maria Zilda para uma entrevista, porém, nesse meio tempo, com a invasão da conta, a atriz passou pedir ajuda para recuperar a conta e todas o conteúdo que havia nela. “Socorro!!”, escreveu em uma das mensagens enviadas por e-mail. De acordo com ela, a conta foi devolvida pelo Instagram com um bug que faz com que as pessoas não a encontrem na busca do Instagram e todo o conteúdo continua desaparecido, apesar dos inúmeros apelos que, segundo ela, enviou ao Instagram. 

“Todos os colegas conseguiram seus Instagram de volta com o backup de tudo e eu continuo sem o meu”, diz Maria Zilda, em referência a casos semelhantes e recentes que ocorrem com a outras personalidades como Bianca Bin, Cleo (Pires), Tuca Andrada, Oscar Magrini e Joanna Maranhão também tiveram seus perfis invadidos. Outro caso de repercussão é o do cantora Teresa Cristina, que não chegou a perder sua conta, mas alega que suas lives, que ela fazia diariamente desde março, invadidas, esvaziadas e derrubadas no último mês, o que a levou a interromper as apresentações ao vivo por duas vezes, a último no dia 22 de outubro, e a criar o “Movimento dos Sem- Lives” (leia mais abaixo).

No último dia 4 de novembro, Maria Zilda realizou um live com o ator Jandir Ferrari, mas disse ao Estado que teve novo perfil bloqueado no meio do bate-papo e que não conseguiu salvar o vídeo da conversa. “Travou tudo! Estou fazendo as lives a partir de hoje no meu canal do YouTube. Me sinto sabotada e, no meio dessa tristeza que estamos vivendo, acho inadmissível isso acontecer. Fiquei de cama dias e decidi abrir outro do zero. Em 3 dias já tem mais de 6.000 seguidores. E. então eles, me bloqueiam no meio de uma live?”, escreveu, por email, além de mandar um print que mensagem que apareceu na tela.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa do Instagram para saber o que possa ter ocorrido com a conta da atriz Maria Zilda Bethlem. A resposta foi de que a empresa não comenta casos ocorridos em contas de terceiros. A reportagem também indagou se Maria Zilda conseguiria o conteúdo de volta, porém a resposta foi a mesma.

Maria Zilda, representada pelo advogado Anselmo Ferreira de Melo da Costa, entrou, no começo de novembro, com uma ação de danos morais contra o Facebook Serviços Online do Brasil Ltda., dono do Instagram. A atriz foi contatada pela reportagem, mas não respondeu às perguntas relativas ao processo.

Já o advogado constituído pela atriz, concordou em responder aos questionamentos que lhe foram enviados por mensagem.  Costa diz que do seu ponto de vista, e considerando outros casos ocorridos recentemente, as invasões são fruto de “uma máfia da Turquia que, através de algum recurso, que não sabemos informar qual, invade a conta” e se aproveita de toda a estrutura dela. “Pode acontecer como uma reação em cadeia. Podemos citar, por exemplo, o caso do ator Oscar Magrini (ao qual ele também representa em uma ação semelhante), cujo invasor encaminhou links aos demais seguidores, montando um cenários confiável que, com certeza, as pessoas que clicavam no tal link teriam seus dados ‘roubados’”, diz o advogado.


Segundo Costa, Maria Zilda não recebeu qualquer ameaça de extorsão dos invasores, mas sofreu desgaste emocional, já que passou dias tentando recuperar sua conta sem sucesso, pois “os hackers sempre saiam por cima”. Ele ressalta que desde o ocorrido a atriz tentou retomar o perfil de maneira administrativa usando as ferramentas oferecidas pelo Instagram. “A rede social não cumpriu com a devolução da conta e ela precisou criar um novo perfil e até hoje segue tendo dores de cabeça para reaver a conta verificada”, diz. Costa classifica o suporte como “ineficaz”.

De acordo com o advogado, a ação contra o Instagram envolverá também danos materiais. “Os danos morais se traduzem em toda essa situação desgastante que a atriz está vivenciando para recuperar sua conta, sendo um direito constitucional da mesma em pleitear tal indenização. Já os danos materiais resolvem-se no valor dos trabalhos perdidos de publicidade que deveriam ser realizados pela atriz em sua conta do Instagram mas que, por força de tal ataque de hackers, perdeu um considerável número de seguidores e, por consequência, engajamento, fazendo com que agências publicitárias não prosseguissem com os contratos pretendidos com a mesma”, afirma. Segundo Costa, ele vai pedir que a soma das indenizações nas duas ações não seja inferior a R$ 1 milhão.

O Instagram afirmou que não irá comentar as declarações do advogado a atriz e tampouco a ação que ela move contra a rede social.

Sobre os recentes casos de invasão de contas verificadas - aquelas que recebem o “selinho azul” que demonstram que elas são autênticas - o Instagram mandou a seguinte resposta, via assessoria: “Hackers que tentam obter acesso às contas do Instagram diversificam constantemente suas táticas para escapar das proteções que o Instagram coloca em prática. Mais recentemente, observamos uma tática pela qual hackers tiveram acesso a contas verificadas e alteraram as informações do perfil para sugerir uma afiliação com o Instagram, por exemplo, “instagramsupport”. Essas contas verificadas enviam links e mensagens suspeitas para usuários do Instagram, na tentativa de assumir o controle de suas contas também. Tomamos diversas medidas para interromper esse comportamento, incluindo: remoção de contas que tentam se passar pelo Instagram; acesso restaurado a muitas dessas contas para seus legítimos proprietários; aperfeiçoamento dos nossos sistemas para melhor detectar este tipo de comportamento”. A empresa afirma ainda que avalia proteções adicionais, como impor regras mais rígidas para a troca de nome das contas verificadas.

 

Mais segurança

Para Keli Angelini,  gerente de assessoria jurídica do Nic.br, associação criada por membros do Comitê Gestor da Internet no Brasil, o debate que resulta de casos como o de Teresa Cristina e Maria Zilda são importantes para chamar a atenção dos usuários de redes sociais sobre como proteger suas contas e dados . Segundo Keli, o invasor, em geral, tem três diferentes motivações: a primeira é a prática de extorsão; a segunda é para alterar ou excluir o conteúdo; e a terceira é para se passar pelo dono da conta. “Não temos dados para falar o quão comum é essa prática ou se ela tem aumentado nos últimos tempos, mas, de fato, temos visto esses tipos de casos”, diz Keli.

No caso da extorsão, ou seja, quando quem praticou a invasão pede, por exemplo, algo em troca para devolver a conta ou conteúdo, há um crime previsto em lei (artigo 158 do Código Penal Brasileiro). A mera exclusão do conteúdo, sem chantagem envolvida, não está tipificada como crime.

Porém, seja qual for a motivação, Keli orienta que a primeira atitude é fazer a denúncia para a plataforma – o Instagram tem um formulário específico para que o usuário relate esse tipo de problema. Além disso, é importante que o titular da conta registre um Boletim de Ocorrência na Delegacia de Crimes Virtuais relatando a invasão e os eventuais prejuízos que a ação possa ter lhe causado. Com o registro, a delegacia poderá dar andamento na investigação para tentar chegar ao infrator. 

Outra ação recomendada pela especialista, caso o invasor poste qualquer conteúdo, é tirar um print do post e lavrar uma ata notarial em cartório para que fique registrado qual foi o teor do post indevido. Com essas provas, uma vez identificado o invasor, o titular da conta consegue pleitear na justiça o ressarcimento por eventuais prejuízos sofridos.

Em relação à devolução e ao restabelecimento do conteúdo eventualmente deletado, Keli diz que não é de responsabilidade da plataforma. “O responsável pela guarda desse conteúdo é o titular da conta. A recomendação é a de que a pessoa faça um backup de fotos e vídeos que posta em sua rede social. Se o invasor excluiu ou indisponibilizou o conteúdo, é ele que deve ser responsabilizado e não a plataforma. A inimputabilidade da rede social, nesse caso, está prevista no Marco Civil da Internet. Isso já é consagrado no meio jurídico”, explica.

Para Costa, advogado de Maria Zilda, a rede social tem o dever de devolver o conteúdo. “É ingenuidade pensar que o Instagram não possui tecnologia o suficiente a permitir tal retorno de conteúdo, eis que qualquer pessoa com conhecimento sabe que existe um armazenamento de dados absurdo por trás dessa ‘teia’ das redes sociais”, diz.


 

Proteja-se

  • Dicas para manter sua conta segura
  • Não use uma senha fácil
  • Não repita senha usadas em outras plataformas, e-mails ou cadastros de lojas
  • Não clique em links ou e-mails que pareçam suspeitos
  • A plataforma jamais se comunica com os usuários através do Direct. Ignore esse tipo de mensagem e não forneça nenhum dado pessoal
  • Ative a autenticação de dois fatores (por SMS ou aplicativo) para obter segurança extra para a conta
  • Saia da sua conta no Instagram ao usar um computador ou celular que compartilhar com outras pessoas. Nunca utilize a opção “Mantenha-me conectado” ao usar um computador público
  • Escolha uma senha forte. Use uma combinação de, no mínimo, seis números, letras e pontuações (como ! e -)
  • Altere a sua senha com frequência


 

Reencontro

Maria Zilda diz que as lives que apresenta no Instagram lhe permitiu reencontrar virtualmente atores e cantores que ela não via ou conversava há tempos e que o bate-papo acabou por conquistar convidados e internautas. “Sinto uma profunda gratidão por ter acertado o meu objetivo”, diz ela, que mora sozinha no Rio de Janeiro e, desde o começo da pandemia, tem evitado sair de casa.

Uma vez por semana, ela faz a live com seus seguidores. “Isso me dá a chance de conhecer um pouquinho das pessoas também. É maravilhoso saber de onde são, o que fazem, o que pensam...”, diz.

Maria Zilda estreou na TV Globo em 1974 em um papel na novela Fogo Sobre Terra, de Janete Clair e, partir daí, foi presença constante nas produções da emissora, atuando em títulos como Escalada (1975), Água Viva (1980), Guerra dos Sexos (1983), Vereda Tropical (1984), Selva de Pedra (1986), Hipertensão (1987), Bebê a Bordo (1988), Top Model (1989), Vamp (1991), Vira Lata (1996), Por Amor (1997), Pé na Jaca (2007), entre outras. Sua última novela na emissora foi Êta, Mundo Bom, de 2016, reapresentada este ano no Vale a Pena Ver de Novo.

Por ser tão associada à emissora carioca – ela não tem mais contrato com a Globo – suas afirmações envolvendo colegas de elenco, além de causarem repercussão, também lhe renderam apelidos como “terror dos artistas” ou “terror da Globo”. Em uma dessas revelações, disse que o ator Ary Fontoura lhe confessou que era gay nos bastidores de uma novela. Recentemente, afirmou que o ator José de Abreu, seu par romântico em Bebê a Bordo, tinha mau hálito. Em conversa com a atriz Lucélia Santos, Maria Zilda disse que na última novela que fez os atores jovens ficavam no celular e usando as redes sociais no estúdio, e na hora de gravar, não sabiam o texto ou o que fazer em cena. 

Sobre as declarações, ela diz: “Falo, sim, mas nada que não seja verdade. Às vezes, sou mal interpretada, mas nunca inventei histórias para prejudicar ninguém e nem a TV Globo”. Em relação ao comportamento dos jovens atores, ela diz que aprendeu outro tipo de comportamento com a geração de atores com que trabalhou, que inclui nomes como Walmor Chagas, Paulo Autran e Fernanda Montenegro. “Eu sou antiga. Aprendi, e foi um privilégio, a entrar no estúdio sem o texto na mão, a não sentar nos móveis do cenário, entre outras coisas. Mas isso (o comportamento dos atores atuais), embora possa me incomodar, não é problema meu”.

Nos últimos anos, Maria Zilda atuou em produções da TV por assinatura, como Magnífica 70 e Pico da Neblina (HBO Brasil) e Chuteira de Prata (Prime Box), além de lançar o livro de memórias A Caçadora de Amor. Por ora, ela diz que não pensa em voltar às novelas “Eu decidi dar um tempo e esperar por uma personagem que me traga o prazer que sempre tive”.

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