Reuters/Reprodução
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Literatura da ferida

Leia a íntegra da entrevista de Antonio José Bezerra de Menezes Jr., da USP, especialista em literatura chinesa

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

21 de janeiro de 2012 | 03h00

Professor do curso de chinês da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Antonio José Bezerra de Menezes Jr. concedeu uma entrevista ao Estado sobre o crescimento da participação dos escritores chineses contemporâneos no catálogo das editoras brasileiras. O mais recente lançamento, Crônica de Um Vendedor de Sangue (Companhia das Letras), traz de volta o conhecido autor Yu Hua, de quem a mesma editora publicou Viver e Irmãos. Sobre esse e outros escritores da chama "literatura da ferida", que critica o período da Revolução Cultural, o professor fala a seguir.

Desde os anos 1980 os escritores chineses voltaram a produzir literatura, adotando modelos ocidentais, caso de Yu Ha, Ha Jin e Dai Sijie. Como o senhor vê essa influência e quais são os autores que considera mais ligados à tradição chinesa?

A literatura que começa a surgir no final da década de 1980 e que criticava o período da Revolução Cultural (1966-1976) foi denominado "Literatura da Ferida" (Shanghen Wenxue). Um dos primeiros e mais famosos romances a retratar esse período foi "Cisnes Selvagens" de Jung Chang (1952) publicado no ocidente em 1991 e no Brasil em 1994. Sobre a Revolução Cultural, o sinólogo norte-americano John K. Fairbank caracteriza simplesmente como "um período de violência insana". Foi talvez o caso mais extremo de manipulação de estudantes por um partido político que se tem notícia. Por meio deles, a chamada Guarda Vermelha, foi praticado todo o tipo de violência contra professores, artistas e intelectuais, numa tentativa radical de ruptura com o passado. Nem mesmo Confúcio foi poupado! Inicialmente eram promovidos debates públicos nas universidades que não raro terminavam em espancamentos e degradantes sessões de autocrítica. Toda a noção de ordem e hierarquia foi suprimida. Em decorrência do caos e da violência generalizada, as universidades ficaram fechadas durante 4 anos e novos estudantes só foram admitidos em 1977. O que restou do movimento estudantil foi enquadrado pelo exército. Portanto, tratar dessa "ferida" por meio da literatura é a principal e mais decisiva característica dessa geração. Os modelos ocidentais, são posteriormente incorporados nessas narrativas, a medida em que novas gerações começam a ter acesso ao cânon da literatura ocidental. Contudo, num primeiro momento, poderíamos dizer que esses primeiros escritores resolveram "aprender literatura fazendo literatura" (parafraseando aqui a famosa frase de Mao Tsé-Tung sobre a revolução). Acredito que o autor que mais dialoga com a tradição chinesa ainda seja Lin Yutang (1895-1976). O seu livro "Arte de Compreender", uma notável antologia de trechos da literatura clássica, continua uma das melhores introduções à cultura chinesa tradicional.

As traduções ainda são poucas no Brasil e, de modo geral, os autores chineses chegam até nós por meio das versões inglesa ou francesa. Seu departamento na USP prepara tradutores? Quais as principais dificuldades de se traduzir um texto em mandarim?

A formação de um tradutor profissional é algo que ultrapassa o período da graduação onde se procura formar o aluno com o instrumental básico para a pesquisa na área de língua, literatura e cultura. Em nível de pós-graduação podem surgir dissertações e teses que tenham como objeto a tradução e estudo de obras literárias chinesas. É sempre um trabalho bastante árduo e demorado. Muitas vezes esse tempo é incompatível com a dinâmica do mercado editorial. Contudo, posteriormente, os trabalhos de tradução oriundos do mundo acadêmico acabam sendo editados com muito sucesso. Um exemplo é a tradução do Dao De Jing (Tao Te King) feita pelo prof. Mario Bruno Sproviero, um dos fundadores do curso de Chinês da USP, e publicado pela Editora Hedra. Essa tradução é o resultado da sua tese de Livre-Docência e levou mais de dez anos para ficar pronta. Outra tradutora muito competente e com várias obras publicadas é a profa. Márcia Schmaltz, atualmente lecionando na Universidade de Macau.

Como o senhor classificaria o atual momento da literatura chinesa contemporânea.? Quem são os autores mais interessantes?

Talvez agora seja o momento de consolidação da obra de alguns autores mais maduros (da geração de 1950 e 1960) enquanto autores mais jovens arriscam trazer formas e temáticas do Ocidente para a China. Será necessário ainda algum distanciamento no tempo para depurar tudo isso.

Dentre os autores mais interessantes, além daqueles já mencionados, eu acrescentaria ainda os trabalhos de Xinran Xue (1958), Ma Jian (1953) e Liao Yiwu (1958).

Um gênero muito praticado na China é a poesia, mas sabemos pouco sobre ela. Bei Dao, que esteve exilado 10 anos, parece ser hoje o principal nome da poesia chinesa. Quem são os outros que poderiam figurar ao lado de Bei Dao e quais são as principais características da moderna poesia chinesa?

Citarei apenas os meus três poetas favoritos: Han Dong (1961), Duo Duo (1951) e Hai Zi (1964-1989). Uma boa amostragem dessa produção mais recente da poesia chinesa contemporânea está na antologia "Um Barco Remenda o Mar: Dez Poetas Chineses Contemporâneos" (Martins Fontes, 2007), organizada por Regis Bonvicino e Yao Feng (pseudônimo literário de Yao Jingming, professor da cadeira de português da Universidade de Macau e também ele um poeta de grande talento). Um outro poeta um pouco mais antigo e que merece ser relido é Ai Qing (1910-1996), pai do artista plástico Ai Weiwei. Ele possui uma poesia humanista que parece realizar o que o célebre poeta Su Shi (Su Tungpo), da Dinastia Song, preconizava: "Os escritores, nos tempos antigos, escreviam, não por haverem decidido que queriam escrever, mas porque não podiam deixar de escrever." Em 1978, juntamente com o poeta Mang Ke, Bei Dao fundou a revista de poesia Jintian (Hoje) que passou a ser o principal veículo da poesia de vanguarda chinesa no período pós Revolução Cultural. Esse grupo de poetas foi denominado de "Poetas Nebulosos" (Menglong Shiren). Essa denominação foi dada, de modo depreciativo, pela crítica literária da época pois esses jovens poetas não se alinhavam com a estética do partido e produziam versos cuja interpretação era considerada vaga e obscura (justamente o significado da palavra Menglong). Em um famoso poema, Duo Duo refere-se a essa acusação de estarem utilizando "alegorias abusivas". Podemos dizer que a principal característica dessa geração é a luta por alcançar uma voz poética própria numa sociedade de vozes uniformes.

Como o boom econômico chinês pode ajudar a literatura brasileira a se tornar presente na China? Há interesse por nossos autores? É possível repetir o êxito, no campo literário, de uma novela como "Escrava Isaura", exibida na China nos anos 1980?

Na China há um crescente interesse pelo Brasil e sua cultura. Isso deverá incentivar a tradução de nossas principais obras. O prof. José Medeiros, atualmente lecionando em uma universidade chinesa, está pesquisando sobre a ficção brasileira traduzida para o chinês. Já encontrou obras de Machado de Assis, Jorge Amado e Monteiro Lobato. Há poucos anos, o Itamaraty promoveu a edição de um livro de poemas de Mario Quintana traduzidos para o chinês. Contudo essa produção ainda permanece, de certo modo, restrita aos estudantes e professores de português na China. Nesse circuito, o autor mais admirado não é um brasileiro, mas um português: Fernando Pessoa. Para o sucesso da novela "Escrava Isaura", bem como da dupla "Milionário e José Rico", na China, em 1985, contribuíram vários fatores: primeiro a novidade (a China estava saindo de um longo período de fechamento ao Ocidente); segundo, a pouca diversidade de produções estrangeiras disponíveis; terceiro, e principalmente, a escala imensa da audiência chinesa. Interessante que, segundo a Rede Globo, o sucesso da novela levou à venda de mais de 500 mil exemplares do romance de Bernardo Guimarães traduzido para o chinês. Apesar disso, o modo como o telespectador chinês identificou-se com a "Escrava Isaura", um drama que se passa em outra época, num país muito distante e com valores culturais muito diversos, é uma questão que merece ser estudada. Atualmente, os dois primeiros fatores já não se verificam por isso a repetição desse sucesso é improvável.

Há, entre os livros chineses publicados no Brasil, muitos relatos autobiográficos, como "Meu Nome é Número 4", de Ting-Xing Ye. Isso existia na literatura chinesa antes do período de reforma e abertura, isto é, no final dos anos 1970?

Esses relatos seguem na linha da "Literatura da Ferida", como vimos, e também tratam do problema do resgate e da afirmação da individualidade. Essa última questão se insere no problema mais amplo da liberdade humana. Concluindo, a literatura atual, transitando entre o documental e o ficcional, ao mesmo tempo em que testa e muitas vezes transgride os limites da sua liberdade de expressão também procura, com a sua individualidade recém conquistada, alcançar uma existência livre.

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