LISZTMANIA

Pierre-Laurent Aimard faz homenagem conceitual ao compositor no ano de seu bicentenário

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2011 | 03h11

Inteligência na montagem do repertório e talento, muito talento. É isso que faz de recitais ou gravações ocasiões sempre especiais, únicas, como demonstra o pianista francês Pierre-Laurent Aimard em The Liszt Project.

Ele desafia dogmas do marketing atual: 1) chega em dezembro, no fim do ano, e portanto é um dos últimos tributos ao 200.º aniversário de nascimento do compositor húngaro Franz Liszt (1811-1886); 2) propõe um álbum conceitual numa era de downloads de peças soltas. Aimar não as empilha a esmo, mas constrói um itinerário que dá sentido à audição.

Mesmo com estes dois obstáculos, Aimard nos dá o mais qualificado e arguto tributo a Liszt, entre tudo que se fez em 2011 em torno do inventor do recital de piano e inventor, claro, do piano moderno.

Sem dúvida, sua longa militância na prática da música contemporânea deu-lhe a clarividência de conceber de modo inédito obras lisztianas arquiconhecidas. Ele explica o conceito: "O que faz a diferença num grande programa é a presença e a ordem das peças. Isso ilumina o programa, de uma para outra peça. Se se consegue isso, então entramos todos, intérprete e ouvintes, em outra dimensão. É como colocar quadros numa exposição, em um museu".

Mundo de surpresas. Do homenageado, ele toca oito longas composições da plena maturidade, incluindo a célebre Sonata em Si menor; e as ilumina com seis peças de outros compositores, num arco histórico de Richard Wagner a Alban Berg e Olivier Messiaen.

A música visionária de Liszt conduz a um mundo de surpresas. No primeiro CD, Aimard mostra a fragmentação da forma no século 19, desde La Lugubre Gôndola, passando pela raríssima Sonata para Piano de Wagner, as Sonatas n.º 1 de Berg e Scriabin, entremeadas com Nuages gris, Unstern! Sinistre e a Sonata de Liszt.

No segundo, parte dos Ciprestes de Villa d'Este de Liszt e Nénie de Bartok; faz um intermezzo 'ornitológico', com S. Francisco de Assis Pregando aos Pássaros (Liszt), Tangata Manu (do contemporâneo Marco Stroppa) e Le Traquet Stapazin (do Catálogo dos Pássaros de Messiaen). Com direito a um desvio aquático (Les Jeux d'Eau em Villa d'Este, de Liszt, e Jeux d'Eau, de Ravel). Haja criatividade e talento. Mas atenção: não ouça peças isoladas, não quebre o encanto. Deixe-se levar pela fabulosa viagem de Aimard.

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