Lirismo do homem ferido

Susan Ray, viúva de Nicholas Ray, visita a cidade e fala da mostra de filmes do marido

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2011 | 03h09

Susan Ray recebe o repórter no seu quarto de hotel, em Higienópolis. Pés descalços, cabelo molhado. Ela viajou a noite toda (desde Nova York) e precisava desta relaxada. A viúva de Nicholas Ray está no Brasil para promover a retrospectiva da obra do ex-marido. Depois da grande retrospectiva de Vincente Minnelli no CCBB e da de Elia Kazan, em presença da viúva do diretor, Frances Kazan, na Mostra, era o que faltava para o cinéfilo encerrar 2011 com chave de ouro.

Todo Nicholas Ray. A Mostra ocorre no Centro Cultural Banco do Brasil em três cidades. São Paulo, Rio e Brasília. Neste domingo, Susan Ray deve estar no Rio, mas volta a São Paulo para debater com o público, após a exibição de We Can't Go Home Again. O filme que o diretor fez com alunos de seu curso de cinema em 1973 será exibido quarta-feira, às 17 horas, na versão restaurada que integra as comemorações do centenário de Ray, este ano. Susan desculpa-se antecipadamente. "Não sou cinéfila. Não sou muito boa para contar as pequenas histórias de bastidores que encantam as pessoas." Mas ela pode falar com propriedade sobre o Ray que conheceu, e amou.

Ele era alcoólatra, e isso lhe causou prejuízos no fim da vida (morreu em 1979). Fumava feito um condenado. "Nick morreu de câncer no pulmão, não se esqueça." É a vez de o repórter lembrar que o personagem de Ray é sempre o homem ferido. Ela retruca - "Mas não somos feridos todos?" Acrescenta que o marido não apenas não escondia como gostava de revelar sua vulnerabilidade. Isso o transformava em corpo estranho num cinema norte-americano que sempre tentou esculpir a fantasia do mundo perfeito, com pessoas perfeitas.

Ela tem seus favoritos entre os filmes do marido. Johnny Guitar? "É um belo filme, um clássico", concorda. Mas os filmes de seu coração são outros - "Amargo Triunfo me encanta pela densidade e profundidade. Em Sangue sobre a Neve, o que me atrai é o espaço. Nick cria aqueles planos que isolam o personagem do esquimó e expressam sua solidão perante a natureza." Sangue sobre a Neve chama-se, no original, Savage Innocents, os inocentes selvagens. Não existe definição melhor para o sentido geral da obra de Nicholas Ray, para os personagens que ele criou ao longo de 26 anos de carreira, entre Amarga Esperança (They Lived by Night), de 1948, e Wet Dreams (um episódio), de 1974.

Todos esses filmes estarão ao alcance do público, com obras que viraram clássicas ou cults e que integram o imaginário dos cinéfilos - Paixão de Bravo (The Lusty Men), Johnny Guitar (claro), Juventude Transviada (com James Dean), A Bela do Bas-Fond. Este abrirá a retrospectiva na cidade, na quarta-feira à tarde. Quase todos os filmes serão projetados em cópias em 35 mm. 55 Dias em Pequim será exibido em DVD, justamente porque não existem cópias disponíveis em película. "É um problema", Susan reconhece. Como presidente da Nicholas Ray Foundation - www.nicholasrayfoundation.org -, ela gostaria de restaurar todos os filmes do marido em película, mas falta dinheiro. Agora mesmo, Susan busca patrocínio para um projeto intitulado Masterclass, em que pretende reunir fragmentos mostrando o grande professor que Ray foi.

"Nick sofreu muita incompreensão, mas tinha consciência de sua importância. Prova disso é que estava sempre acompanhado de um gravador. Ele gravava tudo o que dizia." Susan reconhece qualidades na polêmica fase das superproduções na Espanha (O Rei dos Reis e 55 Dias). Vê nelas a forte influência da formação de Ray como arquiteto (com Frank Lloyd Wright). "Não são fracassos", afirma (ou provoca). Diz que o marido era grato a Wim Wenders por seu apoio - o autor alemão fez dele ator em O Amigo Americano e filmou sua agonia em Lightning Over Water. Ela própria é mais reticente. "O momento da morte é o mais importante da vida de qualquer pessoa." Wenders invadiu a privacidade de Ray, na hora de sua morte. Susan não fala, mas deixa subentendida sua crítica.

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