Literatura tenta escapar da pura diversão, diz Vargas Llosa

Escritor peruano que faz palestra em SP nesta quarta diz que devemos evitar tendência americana de ´escrita bem articulada´, mas ´vazia de pensamentos´

Agencia Estado

14 de junho de 2007 | 17h57

Aos 71 anos, o escritor peruano Mario VargasLlosa participa de uma batalha com o que julga ser um malefíciopara a atual literatura latino-americana: a tendência para umaescrita bem articulada, inteligente, mas vazia de pensamentos,útil apenas como entretenimento. "É uma tendência americana quedevemos evitar", conta o autor, em entrevista realizada no aindaluxuoso hotel Copacabana Palace. Ele veio ao Brasil para umencontro com o público, ao mesmo tempo em que prestigia orelançamento de sua obra, agora pelo selo Alfaguara. Para Llosa, passada a esmagadora fase do realismofantástico ("uma espécie de literatura, aliás, muito indefinidapois todo tipo de escrita parecia se encaixar ali"), aliteratura não pode se aproximar do cinema ou da televisão comoforma de atrair público. Antes de conquistar novos leitores, amedida provocaria a lenta morte da boa literatura, privilegiandoapenas a diversão. Escrever é, para qualquer escritor, umaforma de afugentar demônios internos, às vezes como forma deprotesto. Depois de ter escrito tantos livros, o senhor aindadispõe, digamos, de muitos demônios para exorcizar? Mario Vargas Llosa - Com certeza: a vida não me serásuficiente para contar todas as histórias que gostaria de contar Tenho muitos projetos mas, infelizmente, acho que não tereitempo suficiente. Nunca enfrentei um problema comum aosescritores, que é enfrentar a página em branco. Jamais fiqueiparalisado com períodos de infecundidade. Comigo acontece ocontrário: não tenho tempo necessário para escrever tudo o quepretendo. Talvez por conta da demora que não tenho na elaboraçãode um livro, algo como dois ou três anos. Escrever é um ato sacrificante? Há períodos difíceis, especialmente afase inicial com a primeira versão. Já perdi até um ano emorganizar a história. E o que me estimula é reescrever: gosto decorrigir, de castigar a linguagem. Em princípio, sinto ahistória como algo muito distante mas, à medida que o trabalhoprogride, chego ao final com a sensação de que tudo que vivoestá na história que escrevo. Como descobrir que a história, enfim,está terminada? É difícil. Muitas vezes isso acontece porsaturação: ou termino o livro ou ele acaba comigo. Na verdade,chega o momento em que correções demais podem destruir a obra. Asabedoria, portanto, está em aceitar que tudo terminou. É uma decisão dolorosa? Vargas Llosa - Eu diria ambígua. Por um lado, há asatisfação do trabalho terminado, mas, por outra, a tristeza porabandonar uma vivência que levou anos. Eu procuro sempre iniciarimediatamente outra história para evitar essa sensaçãonostálgica. E, como tenho muitos projetos por realizar, épossível emendar algo. O senhor já disse, certa vez, que oteatro teria sido seu primeiro amor literário. Sim. A primeira obra que escrevi, aos 15anos, foi uma peça teatral. Fiquei motivado por uma encenação deA Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, que assistiquando jovem, em Lima. Era uma montagem argentina e a formafragmentada com que o tempo é tratado, os saltos do presente aopassado e vice-versa, essa liberdade para tratar a cronologiados fatos, tudo isso eu só tinha visto nos romances modernos.Foi um choque estimulante. E como descobrir que determinadahistória deve ganhar o formato teatral e não de um romance? É algo misterioso. Sei distinguir, masnão tenho explicação para isso. Nos anos 70, eu queria escreversobre uma tia-avó que morreu com 104 anos. Sua história erafascinante e misteriosa - dizia-se que abandonou o noivo noaltar porque algo aconteceu, mas nunca se soube exatamente o quê. Terminou solteira e, nos últimos anos de vida, desligou-secompletamente do presente e regressou à infância, falando comose ainda vivesse em sua terra natal. Era fascinante ver opassado ressuscitado. Eu queria escrever essa história e, paramim, ela só poderia ser contada como teatro. Um detalhe: paraescrever uma peça, o autor tem de ser modesto - enquanto umromance permite qualquer tipo de liberdade, uma peça é umtrabalho de grupo, o que impõe limitações. Assim, para mim,teatro é uma lição de modéstia. Por que a preferência por personagensidealistas, às vezes até fanáticos? O romancista, em geral, tem atração porpersonagens que rompem a normalidade, representando a exceção enão a regra. E, mesmo quando é comum, o personagem necessitaapresentar características excepcionais. O curioso é que algunspersonagens se impõem, deixando o segundo plano e setransformando em protagonista. Creio que é o momento maisexcitante, quando o romance se movimenta por si mesmo. Antônio Conselheiro, de A Guerra doFim do Mundo, é um de seus personagens mais fortes, concorda? Sim. Foi curioso pois, a um determinadomomento da escrita, me convenci de que o leitor deveria ver oConselheiro da mesma forma que ele era visto pelos seusseguidores, ou seja, a distância, como uma figura mais divinaque humana. Por isso que, em A Guerra do Fim do Mundo, ele éum personagem visto a distância. Essa foi uma das maioresexperiências literárias por que passei. E jamais teria escritoesse romance se não tivesse lido Os Sertões, de Euclides daCunha, um dos autores que todos latinos deveriam ler paraentender o que representa a América Latina atual. Ele descreveconflitos ideológicos, que são muito atuais. O que lhe interessa hoje na literaturalatino-americana? Gosto muito do que escreveu RobertoBolaño, justamente por estar contra a corrente da literaturalight, hoje dominante. Trata-se de obras bem elaboradas, masfacilmente esquecíveis, enquanto Bolaño buscava romancesambiciosos, ao estilo dos escritos do século 19. Hoje, temosmenos literatura fantástica que há alguns anos. A moda realmentepassou. Não vejo agora uma corrente dominante, mas sim essaliteratura ligeira, que considero preocupante. Apesar decriativa, essa escrita não passa de entretenimento e, se nãopassar disso, a literatura vai perder a batalha para a televisãoe o cinema. Não se pode competir com o Homem-Aranha e Piratasdo Caribe, que acho muito divertidos, mas é uma derrota certa.Contra o cinema, devemos batalhar com os demônios de Dostoievski. Aí sim a vitória é certa.Relançamento e palestraMario Vargas Llosa garante não terpreparado algo muito fechado para a palestra que faz na quarta-feira, 13, a partir das 19h30, no Centro Cultural Branco do Brasil - aidéia é conversar com a platéia sobre sua vida, carreira e aarte de escrever. O encontro será mediado pelo crítico SamuelTitan. O escritor peruano, que nesta terça-feira falaria com o públicocarioca, vem ao Brasil também para o relançamento pelo seloAlfaguara de dois títulos de sua obra completa revista eatualizada por ele: Pantaleão e asVisitadoras e A Cidade eos Cachorros. O primeiro conta a famosa história do capitãorecém-promovido do Exército que recebe a inesperada missão decriar um serviço de prostitutas para as Forças Armadas do Peruisoladas na selva amazônica. A obra já inspirou montagensteatrais além de uma versão cinematográfica, Pantaleão e asVisitadoras, dirigida por Francisco Lombardi, já disponível emDVD no Brasil (distribuição Europa Filmes). O segundo, obra de fundo autobiográfico que projetou oescritor no mundo literário e até hoje é considerado um dosgrandes clássicos da literatura latino-americana, se passa noColégio Militar Leoncio Prado, em Lima, onde um violento códigode conduta permeia o cotidiano dos cadetes. Antes de cumprir com as obrigações, Llosa aproveitoupara conhecer a cidade de Búzios, no litoral fluminense. Ficoudeslumbrado. "Fazia tempo que eu não descobria uma cidadelatino-americana que consegue conservar com tanta graça suaarquitetura original", disse ele, igualmente deslumbrado com oRio de Janeiro.

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