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Lira Neto lança segundo volume da biografia de Getúlio Vargas

Autor reconstitui de 1930 a 1945 em 'Getúlio – Do Governo Provisório à Ditadura do Estado Novo'

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2013 | 22h12

São Paulo é a única capital brasileira que não ostenta, entre seus logradouros, uma avenida chamada Getúlio Vargas. Não se trata de lapso – apesar de ter sido o mais importante político do Brasil no século 20, Vargas (1882-1954) manteve, enquanto esteve no poder, difícil relação com os paulistas, que chegaram a ir às armas contra o governo do gaúcho. “Ironicamente, São Paulo vai ser o Estado que mais se beneficiou com o modelo de substituições de importações e do processo de industrialização proposta por Getúlio”, comenta o jornalista e biógrafo Lira Neto.

Há mais de três anos, ele vem pesquisando cartas ainda pouco conhecidas, relendo processos judiciais e checando documentos históricos, para escrever a mais completa biografia de Getúlio Vargas. O trabalho vai se dividir em três volumes – o primeiro, lançado no ano passado, mostra os anos de formação do político, desde seu nascimento até a conquista do poder, com a Revolução de 1930.

O segundo, que chega agora em versão em papel e no formato e-book, trata do conflitante período entre 1930 e 1945, quando Vargas, já como ditador, é deposto por militares. E o terceiro, previsto para agosto do próximo ano, quando serão lembrados os 60 anos da morte de Getúlio, vai mostrar os fatos entre 1945 e 1954, como o período de articulação política em São Borja, a volta ao poder pelo voto popular e o suicídio. Os três livros são editados pela Companhia das Letras.

Esse segundo volume, Getúlio – Do Governo Provisório à Ditadura do Estado Novo, compreende um dos momentos mais turbulentos do período recente da história brasileira, ou seja, quando o gaúcho se consolida no poder após a Revolução de 1930, o jogo político que o mantém como presidente à custa de medidas autoritárias, a instauração do Estado Novo e, finalmente, sua deposição pelos militares, em 1945.

Com uma escrita límpida e extremamente bem apurada, Lira mostra os fatos que explicam os motivos que conduziram a sociedade brasileira a, em 1930, abandonar o pacto liberal ainda embrionário e adotar a via autoritária. Ou seja, o porquê de o liberalismo oligárquico não ter sido reformado com mais liberalismo e alguma democracia.

“Naquele momento, o mundo ocidental estava em xeque, com os EUA afundados em depressão. Parecia que a democracia representativa e a liberdade de expressão estavam fadados ao lixo da história”, comenta Lira. “Como antídoto, surgem as propostas totalitárias: ascensão de Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália, Franco na Espanha, Salazar em Portugal e Getúlio estava conectado com isso. Se ele não exerceu um governo totalitário, exerceu o poder de forma ditatorial. Assim, com a falência da democracia, o Brasil precisava se alinhar àquelas nações cujo comandante impunha ao povo seu destino histórico. Somente o final da 2.ª Guerra Mundial alterou isso, com a democracia se reafirmando como valor, e Getúlio termina deposto por essa contradição interna de seu governo.”

Um dos destaques do livro é apresentar, com detalhes, o perfil de Getúlio Vargas. Apesar do sorriso fixo, bonachão, acolhedor, tratava-se de um homem hábil nas decisões, tomadas sempre no último segundo. “Essa parcimônia, essa paciência histórica do Getúlio vai se manifestar também no exercício do poder”, observa Lira. “Em 1930, ele tenta formar um governo de coalizão com os que o ajudaram a chegar ao Catete: os tenentes de um lado e os políticos liberais do outro. Eram grupos totalmente antagônicos: os primeiros pregavam um governo autoritário. Assim, Getúlio teve de usar jogo de cintura para contabilizar. Não deu certo. Ele levava as complicações do governo à situação limite e, muitas vezes, essa demora para tomar decisões era confundida com uma dificuldade de governar, de ser peremptório. Na verdade, era o famoso jeitinho getulista de esperar as coisas se assentarem para entrar em cena no momento certo. Ele desconcertava seus adversários por causa de seus silêncios. Daí se formou a imagem do homem taciturno. Era um silêncio amável, bonachão, mas inexpugnável.”

O biógrafo mostra também a difícil relação do político com os paulistas. Afinal, em 1930, o grande derrotado foi São Paulo, o quer criou um rancor histórico que se potencializou em 1932. “Essa tensão será permanente quando São Paulo sai perdedor na Revolução Constitucionalista. Mesmo assim, os paulistas se envaideciam por terem sido vitoriosos na derrota, ou seja, a Revolução de 32 teria feito Getúlio constitucionalizar o País, mesmo que o presidente afirmasse que o processo já estava acontecendo. E, no final, São Paulo é que mais se beneficia com as propostas econômicas do presidente ditador.”

‘Estado’ sofre intervenção durante período da ditadura

Na biografia, Lira Neto detalha a participação do Estado tanto na Revolução de 1932, liderando a imprensa liberal, como no período em que o jornal decide romper a censura imposta pelo Estado Novo e, por isso, sofre intervenção entre 1940 e 1945.

“O Estado era o grande bastião do liberalismo, do antivarguismo”, comenta Lira. “Ao se colocar no poder de forma ditatorial, contrariando as demandas democráticas, Vargas encontrou a imprensa como uma grande adversária. E o Estado encarnou essa bandeira pela luta pela democratização, pela liberdade de imprensa. E, com isso, o jornal se torna um alvo privilegiado do Estado Novo de forma material, ao ser tomado de seus proprietários e passar a ser administrado por um interventor entre 1940 e 1945.”

No livro, Lira mostra como a polícia comandada por Filinto Müller, ao invadir as oficinas do jornal, revelou ter encontrado metralhadoras que seriam usadas em uma conspiração para derrubar Getúlio. Francisco Mesquita e vários diretores foram presos. O Tribunal de Segurança Nacional atestou, depois, que as armas foram plantadas pela própria polícia.

DATAS HISTÓRICAS

1932

Acontece, em São Paulo, a Revolução Constitucionalista, que prega a instauração dos direitos democráticos.

1935

Formação da Aliança Nacional Libertadora e levante comunista, rechaçado com ajuda da inteligência militar britânica.

1937

Um golpe militar derruba a frágil instituição democrática e instala o Estado Novo, com Getúlio Vargas como ditador.

1939

Criação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Começa, na Europa, a 2.ª Guerra Mundial.

1944

Generais se manifestam contra o Estado Novo. Em resposta, Getúlio permite uma abertura política moderada.

1945

Deposição de Getúlio em 29 de outubro, com mobilização de tropas comandadas pelo general Góes Monteiro.

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