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Literatura perde o escritor Gore Vidal

Autor de livros e roteiros, americano era considerado um dos intelectuais mais controversos

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo,

01 de agosto de 2012 | 14h18

A morte do escritor norte-americano Gore Vidal, no início da noite de terça-feira, aos 86 anos, de pneumonia, teria sido descrita por ele mesmo como naturalíssima. Afinal, dizia o iconoclasta, ele era exatamente o que aparentava: uma pedra de gelo. “Por trás dessa carcaça fria, se você quebrar o gelo, vai encontrar água gelada.” Assim, a temperatura do corpo não mudou com sua morte, mas os EUA ficam mais frios com seu desaparecimento. Vidal podia ser um iceberg, como dizia, mas fazia subir o termômetro quando abria a boca ou lançava um livro. Foi assim desde o primeiro romance, Williwaw (1946), publicado quando o autor acabara de completar 21 anos.

Escrito enquanto Gore Vidal servia como subtenente num navio de suprimentos durante a 2.ª Guerra, Williwaw pretendia ser uma denúncia das relações nada amistosas entre os tripulantes de um navio, comandado com mão de ferro por um sujeito chamado Evans. Insubmisso por natureza, não demoraria dois anos para lançar o polêmico The City and the Pillar (1948), dedicado ao ex-amante Jimmie Trimble, atleta morto prematuramente. Seu colega de escola, Trimble morreu durante a guerra, lutando em Iwo Jima. A considerar o tema do romance, a história de um jovem esportista de Virgínia que descobre sua homossexualidade, o livro é o relato autobiográfico dessa relação.

O livro provocou escândalo e colocou Gore Vidal na lista negra da imprensa oficial (o New York Times deixou de publicar resenhas de seus livros), mesmo sendo filho da aristocracia norte-americana, descendente de senadores (o avô) e de pioneiros da aviação (o pai). Teve de amargar algum tempo escrevendo programas de televisão sob pseudônimo.

Autor de 25 romances, dois livros de memórias e vários volumes de ensaios e estudos sobre figuras históricas, o escritor também tentou seguir a carreira política dos ancestrais, mas a literatura, felizmente, acabou ganhando um grande autor com suas sucessivas derrotas eleitorais. Ele era um espinho na vida de políticos conservadores. Acusou Bush de ter conspirado com os terroristas para derrubar as torres gêmeas em 2001. Causou escândalo com seu retrato do presidente Lincoln, apresentado como um sifilítico hipócrita que pouco ligava para escravos. Foi quase excomungado pelo Vaticano por sua interpretação da vida de Cristo (Ao Vivo do Calvário), em que mistura os Evangelhos com estrelas de Hollywood e pastores de tabernáculos mecânicos.

A ambição literária de Gore Vidal era proporcional ao ego desse aristocrata americano, meio-irmão de Jackie Kennedy e parente de Al Gore que muito cedo aprendeu na Academia Militar ser o mundo dividido entre comandantes e comandados. Ele preferiu o primeiro papel, apesar de trocar a carreira militar por um lugar menos confortável no mundo literário, onde arranjou mais inimigos que amigos. Gore Vidal incomodava. E incomodava por ter estilo, definido por ele como um atributo de quem se conhece bem, sabe o que quer dizer e diz, sem se importar o mínimo com a opinião alheia.

Sua visão da história é, portanto, extremamente pessoal. Aos 14 anos, dizia ter lido tudo o que importava sobre ela. E provaria, no futuro, ter opiniões bem diferentes dos historiadores oficiais. No romance histórico Juliano (1964), por exemplo, ele entra na contramão ao defender que Constantino, ao apoiar o nascente cristianismo, estaria mais interessado em autopromoção política do que propriamente em professar sua fé religiosa. O imperador romano Flavius Claudius Julianus, assim, não agiu errado ao restaurar antigas seitas profanas e mais antigas e lutar contra o cristianismo (de modo sintomático, o escritor acaba assumindo a narração no lugar do imperador, que deixa um manuscrito destinado a um futuro editor - o próprio autor, claro).

Em 1981, aprofundaria seu estudo sobre religiões ancestrais ao escrever o extenso Criação. Nele, o escritor acompanha as viagens de um diplomata persa do século 5.º, empenhado em comparar as crenças e religiões de povos orientais com a filosofia dos antigos gregos. Lincoln (1984), como se disse, é uma biografia controversa do 16.º presidente norte-americano, em que Gore Vidal, num volumoso e pesquisado estudo, mostra o líder mais empenhado em controlar a União do que com o destino dos escravos ou os horrores da Guerra Civil. O escritor jamais assume o ponto de vista do presidente. Vidal é Vidal o tempo todo. Estilo é tudo para ele, e é assim que ele surge, exuberante, numa cena de Roma, de Fellini, representando a si mesmo (ele morou em Ravena com Howard Auster, seu companheiro por 53 anos).

Criado pelo avô cego, Eugene Luther Gore Vidal, nascido em 3 de outubro de 1925, em West Point, Nova York, desde cedo aprendeu a detestar a mãe alcoólatra, Nina Gore, filha do senador democrata Thomas P. Gore. Seu mundo era essencialmente um mundo masculino. Tanto que uma das poucas personagens femininas de sua ficção é um transexual, que, no livro Myra Breckerindge (1968), estupra um garanhão de Hollywood com um dildo e, depois de um acidente e a vã tentativa de mudar de sexo, acaba como eunuco. Não era o caso do hipersexuado Vidal, que se orgulhava de ter transado com toda a beat generation (Jack Kerouac incluído).

Grande roteirista de cinema, ele assinou o do filme De Repente, no Último Verão, baseado na peça de seu amigo Tennessee Williams, tratando com elegância um tema insólito, o do canibalismo ligado ao estupro de um gay.

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