Literatura é marcada por fatos turbulentos em 2007

Euforia financeira marca ano editorial de poucos lançamentos nacionais e alguns destaques estrangeiros

Ubiratan Brasil,

28 de dezembro de 2007 | 19h34

De um lado, números favoráveis vindos do mercado literário nacional - aumento na venda das livrarias, crescimento na quantidade de lançamentos, surgimento de novas feiras literárias. De outro, a decisão de Roberto Carlos de acionar a Justiça para recolher Roberto Carlos em Detalhes, biografia não autorizada escrita por Paulo César de Araújo e publicada pela Planeta. No balanço de 2007, a literatura ocupou espaços importantes, mas nem sempre foi bem-vinda em alguns. A julgar pelas cifras, o ano foi próspero.  Veja também:   Vídeo com o balanço do ano  As grandes livrarias registraram um crescimento médio de 15% nas vendas, alavancadas especialmente por best-sellers como Harry Potter e as Relíquias da Morte, sétimo e último livro da saga de J.K. Rowling, A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini, e A Menina Que Roubava Livros, de Markus Zusak. Também a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, patrocinada desde 1990 pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), indicou um aumento de 11,97% no total geral de faturamento no ano passado, representando um montante de quase R$ 3 bilhões. Os índices de 2007 serão divulgados no início do próximo ano. Em termos editoriais, o mercado acompanhou principalmente o crescimento do grupo Ediouro que, depois de completar a compra da Nova Fronteira, seguiu em sua expansão adquirindo as editoras Desiderata e Lucerna. Com isso, consolidou-se como o segundo maior grupo no setor (atrás da Record), aumentando o faturamento em 35% em 2007. Euforia financeira E o livro, aparentemente, tornou-se um produto atraente aos grandes patrocínios. Em dezembro, a CBL fechou uma cota de R$ 1,6 milhão com a Volkswagen para patrocinar a Bienal Internacional do Livro de 2008, prevista para agosto, quando se comemoram os 200 anos da indústria do livro no Brasil. É o maior valor negociado até hoje, em quase 40 anos de Bienal, que é a segunda maior festa do livro do mundo. A Bienal Criança - que estreará em 2008, em paralelo à Bienal - deve seguir na mesma linha e fechar patrocínio na casa do milhão de reais. A euforia financeira, porém, não repercutiu diretamente na produção dos escritores brasileiros, especialmente os de ficção, que tiveram fraca atuação no mercado editorial (leia análise no texto abaixo). Novamente, as fichas foram depositadas em nomes estrangeiros - tampouco se investiu em novos autores. Nobel no Brasil O caso mais rumoroso entre as novidades nacionais foi a vitória amarga do cantor Roberto Carlos ao impedir que sua biografia fosse comercializada, alegando que sua privacidade foi invadida em trechos que faziam referências à morte de sua mulher, Maria Rita, ao acidente que feriu sua perna na infância e às conquistas amorosas. A atitude (aliada à da editora Planeta de aceitar rapidamente a medida judicial e não levar o caso adiante) causou repúdio de outros autores, repercutindo até na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que dedicou uma mesa exclusiva ao assunto. A Flip, aliás, apostou na diversificação e promoveu o raro encontro do público com o sul-africano J. M. Coetzee, escritor arredio e pouco propenso a entrevistas ou conversas com leitores. Ao contrário dos demais palestrantes, que discutiam a própria obra, Coetzee limitou-se a ler trechos de seu romance inédito, Diary of a Bad Year. Mulheres Os grandes burburinhos da literatura, portanto, vieram de fora. Duas mulheres - uma de grandes olhos e cabelo joãozinho (a irlandesa Anne Enright), outra de uma velhice quase centenária (a inglesa Doris Lessing) - surpreenderam o meio literário em 2007 ao ganharem dois dos mais prestigiosos prêmios da área. Aos 88 anos, Doris Lessing tornou-se o mais velho autor a ganhar um Nobel de literatura, enquanto Anne Enright, com o romance The Gathering (O Encontro, a ser lançado aqui pela Alfaguara, no segundo semestre), derrotou pesos pesados do porte de Ian Mc Ewan e levou o Man Booker Prize. Mulheres de personalidade: foi certamente o olhar feminino que permeia a obra de cada uma o principal motivo a garantir-lhes tais prêmios. Perdas e efemérides E a lista de perdas do ano recebeu nomes importantes. Norman Mailer, um dos principais autores da corrente literária dos anos 60 conhecida como "new journalism", ou jornalismo literário, morreu aos 84 anos, em novembro. No mesmo mês, a literatura perdeu Ira Levin, autor de livros marcados pelo suspense, como Bebê de Rosemary, que introduziram na cultura americana uma nova linhagem de personagens, de satanistas urbanos a cientistas envolvidos na tarefa de clonar Adolf Hitler. Ele estava com 78 anos. E, em janeiro, Sidney Sheldon, escritor desprezado pelos críticos mas idolatrado por milhares de fãs, não resistiu às complicações de uma pneumonia, morrendo aos 89 anos. E o Brasil perdeu o poeta Bruno Tolentino, em junho, que estava com 66 anos. A temporada de 2007 foi marcada também por diversos aniversários literários: os 50 anos da primeira edição de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa; os 80 anos de Gabriel García Márquez e os 40 de publicação de sua mais famosa obra, Cem Anos de Solidão.

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