Bel Pedrosa/Divulgação
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Literatura do front da batalha

Escritor israelense faz conferência nesta quarta-feira, 9, em São Paulo em que pretende tratar da relação da escrita com a guerra

O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2011 | 03h08

SÃO PAULO - Escritores israelenses vivem uma eterna dicotomia: apesar do interminável clima de tensão que ronda seu país, eles procuram manter um ar de normalidade. "Os autores tratam de assuntos cotidianos, como amor, solidão, morte, desejo, desilusão, mesmo vivendo à beira de um vulcão em erupção", comenta Amós Oz, um dos mais respeitados e admirados escritores israelenses da atualidade. "Essa incerteza se reflete em nossa literatura".

O assunto será tema da palestra que ele fará nesta quarta-feira, 9, no Sesc Pinheiros: Literatura e Guerra: Perspectivas Israelenses. A conferência faz parte das comemorações dos 25 anos da Companhia das Letras. Oz se divide entre a escrita de romances e a política engajada. Na confluência desses dois destinos, surgem obras como O Monte do Mau Conselho, publicado pela primeira vez em 1976 e que ganha nova versão agora.

Conhecido por suas inúmeras manifestações políticas pacifistas, ele é o ficcionista israelense mais lido nas dezenas de países onde seus livros são traduzidos. Por um motivo simples: em suas histórias, o cotidiano de pessoas comuns se mistura às dificuldades de uma comunidade em permanente conflito.

E O Monte do Mau Conselho foi escrito em um momento em que Oz preparava-se para iniciar sua vivência política. São três histórias em que o autor nascido em Jerusalém ficcionaliza momentos decisivos para seus conterrâneos, entre 1946 e 1947, quando os imigrantes ainda viviam o trauma nazista e se preparavam para se tornar um Estado independente.

O livro revela também os primeiros sinais da militância que se tornaria uma marca de Amós Oz: a luta incessante em busca da paz entre árabes e judeus. Sobre o assunto, o escritor conversou por telefone com o Estado, do Rio de Janeiro, onde proferiu a mesma conferência na segunda-feira, 7.

Estado: O tema de sua palestra é bem abrangente. Que tópicos vai enfocar?

Amós Oz: Quero mostrar como nossos escritores buscam mostrar uma certa normalidade da vida mesmo sob constante tensão. Atualmente, há uma certa incerteza sobre a vida israelense. Somos uma sociedade de imigrantes e observamos um futuro incerto por conta da instabilidade na relação como nossos vizinhos, que buscam a destruição do nosso país. Essa incerteza, por vezes, também se reflete na nossa literatura.

Estado: E, de uma certa forma, também já o inspirava quando escreveu O Monte do Mau Conselho, não?

Amós Oz: Sim. O livro traz histórias que se passam em Jerusalém nos anos 1940, ou seja, logo depois do holocausto nazista e um pouco antes do nascimento do Estado de Israel. Foi um momento singular, entre um evento terrível e outro esperançoso, mas temeroso. Afinal, não havia a certeza de que estaríamos livres de um novo holocausto. Mas acredito ser meu livro mais chekhoviano porque trata de pessoas provincianas e não de heróis ou revolucionários. Gosto dessa obra por combinar melancolia com humor.

Estado: Percebem-se também detalhes muito pessoais na trama.

Amós Oz: Com certeza, pois tudo que escrevo é autobiográfico, mas não confessional. Não consigo fazer de outra forma. Mesmo que escrevesse sobre Madre Teresa, haveria elementos autobiográficos, mas não confessionais.

Estado: Como o senhor era naquela época?

Amós Oz: Eu era um contador de histórias, antes mesmo de aprender o alfabeto. Adorava entreter meus amigos, especialmente porque eu não era bom em nada mais: não gostava de esportes, nem era bom aluno. E minha melhor maneira de atrair as garotas era contar uma boa história (risos).

Estado: É verdade que as primeiras palavras em inglês que o senhor aprendeu foram "British, go home!"?

Amós Oz: Não foram exatamente as primeiras, mas aquelas que primeiro gritei. Quando garoto, eu acompanhava amigos judeus e gritávamos isso para as patrulhas britânicas, na intifada original, entre 1946 e 1947, uma das ironias do destino.

Estado: E o que o senhor pensa sobre o recente trato feito por Israel para libertar Gilad Shalit (soldado trocado por 1.027 presos palestinos no mês passado, quase seis anos após ter sido capturado dentro de Israel por militantes da Faixa de Gaza)?

Amós Oz: A situação de Gilad Shalit provocou diferentes emoções em Israel porque ele se transformou no filho de todas as famílias: talvez por conta de suas jovens feições, talvez graças ao convencimento feito por seus familiares. Mas o preço foi muito alto e não sei se outros israelenses não vão pagar com suas vidas no futuro com a liberação desses mil terroristas.

Estado: Finalmente, por que sempre há cães em suas histórias?

Amós Oz: Porque eles são amigos fieis e não mentem.

Nascido em 1939 em Jerusalém, iniciou nos 60 sua produção literária. Em 2003 apresentou De Amor e Trevas, uma longa narrativa em que mistura autobiografia, história e ficção. Escritor e ativista político, Oz destaca-se hoje como um dos mais atuantes intelectuais israelense.

 

O MONTE DO MAU CONSELHO

Tradutor: Paulo Geiger

Editora: Cia. das Letras

(280 págs., R$ 43)

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