Literatura é tema de Mautner e Tizuka

O cantor, compositor, violinista, ator, artista plástico e cartunista Jorge Mautner abre nessa terça e na quarta-feira à noite a programação de julho do Projeto Estação Leitura, no Sesc Belenzinho. O encontro com ele, que também é poeta e já foi premiado com o Prêmio Jabuti, resume, de certa forma, o que virá pelo mês: uma série de conversas sobre a literatura que se esconde atrás de outras artes. Mautner, entre muitos outros assuntos, deve falar da relação entre música popular e poesia. A cineasta Tizuka Yamazaki (dias 11 e 12) conversará sobre roteiros cinematográficos. O tema das oficinas de Renata Pallottini (18, 19 e 20), poeta, dramaturga e professora da Escola de Comunicações e Artes (USP), é a dramaturgia. E, finalmente, o jornalista e escritor José Castello (25, 26 e 27) coordena os encontros sobre Os Caminhos do Biógrafo, debatendo um gênero de não-ficção."Literatura é algo muito amplo, que vai de Ezra Pound a Paulo Coelho; a literatura é a própria discussão da humanidade" afirma Mautner, que promete debater o ser humano a partir de vários enfoques. Numa rápida conversa sobre o que pretende fazer amanhã e quarta, passa de Pound para o Fausto, de Goethe, cita a importância do personagem do Demônio nas literaturas russa e alemã, inclui a fenomenologia do caos como instrumento de análise literária, passa pela música eletrônica, Bernard Shaw e Sigmund Freud e diz que não há uma só literatura, mas muitas, num único texto - por causa das possibilidades de análise que ele permite.Sobre A Poesia na Música e a Música na Poesia, título de suas oficinas, Mautner promete discutir os limites entre o que é poesia e o que pode ser definido, mais simplesmente, como letra. Exemplo: Como é doce morrer no mar verso de Dorival Caymmi, Mautner inclui entre as poesias. Olha que coisa mais linda/ mais cheia de graça, de Vinícius de Morais, estaria mais para a letra. "É difícil explicar, mas Garota de Ipanema obedece mais ao ritmo da música", justifica. "A música e a literatura têm, na verdade, a mesma origem; a poesia existia antes da linguagem escrita, acompanhada da música, servindo inclusive como instrumento de memorização".Como Mautner, o objetivo de José Castello é promover um diálogo, adaptado às vontades dos participantes, que estimule leitores e candidatos a escritor a pensar criticamente o texto literário. Usará para isso, no entanto, um gênero de não-ficção específico, que é a biografia. Partindo da própria experiência, pretende falar das diferenças entre uma biografia clássica, que busca cobrir toda a vida de uma pessoa, do nascimenteo à morte, e os modelos que dela derivaram.Vinícius de Morais - O Poeta da Paixão (Companhia das Letras, 1994), biografia escrita por Castello, segue o cânone, que hoje o autor considera uma idéia "excessivamente onipotente". Prefere o que chama de "cortes verticais", pesquisando momentos específicos da vida do biografado. É assim que Castello fez Inventário das Sombras (Record, 1999), que mergulha em momentos de crise na vida de 15 personagens, e não de apenas um.Cinema - Embora não tenha preparado ainda a oficina no Sesc Belenzinho, a cineasta Tizuka Yamazaki (diretora de Xuxa Requebra e Gaijin) diz que pretende discutir o que há de específico num roteiro cinematográfico. "É essa questão do ´escrever bem´, que, no roteiro, tem outro sentido: o importante é traduzir bem o que se imagina para que isso possa ser passado para a tela", explica. Para ela, essa é uma dificuldade crônica do cinema brasileiro. "De roteirista, médico e louco, todo mundo acha que tem um pouco, e isso é um problema, porque nem todos estão preparados para raciocinar em termos de imagem". Tizuka afirma que poderá utilizar câmeras de VHS para executar essa passagem do roteiro para a tela nos cursos, dependendo da experiência e do conhecimento teórico dos participantes.Estação Leitura. Amanhã e quarta-feira, Jorge Mautner; nos dias 11 e 12/7, Tizuka Yamazaki; 18, 19 e 20/7, Renata Pallottini; e 25, 26 e 27/7, José Castello. O projeto será realizado das 19 às 22 horas. Entrada Franca. Sesc Belenzinho. Avenida Álvaro Ramos, 991, tel. 6096-8143

Agencia Estado,

03 de julho de 2000 | 19h37

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