Patricia de Melo Moreira/AFP
Patricia de Melo Moreira/AFP

Lisboa ganha a Fundação José Saramago

Entidade abriu as portas nesta quarta-feira para o público e abrigará o legado do escritor português

Jair Rattner - ESPECIAL PARA O 'ESTADO',

13 de junho de 2012 | 17h24

LISBOA - Criar um espaço para espalhar o desassossego. Essa a proposta da Fundação em homenagem ao Nobel de literatura José Saramago (1922-2010), inaugurada hoje na Casa dos Bicos - um edifício do século 16 voltado para o Rio Tejo, na parte antiga da Lisboa. “Saramago dizia que não vivíamos uma crise econômica nem financeira, mas uma crise moral. Há que se pensar, introduzir debates - e não apenas literários -, transformar esta fundação em local de consciência cívica”, explica Pilar del Rio, ex-esposa de Saramago e presidente da fundação.

Segundo Pilar, a ideia de Saramago era que a fundação oferecesse espaço para lançar propostas, mas sem pensamentos fechados ou acabados. Uma dessas propostas seria dar resposta a algo que o escritor considerava assimétrico, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. “Há necessidade de uma declaração dos deveres humanos”, diz Pilar, esclarecendo que já está desenvolvendo esse trabalho com a Universidade Nacional do México.

A princípio, a Fundação José Saramago não deveria ter sede fixa, até o prefeito de Lisboa, Antônio Costa, e o então ministro da Cultura, Antônio Pinto Ribeiro, oferecerem a emblemática Casa dos Bicos. “Saramago dizia que qualquer escritor podia sonhar em receber o Prêmio Nobel. Mas, para ele, era impensável contar com a Casa dos Bicos.”

No local, o público terá acesso ao 4.º andar - destinado a concertos, lançamento de livros e debates - e ao 2.º, ocupado por exposições sobre o escritor. A primeira mostra aborda os vários aspectos das atividades de Saramago, dos livros que ele traduziu - Ana Karenina, Madame Fifi, de Guy de Maupassant, entre outros -, a vários dos seus. Do Memorial do Convento, por exemplo, estão expostos os cadernos em que anotava as primeiras ideias do romance e as fichas da Biblioteca Nacional de Lisboa com a pesquisa para o livro. Também ali foram reunidas fotos de Saramago com escritores portugueses e estrangeiros. “As mostras não serão permanentes”, adianta Pilar. “Poderemos depois expor sobre os escritores europeus que Saramago lia, sobre o Alentejo de Saramago, sobre Saramago e a música.”

Distribuídos em estantes, exemplares das edições dos livros do escritor nos mais de 70 idiomas em que foi traduzido e parte de sua biblioteca - apenas os 5 mil volumes que se encontravam no seu escritório. Outros 20 mil livros continuam na biblioteca da casa da ilha espanhola de Lanzarote, onde ele viveu os últimos anos.

A Fundação possui ainda dois gabinetes para pesquisas sobre a obra de Saramago, móveis do escritório da casa de Lisboa onde escreveu e uma loja. “Somos uma fundação pobre, vivemos só dos direitos autorais de Saramago. Por isso, vamos cobrar entrada e vender xícaras, canecas, camisetas”, diz Pilar. Na loja também serão vendidas as obras do escritor.

Dois dias antes da inauguração, o piso térreo da Casa dos Bicos ainda estava interditado. Por causa de descobertas arqueológicas, as obras demoraram mais de quatro anos e o escritor não chegou a trabalhar na fundação. No local, é possível ver tanques onde os romanos salgavam peixes e um trecho da muralha Fernandina da cidade, do século 14. Na frente da casa, há uma oliveira onde foram depositadas as cinzas do escritor. Ao lado, um banco para leitura e, próximo, uma placa com a frase que encerra Memorial do Convento: “Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia”.

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