Maria Fernanda Rodrigues/AE
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Literatura em águas escuras, no meio da selva

Excursão reúne autores e leitores para subir o Rio Negro, a partir de Manaus, com escalas na floresta, numa experiência capaz de aguçar a criatividade - e quebrar a solidão do ato de escrever

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2012 | 08h50

MANAUS - Algumas das pessoas que embarcaram no cruzeiro literário Navegar É Preciso, realizado pela Livraria da Vila entre 30 de abril e 4 de maio, já tinham viajado para o Brasil - talvez não para a Amazônia, andado de bicicleta pela região da Provence, na França, ou estado na Birmânia. Nunca, no entanto, tinham tido uma experiência como esta: entrar num barco em Manaus, que subiria o Rio Negro enquanto elas conversavam sobre literatura com escritores de carne e osso que, sem redoma, sentariam ao lado delas no café, almoço e jantar. Tampouco os quatro escritores convidados - os brasileiros Ignácio de Loyola Brandão, Edney Silvestre e Nilton Bonder e o português de origem angolana Valter Hugo Mãe - tinham vivido algo parecido em suas peregrinações literárias. E cada um saiu com uma história para contar, e uma forma diferente de contar o que viu. Uns, por exemplo, vão dizer que passearam pela floresta alagada por um rio prestes a bater o recorde histórico de cheia. Valter Hugo Mãe, a la Manoel de Barros, vai contar que navegou "pelo lugar do voo dos pássaros".

As anotações de Hugo Mãe, aliás, chamaram a atenção desde o primeiro passeio pela floresta - os debates eram realizados no barco, mas o grupo saía duas vezes ao dia para conhecer a região. "Eu ainda não sabia onde estava, e Valter tomava notas", disse Edney. "Nunca vi ninguém anotar como ele; fiquei surpreso", comentou Ignácio. E o que ele escreveu no caderninho? Ao ver um cipó, anotou: "Penso em como seria bom se quando nos feríssemos o sangue regressasse correndo ao coração, protegendo-se, preferindo permanecer. É um pouco frustrante perceber que o sangue, definindo tanto a nossa história, em qualquer oportunidade, nos abandona". Aranha: "Vimos uma aranha que voava com as patas. Parecia um bicho de fio de cabelo que passava atrapalhada no ar".

Para ele, a poesia está naquilo que vemos, e porque as pessoas têm o hábito de reduzir a realidade é que se cria uma expressão menos valiosa. Tipo, cipó. "Não é uma mentira e nem é uma analogia. É só uma evidência, mas às vezes estamos tão pouco preparados para aquilo que é evidente que não conseguimos expressar. Ou quando a expressamos reduzimos a evidência, como se a realidade fosse demasiadamente fantasiosa para que não a conseguíssemos apreender de imediato." Curioso que em outro momento, quando fazia cafuné num pequeno réptil no braço do guia, perguntou o nome. "É filomedusa." E Valter brincou: "Um sapinho, pronto. Que mania de complicar".

Edney anotou pouco, fez um ou outro desenho e comentou que fora dali talvez entendesse o que tinha se passado naqueles dias, quando encontrou o "extraordinário" em seu primeiro contato com a floresta. Ignácio, que também se disse muito imerso na experiência e por isso não podia, embarcado, simbolizá-la, fez uma única anotação nas andanças: "casal que desaparece na floresta". É possível que isso vire um conto. "Fico muito fascinado com gente que some e imaginei o último casal da trilha desaparecendo pela floresta, mas só."

Mãe. Valter Hugo não disse à mãe o que viria fazer no Brasil e talvez ela não achasse graça da piada que o filho fez quando o guia pediu que um dos participantes o ajudasse pegando sua carteira no bolso. Era tarde da noite e o grupo havia saído do barco em lanchas à procura de jacarés. Quando o senhor tirou do bolso um jacaré minúsculo, mas de verdade, o escritor logo pensou: "pois é uma carteira Lacoste". Mas foi a ideia de estar perto de um "jacaré gigante de uns 4 metros", que ele não sabe ao certo se viu ou imaginou, que mais o impressionou durante toda a viagem.

Foi por causa de um problema de saúde da mãe que ele não falou da Amazônia - e quase não viajou. Veio e percebeu, ao embarcar, que teria de descontrair e deixar a angústia para lá. Deu certo.

"Agora ela vai saber que estive com um jacaré enorme, que abelhas estranhíssimas saltaram todas para a minha cara e que foi horrível. Vou contar que vimos os botos, que eles engravidam as meninas, todas essas coisas terríveis", brincou. "Hoje, sinto-me dois anos distante do homem que embarcou no aeroporto do Porto. Quando voltar, estarei robustecido para enfrentar a dificuldade que sobra para ser enfrentada."

Dos males, o menor. Foi uma viagem extremamente segura no que diz respeito a fatores externos e a mãe de Valter Hugo não teria com o que se preocupar. O barco subiu o Rio Regro até o município de Novo Airão, a 115 km de Manaus. Da Amazônia, os participantes conheceram o jardim de entrada logo na primeira manhã da viagem. Uma trilha de 1h30 por uma floresta úmida e abafada deu a ideia da imensidão do lugar. Nenhuma onça ou bicho desconhecido para contar história - Valter bem tentou sugerir que todos contassem que tinham, sim, visto uma onça. Nenhum pássaro mais sonoro. Só verde. Todos os tons, como no maior dos quebra-cabeças.

Para dar uma cara a mais de aventura, o guia propôs que o grupo saísse da trilha e andasse um trecho da mata fechada. Desvia de um galho aqui, enrosca em outro ali e a histeria geral: o encontro com as nômades e carnívoras formigas-correição fez o viajante pular, se bater e matar umas tantas que lhes subiam pelas pernas. Dois dias depois, outro ataque inusitado. Ao encostar na margem do rio, a lancha foi invadida por um bando de macacos que, com macaquinhos nas costas, protagonizaram um dos momentos de maior descontração ao subir nos ombros e cabeça dos turistas e enroscar em seus pés.

Mergulho. Mas houve quem entrasse de cabeça e se arriscasse um pouco mais. De tão absorto na experiência, Leone Novaes de Lima, 18 anos - que havia sido surpeendido com a viagem ao vencer o concurso cultural da Rádio Eldorado e nunca tinha ouvido falar nos autores convidados -, jogou-se no rio sem saber nadar. "Fomos autorizados a pular para conhecer o rio. Vi os olhos de todo mundo brilhando, todos felizes, e pensei: quero sentir essa alegria. Perguntei para mim mesmo qual era o grande segredo desse rio em que está todo mundo pulando." A correnteza era forte e o nome do rio faz jus à sua cor. Foi resgatado pelo músico Charles, do grupo Barbatuques.

"Eles falaram do boto, do jacaré, e mesmo assim eu pulei. Acho que segui o instinto, queria fazer parte." Resultado: Leone, que já teve uma crônica vencedora em um concurso e publicada em livro - lida corajosamente por ele para todos no último dia do passeio -, quer escrever mais, e vai entrar na natação. "Tudo o que estou vendo e associando é um bom pontapé para eu sentar na minha cadeira e começar a escrever uma história." Leitor de Harry Potter e companhia, garantiu que vai ler os livros dos colegas de excursão. "Começarei por quem considero mais parecido comigo, uma criança mentalmente, pelo menos para mim, o Ignácio de Loyola Brandão. Ele foi fantástico."

Formação. Ao contrário da maioria dos eventos literários brasileiros, o Navegar É Preciso não pretende formar leitores. Nem é necessário. Uma pesquisa informal revelou que os participantes - quase todos mulheres - leem entre 15 e 20 livros por ano. Todos já tinham lido pelo menos o livro de um autor convidado e ninguém saiu sem comprar um exemplar na livraria flutuante.

Quando o proprietário da Vila, Samuel Seibel, chegou à reunião de marketing com a ideia desse cruzeiro, achou que seria ridicularizado. Ele queria que esse fosse mais um ponto de encontro da sua rede de livrarias, num barco, para que não houvesse dispersão, e que também fosse um polo cultural. Para esta edição, além dos escritores, ele levou para a Amazônia a atriz Clarice Niskier, que na primeira noite fez a leitura dramática de trecho do Eu Matei Sherazade, da libanesa Joumanna Haddad, e na terceira encenou a peça A Alma Imoral, baseada no livro homônimo do rabino Nilton Bonder. Para dar o tom, levou parte do grupo Barbatuques.

"Temos muitos eventos maravilhosos de literatura, mas o que torna este projeto diferente é que as pessoas vêm sem saber o que vão encontrar, mas predispostas a se desarmar." O projeto ainda não dá lucro, mas também não dá prejuízo.

Transposição do personagem. Um dos passeios mais esperados, e quase frustrado, foi ao píer que costuma receber a visita dos botos cor-de-rosa. Longos minutos de espera, com a encantadora de botos Marisa agitando o pé n'água para chamar a atenção deles, e nada. A garota diz então que fica contente que o grupo entenda a situação. Ao que Valter Hugo Mãe, maroto, responde: "Entender a gente entende as horas que for, mas a gente quer ver". Enquanto isso, discreto, Maurício Maas, do Barbatuques, foi se refrescar. "Olha o boto", disse um. "Esse aí não é um boto não; é o broto", respondeu uma senhora em voz baixa. Por fim, eles apareceram. Mas quem foi enfeitiçado mesmo foi o escritor angolano.

"Se eu fosse um documentarista, só ligava a câmera e dizia: Olha, fala durante cinco horas. E ao fim de cinco horas, fazia um editing, montava uma curta de 30 minutos e ganhava o prêmio de Cannes", contou mais tarde. Nesse momento, confessou, sentiu vontade de escrever para adolescentes. "Foi interessante também porque no romance que estou a escrever a personagem principal é uma menina e uma das coisas que acontecem, e que quero estudar através do meu livro, é o momento que elas se tornam menstruadas. Toda aquela questão do boto, das meninas e do preconceito em relação a elas. Tudo isso me pareceu que pode ser mudado para uma fantasia na Islândia, onde situo meu romance novo."

Segredo. Aconteceu na Flip no ano passado e aconteceu de novo agora. Por onde passa, Valter Hugo ganha um novo leitor e um admirador. Mesmo tímido, é espontâneo e aberto. "Eu falo, não tenho medo. As pessoas guardam coisas que consideram da sua intimidade e que eu não entendo como coisas tão íntimas. São coisas universais, todos sentimos. Isso de subir ao palco e dizer que tenho medo, que lamento não ter feito alguma coisa, que chorei ao ler um livro, não vejo como um reduto de intimidade. E tenho pena que as pessoas entendam isso como coisas que devam ser escondidas, porque aí fazemos todos um papel ficcional para corresponder a uma espécie de ser humanos durões, quando, na verdade, ninguém é tão durão assim." E completou: "O momento do palco tem que ser algo como a minha vida e que não seja a criação de uma personagem com a qual eu tenha de conviver e inventar a cada dia a cada palco."

Literatura e vingança. Na viagem, Ignácio de Loyola Brandão comprou e começou a ler O Nosso Reino, primeiro romance de Valter Hugo Mãe que só agora chegou ao Brasil, e reencontrou um pedaço de sua infância. "Uma vez, meu grupo e eu quisemos matar o padre. Fui me confessar com um padre que ficava especulando o que a gente teria feito com as meninas. "Pôs a mão lá?", perguntou o padre." Ignácio não sabia onde "lá" era e mesmo assim teve de pagar a penitência rezando 150 Pai Nosso. "É uma memória de infância que ainda vou usar num conto. Ainda vou matar esse padre."

Agora, aos 75 anos, começou a voltar para trás e se surpreendeu que a sua Araraquara dos anos 40 também estava no livro de Mãe. "O mundo é igual ou a literatura torna o mundo igual?", perguntou ao colega. "Acho que as pessoas podem tornar-se iguais com vivências diferentes. Elas contém em si ansiedades e necessidades semelhantes e por isso sonham da mesma forma, assustam-se da mesma forma e são eventualmente burras no crime da mesma forma", respondeu, e contou a sua passagem com o padre.

Quando tinha 13 anos, o pároco zangou-se porque ele e alguns "miúdos" riam. "Eu nem tinha ouvido a piada. Estava só a sorrir porque estava bem e estava com meus amigos, mas nem sequer estava a rir de nada de concreto e o padre berrou comigo especificamente de uma forma assustadora e dura. Eu achava que os padres, que sabiam tudo do céu, que conversavam e tinham negócios com Deus, eram aquelas pessoas absolutamente certas, capazes de nos salvar. Eu nunca faria mal a um padre porque para mim era a porta para Deus. Ele me disse: Tu estás contente? E eu disse: Estou. E ele me disse uma coisa muito cruel: Mas não vai ficar contente muito tempo. Tu tens uma fisionomia de uma pessoa triste. Vai ser triste a vida toda." Levou seis ou sete anos até que ele não se lembrasse disso todos os dias. "Eu não sei onde está esse padre, mas se eu lhe apanho eu torço-lhe o pescoço. Não sei se zangado digo essas coisas que ele disse. Não digo, sobretudo a um miúdo de 13 anos."

Como não sabia escrever um romance, disse que foi experimentando em O Nosso Reino e usou bastante lembrança da infância, como a desse padre. Vale dizer que na época do episódio, o garoto ia se tornar missionário - só não tinha escolhido vestir a batina por causa do voto de castidade. "Mas eu queria muito vingar-me dele. É um sentimento feio." Para Ignácio, a vingança foi através do texto. Em sua palestra, o rabino Nilton Bonder voltou à questão e tentou entender as razões do padre. Para ele, não foi um ato de ódio, mas de insegurança. Não convenceu o escritor.

Religião. Ninguém chegou em Valter Hugo Mãe ao final dos debates para saber o que ele tinha achado do que Edney Silvestre ou Ignácio de Loyola Brandão haviam dito. Mas ao fim da peça A Alma Imoral, uma pequena aglomeração se formou ao redor do português só para ouvi-lo dizer que sim, também tinha gostado do texto do rabino que eles já tinham ouvido com Clarice no teatro três, cinco vezes. E por falar em palavras do rabino, houve até um noivado abordo. E com direito à bênção de Nilton Bonder na frente dos viajantes para o constrangimento de Rafael Seibel, herdeiro da Livraria da Vila, que pediu a mão de Clara lá.

De volta à peça. A ideia inicial era encená-la como manda o figurino. Depois, decidiu-se pela leitura dramática e o rabino sentiu-se confortável para convidar uma família chilena que dividia o barco com os leitores. Quando a ideia inicial foi retomada, Bonder, preocupado com as crianças do grupo e com a nudez da atriz, tratou de explicar a eles como seria a dinâmica. "Fiquei preocupado com o choque cultural. Eu tenho família no Chile e sei que eles são super conservadores e eles já não estavam entendendo nada disso."

Nilton participou de todos os passeios e todos os debates, mas, disperso, foi o único que não entrou de cabeça na experiência - e o único a fazer esteira às 5 horas da manhã. Ele estava se preparando para uma viagem para a Inglaterra. "Apareceu essa aqui e encaixei no meu calendário. Depois apareceu uma viagem em cima da hora, que foi um convite da Casa Branca. Caiu tudo nesse mês. Eu simplesmente abandonei família, comunidade, sumi. Parte do que você viu foi uma pessoa que não tinha a menor condição de estar ausente do Rio nesse momento. Não consegui me desligar não por ansiedade e impaciência, mas por dívida. Fiquei muito desesperado. E quando saíamos para os passeios o celular funcionava", contou.

Sem retrato. Ignácio de Loyola Brandão é possivelmente um dos escritores brasileiros mais assíduos de feiras literárias. Só no ano passado, participou de 44 ao redor do país, mas disse que vai dar uma desacelerada este ano porque precisa de mais tempo para escrever. No entanto, nunca tinha participado de um salão literário flutuante como esse. "Vim com a expectativa do desconhecido. O impacto que senti de espaço e de tempo eu não vi nos poucos livros que retratam a Amazônia. O tempo, para mim, desapareceu. E tem esse espaço que se perde, desaparece, e nada fecha essa vista. E uma sensação de liberdade enorme. Às vezes tenho a sensação de estar voando."

E nessa viagem sem tempo, voltou algumas vezes para a Araraquara, sobretudo à oficina do avô marceneiro, e contou, pela primeira vez, que já está na segunda versão de uma novela que fez para elaborar a culpa de ter roubado as bolinhas de gude do avô. Uma psicóloga na plateia disse que ele não precisava se preocupar com essa culpa não.

Animador de auditório. Bem que Ignácio de Loyola Brandão tentou lançar a candidatura de Edney Silvestre para animador de auditório. Pudera, o jornalista conseguiu até fazê-lo cantar. Por ser repórter de televisão, Edney foi o mais tietado no início da viagem. No desfile de apresentação da tripulação, ganhou um "joia" do comandante e um dedo de prosa depois das formalidades. Mas sua presença também confundiu um dos guias. "É o William o nome do senhor, não é?", perguntou de primeira. "Ah, William, Bonner, não, esse é o outro. Eu me chamo Edney." Isso tudo um pouco antes de ter seu "primeiro contato com o extraordinário", que foi enfiar a mão num formigueiro, esfregá-las uma a outra, e sentir o perfume que ficou delas.

* A repórter viajou a convite do Navegar é Preciso.

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