LIRISMO DE TIMBERLAKE

Cantor confirma show no Rock in Rio 2013 e lança o disco mais romântico de sua carreira

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

13 de março de 2013 | 10h56

Justin Timberlake já cantou de galo. Trouxe o sexy de volta. Desafiou "rapazes" que não sabem seduzir. Algemou-se em sacrifício à musa. Declarou seu amor. Volta agora, aos 32 anos, seis após o último disco, com The 20/20 Experience, uma versão mais reflexiva de sua persona, calcada em glamour vintage e música eletrônica, que deixa de lado o panachê sexual em troca de um r&b abrandado, embora não menos eficaz. "Você usa o vestido que eu gosto. O amor balança no ar hoje à noite", canta, no refrão de Suit & Tie, single cujo estalar de dedos e metais de big band serviu de prévia para a estética mais sóbria que daria o tom do trabalho.

O disco será lançado na terça-feira que vem, dia 19, mas foi colocado para streaming pela loja do iTunes, ontem, logo após a produção do festival Rock in Rio anunciar que Timberlake será o headliner, em 15 de setembro, terceiro dia do evento. The 20/20 Experience é o álbum mais aguardado do primeiro semestre de 2013. A gravação foi mantida em sigilo até o cantor lançar Suit & Tie, em fevereiro. A produção é de Timbaland, o lendário beatmaker que ajudou a redefinir o r&b contemporâneo, inserindo belas pitadas de música eletrônica no último álbum de Timberlake, FutureSex/LoveSounds. Os beats de Timbaland têm deixado a desejar nos últimos anos, mas três ou quatro faixas adentro de The 20/20 Experience, percebe-se que o diálogo com Timberlake coloca sua criatividade em outro nível, mesmo sem ter revolucionado sua paleta.

O desafio foi envolver a voz de Timberlake em sutis devaneios rítmicos que exalem a elegância retrô definida como conceito, sem deixar que esta se transforme em naftalina. Isto é longe de ser simples. Os dois são artistas estabelecidos, com sonoridades definidas, que facilmente renderiam um novo disco sem alterações. Guiar um som já cristalizado por um caminho retrô, no caso o glamour de r&b setentista, de cordas luxuosas, e cantar em black tie, com um conceito preto e branco, seria, em tese, receita para o marasmo. Mas as dez faixas de 20/20 seduzem sem esforço, revelando a maturidade da parceria: sem mudar o som, Timberlake e Timbaland confeccionaram um dos melhores discos de r&b dos últimos anos.

Uma faixa como Strawberry Bubblegum certamente faz companhia a Climax, obra prima de lirismo narcótico do cantor Usher, lançada no ano passado. Envoltos em acordes ambientes, os falsetes de Timberlake buscam um impacto menos óbvio, destilando, como Usher, intimismo em vez de paixão desmensurada.

A estrutura da faixa, com duas partes distintas (a segunda envereda por um samba de percussão eletrônica, com um magnífico arranjo vocal e sobretons eróticos) é central à concepção eletrônica do disco, cujas canções têm cerca de oito minutos cada, abrindo mão de confeccionar hits sucintos para a juventude com déficit de atenção. "Quando fizemos o disco, pensei: 'se o Pink Floyd e o Led Zeppelin faziam músicas de 10 minutos, e o Queen fazia músicas de 10 minutos, porque não tentar algo mais esticado? Pensamos nas versões para o rádio depois", disse Timberlake, em entrevista à radio britânica Capital FM, recentemente.

O verniz de black tie engomado anuncia um disco contido nas primeiras faixas. Referências a cocaína, nicotina e outras drogas ao final de Pusher Love Girl, faixa de abertura, cantadas com voz de soulman branco (das poucas vezes em que Justin Timberlake abandona o falsete) não convencem à primeira ouvida. Mas na medida em que se aprofunda no conceito "soft" de Timberlake, as confissões amorosas de uma faixa como Spaceship Coupe, sobre amantes que viajam pelo espaço, faz sentido. Estamos acostumados a buscar, em um disco pop, as pepitas mais reluzentes à primeira ouvida. Mas 20/20 as esconde sobre a superfície: é necessário compreender o clima, o conceito suave de Timberlake, para apreciá-lo.

That Girl, a sétima de 20/20, fecha um miolo de faixas românticas muito bem executadas pela equipe de Timberlake. Encenando um trecho ao vivo, uma salva de palmas introduz uma banda de soul chamada JT and the Tenessee Kids, O cantor pega o microfone para entoar a canção romântica mais direta do disco.

Reforçando a maturidade de Timberlake, que gravou sua obra prima FutureSex?Lovesounds em 2006, e tirou os próximos seis anos para concentrar-se em uma bem-sucedida carreira de ator, o primeiro momento agitado do disco chega na oitava música, Let the Groove Get In. Trata-se de um batuque de sabor latino, que lembra a base de All Night Long, de Lionel Richie. Como as outras, a faixa se estica em uma construção de pista, alternando climas com densa percussão ritmado. Serve de introdução para o mais óbvio hit do disco, Mirrors, a nona faixa, que ocupa o topo das paradas no Reino Unido.

Será interessante presenciar a classe de 20/20 Experience e coreografada para o palco no show de Timberlake, no Rock in Rio. Com o currículo de excelentes hits sexualizados do cantor, o disco preencherá as lacunas tranquilas do show com material de qualidade. Com o anúncio do show, Bruce Springsteen, que tocaria na mesma noite, foi colocado como headliner do dia 21. Entre os outros nomes que o festival já confirmou estão Beyoncé (dia 13), Metallica (19), Bon Jovi (20), John Mayer (21), Iron Maiden e Slayer (22).

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