Lipovetsky lança "Os Tempos Hipermodernos"

A obra do sociólogo e professor francês de filosofia Gilles Lipovetsky ganha dois novos títulos no Brasil com sua vinda para uma série de palestras iniciada na semana passada em Porto Alegre. O programa prossegue hoje, na Fundação Armando Álvares Pentado (Faap), e na quinta-feira, no Espaço Cultural CPFL, em Campinas. Lipovetsky fala sobre a necessidade e desejo do supérfluo na sociedade contemporânea, tema que vem desenvolvendo há 20 anos, desde que lançou o polêmico A Era do Vazio (1983) e o Império do Efêmero (1987). Hoje à noite, depois de sua palestra na Faap, acompanhado do psicanalista Jorge Forbes, ele autografa Os Tempos Hipermodernos, escrito em colaboração com Sébastien Charles e lançado há sete meses na França. Em Porto Alegre, Lipovetsky lançou Metamorfoses da Cultura Liberal (Editora Sulina, 88 págs., R$ 22). Nele e no mais recente Os Tempos Hipermodernos, Lipovetsky segue na contramão dos pensadores que demonizam a globalização e as democracias liberais. Defende, no primeiro, que a mídia tem sido instrumento importante no processo de democratização, e não uma diabólica incentivadora do conformismo e da uniformização cultural. Reclama, porém, um novo contrato social que promova a ética empresarial, ainda o calcanhar-de-aquiles dos novos tempos, segundo o pensador. Em Os Tempos Hipermodernos, Lipovetsky analisa o período de transição pelo qual passam as sociedades liberais após enfrentar o narcisismo hedonista e libertário dos pós-modernos. O Narciso do século 21, defende o pensador, terá de ser maduro, responsável, eficiente e gestor, um paradoxo quando se considera que indivíduos hipermodernos, cada vez mais informados, são também os mais desestruturados - ou não tomariam tantos antidepressivos. Lipovetsky reconhece esse paradoxo e fala dele no livro. Assume também que a falta de ideologia e o ceticismo diante do futuro incerto são dois entraves na visão triunfalista dos que defendem a globalização, mas o mundo não está perdido, garante. A modernidade acreditou na valorização do indivíduo, no mercado e no progresso da ciência. Já a pós-modernidade, desapontada, viu avançar a miséria, a poluição, o terrorismo e o desemprego. Lipovetsky, que já defendeu a sociedade de consumo e a moda como instrumentos de liberação e emancipação individual, hoje parece mais cauteloso ao responder às perguntas de seu entrevistador Sébastien Charles em Os Tempos Hipermodernos. Essa entrevista conclui o livro, dividido em três partes. Na primeira, Sébastien Charles introduz o leitor no universo do sociólogo. Na parte central, Lipovetsky provoca os teóricos do pós-modernismo, "conceito ambíguo e desajeitado" que ele prefere confinado ao mundo da arquitetura. Defende que, na época do hipertexto, do hipercapitalismo e do hiperterrorismo, a modernidade também tem de ser hiper, "elevada a uma potência superlativa". Não se pode impedir a individualização galopante e o liberalismo econômico, conclui o pensador. Mas, se o Estado recua, a religião se privatiza e a sociedade de mercado se impõe, como encarar o fato de que tudo é descartável? Os pós-modernos ainda tinham a filosofia hedonista do "carpe diem", do aproveite o dia, observa Lipovetsky. Os hipermodernos, nem isso. A apreensão diante da ameaça do futuro obriga o homem hipermoderno a voltar ao passado em busca de um refúgio seguro - e o pensador destaca a verdadeira obsessão mnêmica dos contemporâneos. Mas também isso vai passar. O sociólogo conclui o livro falando sobre o papel da filosofia no mundo da hipermodernidade, "que não se resume ao consumismo, ao entretenimento nem ao zapping generalizados". Ela pode até estar na moda, mas não tem o papel prometéico de antes, observa. "O indivíduo hipermoderno perde em descontração o que ganha em rapidez operacional", diz. Está na hora de mudar essa filosofia.

Agencia Estado,

25 de agosto de 2004 | 20h21

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