Lirismo que vem do berço e boas ideias para o futuro

Burilar a tradição é uma prática constante na história musical de Silvério Pessoa. E se em No Grau ele moderniza e sofistica o baião como fez com outro ritmo tradicional nordestino em Batidas Urbanas: Projeto Micróbio do Frevo (2002), em Collectiu une os cantadores do Nordeste brasileiro aos trobadors do Sul da França, ressaltando a impressionante semelhança entre as culturas de lá e de cá, embora com características bem distintas.

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2011 | 00h00

É claro que o registro histórico é o que mais chama a atenção no caso de Colletiu, mas o valor de ambos os discos também se computa pelo alto nível das composições, pelas ideias de arranjos, mesclando eletrônica e instrumentação tradicional e rústica, e pela desenvoltura dos diálogos entre os participantes.

Além da influência dos cantadores de rua, como comenta seu parceiro Marco Polo, Silvério retoma em No Grau "o que aprendeu com Jackson do Pandeiro, ou seja, a divisão criativa, o gosto pela embolada e a emissão de "erres" rascantes". Naná Vasconcelos é outro que atribui méritos ao conterrâneo pela dedicação com que ele se propõe a estudar o legado do mestre do ritmo: "Não se trata de imitação. Silvério assimilou muito bem a polirritmia de Jackson do Pandeiro, pelo amor que tem pela música dele". Se "tudo já foi feito" na música, como o próprio Naná também diz, o que há são "ideias originais". É o caso desses álbuns, especialmente Colletiu.

Além dos Fabulous Trobadors, que gravaram Coco Sambado com ele, participam desse diálogo em francês, português e dialetos occitans artistas desconhecidos dos brasileiros, como Moussou T, Lei Joventa, Lou Seriol, Sam Karpienia. Outros, como François Ridel e Louis Pastorelli, dividem composições com ele.

Silvério volta à França com uma série de shows em 2011 para marcar o lançamento do CD. No Brasil, por enquanto nada está previsto. Algo pode ser incluído no show que faz na segunda-feira de carnaval no Polo Fantasias, no Recife Antigo, com a Tombonada. Hoje ele sobe num trio elétrico com Elba Ramalho no desfile do bloco Galo da Madrugada.

Produzidos simultaneamente, mas "com traços bem definidos", os dois CDs têm natural conexão. No Grau inclui o registro de várias canções que Silvério compôs em viagens, em "momentos de transição entre um país e outro". Há links evidentes com Collectiu, como a introdução de uma gaita occitan, tocada por Daniel Loddo, em O Povo Canta, e narrações em francês por Roger de Renoir e Marina Pourquery em Esta Cidade.

Álbum totalmente autoral, tem parcerias de Silvério com Marco Polo, Yuri Queiroga, Felipe Falcão e outros. Há também participações como as de Maciel Melo, Fernando Aniteli (O Teatro Mágico), Flávio Guimarães, Sérgio Campelo.

Misturando tradições com ideias futuristas, há um lastro de saudade nas canções de No Grau e que, da maneira simples e inteligente dos cantadores e emboladores, fluem com uma naturalidade lírica tocante. Isso Silvério assimilou ainda no berço, ouvindo o rádio de sua avó no sítio em Carpina onde morava, antes mesmo de aprender a falar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.