Literatura reunia mestres em Maceió

O acaso fez de um obscuro jornal literário, que este ano completa 70 anos, o berço de uma das maiores safras de escritores regionais brasileiros. O semanário cultural Novidade circulou de 11 de abril a 26 de setembro na Maceió de 1931. A capital alagoana era mais uma cidade periférica do Nordeste. Mas, por uma coincidência feliz, reunia entre seus moradores os então aspirantes a escritor Graciliano Ramos, Jorge de Lima, José Lins do Rego, Aurélio Buarque de Holanda e Santa Rosa. Dirigido por Alberto Passos Guimarães e Valdemar Cavalcanti, o Novidade não teve dificuldades para reunir a nata do que viria a ser chamado de movimento regionalista brasileiro. O médico Jorge de Lima morava em Maceió desde 1902, e montara consultório próximo ao Rio Salgadinho, no centro da cidade, em que lançaria em 1927 o Mundo do Menino Impossível, aos 35 anos. José Lins fora transferido pelo Banco do Brasil da Paraíba, de onde também viera Santa Rosa, futuro capista da editora José Olympio e cenógrafo da primeira encenação de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, no Rio de Janeiro dos anos 40. Recém-saído da prefeitura de Palmeira dos Índios, no interior alagoano, mestre Graça tinha 39 anos quando foi nomeado diretor da Imprensa Oficial do Estado, da qual se demitiria no fim de 1931. Publicou seis textos no Novidade , um dos quais o 24.º capítulo de seu primeiro romance, então inédito, Caetés (1933). Os demais artigos, como Sertanejos, do primeiro número da revista, foram depois reunidos em Viventes das Alagoas. Aurélio Buarque de Holanda tinha 13 anos quando saiu em 1923 de Passo de Camaragibe, no interior alagoano, rumo a Maceió, de onde só sairia em 1938, para o Rio de Janeiro. Em 1931 ainda era estudante e fazia poemas, como o também colaborador do Novidade Arnon de Mello, pai de Fernando Collor e futuro ministro do Trabalho de Getúlio Vargas. A revista também tinha colaboradores de outros Estados. Álvaro Lins escrevia de Pernambuco e o mineiro Murilo Mendes chegou a enviar a Jorge de Lima dois poemas, que foram publicados no segundo número de Novidade . A trajetória do periódico surpreenderia: seis meses de uma revista ilustrada, com 16 páginas por edição semanal, 24 edições ininterruptas, um feito pouco comum até para os dias de hoje, na ainda periférica e hoje falida cidade de Maceió. O habitual nos anos 20 e 30 no Nordeste eram jornais literários de curta duração, criados por jovens da elite ilustrada e alimentados por grêmios estudantis que copiavam a estrutura da Academia Brasileira de Letras. O Novidade só sobreviveu tanto tempo porque Alberto Passos Guimarães bancaria as edições, com o salário de despachante federal na Alfândega, onde desembaraçava as mercadorias do exterior até as mãos de seus destinatários na cidade. Tio do ator Paulo Gracindo, Guimarães tinha 23 anos. Foi ele quem convenceu o amigo Valdemar Cavalcanti, então jornalista do órgão da Arquidiose O Semeador, a lançar o jornal-revista. A publicação durou quanto durou o emprego de Guimarães. Com o serviço de clicheria do Diário da Manhã, de Recife, o semanário era impresso numa tipografia modesta e ronceira, nos fundos da Livraria Villas Boas, no centro da capital. Era vendido todo sábado a 400 réis nas bancas, após a entrega da distribuidora do Jornal de Alagoas. Em formato 20 cm x 30 cm, a maioria dos textos era diagramada em três colunas, com tiragem que aumentou gradativamente de 500 para 850 e mil exemplares. Toda edição trazia um editorial tomando toda a capa, sem ilustrações. A diagramação era de Santa Rosa. Política - A revista deu voz à corrente propagada por Gilberto Freyre (que escreveu um artigo para o Novidade ) e pelo Centro Regionalista do Nordeste. E funcionou como reação ao Modernismo da fase histórica, de 22. Poucos produtos culturais podem servir de retrato de uma geração como o Novidade . A longevidade e os nomes que dele participaram fazem do semanário uma amostra do que pensava parte da intelectualidade comprometida com o regionalismo nordestino. Primeiro, havia uma preocupação quase documental de intervir na realidade e sair da modorra cotidiana. "As horas dormem em Maceió", anuncia texto na página 15 do número 15. A vida na cidade se desenvolve em torno dos ideais de burocracia e casamento, garante o texto. Os bondes mandam todos para casa às 22 horas e só a partir do segundo semestre de 1931 se inaugura o horário das 19h30 como última sessão de cinema. Não por acaso, Novidade se revelou uma publicação não só literária, mas de informação política (os acontecimentos que levaram à Revolução de 30 fervilhavam) e artigos sobre temas variados. "Novidade não é essencialmente literária nem essencialmente política. Acolhe o pensamento de todos para interessar a todos", dizia o slogan da revista em quase toda edição. Havia uma seção sobre filmes mudos e outra de moda. A coluna fotográfica Novidade na Rua ocupava uma página com imagens de jovens saindo da missa, indo à praia, andando no centro. Uma das intenções manifestas dos que escreveram no Novidade era um sentido comum de atualização sem rupturas drásticas com a tradição. É generalizado no Novidade a posição crítica ao regionalismo pitoresco, típica da produção literária anterior, que encarava o País como uma cultura selvagem, atrasada por causa da mestiçagem, uma paisagem tropical imprópria ao desenvolvimento. O destino da nova geração, diz o editorial do primeiro número, é intervir em sua época. "Não será apenas se rebolando de deleites intelectuais por essa coisa atraente a que Flaubert chamava de sacrossanta literatura que a nossa geração cumprirá esse destino." Os textos da publicação têm em comum a tendência de redescobrir os fatos do Brasil, fazer o registro documental da realidade sertaneja, abrir o diálogo ao "outro", de recuperar no passado o que foi posto à margem. Nisso, comungavam de certas premissas do Modernismo de 22, de quem também apropriaram vários procedimentos técnicos na escrita. Nacionalismo - No fim da década de 20, as inovações modernistas se dissemiram de forma progressiva. Mas a vocação pela ruptura tinha limites. O ideário dos colaboradores do Novidade era uma inflamada reação ao Modernismo de recorte antropofágico, que dominou os anos 20 com Oswald de Andrade e Mário de Andrade. Tudo o que no Modernismo de 22 era sinal de ruptura e estrangeirismo, no Novidade soava suspeito. Em Do Patriotismo Brasileiro, publicado por Paulino Jorge no número 19, nossa "inferioridade" em relação à Europa levaria ao culto de doutrinas "mirabolantes". Era o caso da Antropofagia, a livre possibilidade de incorporar, no jogo criativo, as influências multiculturais e estrangeiras, como um canibal que come o tutano dos inimigos, mas só dos valorosos, para extrair sua energia vital. Os textos do Novidade , hoje nos arquivos do Instituto Histórico e Geográfico de Penedo (AL), eram suscetíveis ao contato com experiências metropolitanas que os assustavam e encantavam - contato mantido em viagens, com artefatos da modernidade como o cinema ou com a leitura de jornais e revistas como a Klaxon de São Paulo. A paisagem urbana mudava e o diálogo com os artefatos da modernidade provocava necessidades de mudança e o medo de perder o fio das tradições mais queridas. Foi assim que, entre a pressa e a comodidade, regiões de ódio se tocaram nas páginas do Novidade .

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.