Linhas poéticas em circulação

O segundo artigo da série que traça um panorama da produção nacional contemporânea analisa a poesia a partir de três vertentes - a que enfatiza a carpintaria do verso, a liberdade e o olhar interior

Alcides Villaça, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2011 | 00h00

Os panoramas literários, que supõem um observador imparcial do alto, em posto privilegiado, apagam o que há de específico em cada autor, em cada obra, em cada poema, em cada imagem, em cada marca rítmica: justamente as particularidades que tanto custa à arte alcançar e consumar na materialidade de uma linguagem. Em vez do panorama impossível (há centenas de poetas legíveis em ação no Brasil), pode-se especular sobre algumas - apenas algumas - linhas de força da poesia contemporânea. A intenção não é tipificar poetas (que podem e sabem transitar entre poéticas ou mesmo se inventar o tempo todo), mas divisar alguns traços persistentes entre as várias escolhas que fazem parte de seu repertório de criação e que dão voz a atitudes básicas suas, nos quadros da vida. Para evitar conceitos mais taxativos, preferi caracterizar com imagens esses módulos poéticos mais reconhecíveis: poesia de oficina; na janela da rua; recolha decantada.

Oficina. Neste amplo espectro, o poeta conta com outros poetas ou leitores que, como ele, dispõem de um espelho crítico em que a linguagem se contempla e se avalia o tempo todo, seja para lamentar, aceitar ou comemorar seus limites. A questão inicial é a viabilidade mesma da arte literária, e o poema é o lugar onde se investigam o alcance e o poder das ferramentas verbais. Ronda sempre a ameaça de tudo se reduzir a um simulacro, uma paródia, um pastiche, uma tradução, pois já não se aposta em expressão absolutamente original, nem em invenção definitiva. Mas há também uma aposta limite, feita pelas vanguardas (Concretismo e Práxis, sobretudo): a de que a espacialização material dos signos, obtida em relações linguísticas autoexpostas e programaticamente administradas, corporifica a poesia em novos parâmetros funcionais. Estes se fazem mais que experimentos: desejam-se conclusivos, e excluem tudo o que neles não possa ser convertido. Fenômeno mais recente: a incorporação da mídia eletrônica e digital para uma performance multifuncional de linguagens (os recursos do vídeo nos chamados "clipoemas", por exemplo).

Uma vez admitindo, no entanto, alguma desconfiança quanto aos triunfalismos da criação, o poeta pode discutir em plena marcha seu processo construtivo: o tom reflexivo, a agilidade do pensamento, o desejo de cobrir ao mesmo tempo todas as contradições dos discursos mobilizados rechaçam os improvisos líricos, ou mesmo a música do mundo, mas continuam, ardentemente, querendo significar. Armando Freitas Filho chamou de Máquina de Escrever a uma recente reunião de poemas seus, acusando um dos aspectos centrais de sua poesia: a dramática vigilância que um homem ético busca exercer sobre a linguagem, num mundo automatizado. Diálogos de Oficina foi como Mário Faustino batizara a conversa imaginária entre poetas artesãos, envolvidos na prática responsável e consciente do ofício comum. João Cabral já reconhecera a machine à emouvoir (máquina de comover) como paradigma construtivo, e celebrou a difícil forja (e não a fácil fundição) de palavras como disciplina a perseguir.

São inúmeras as gamas e as tonalidades pelas quais se dá a ver essa poesia de oficina. Nela se manifesta, por exemplo, um aspecto trágico da poesia de Paulo Leminski, quando a disciplina da ars poetica e a expressão de deboche se escarnecem reciprocamente, entre a zombaria engenhosa e o abismo metafísico. Já em Arnaldo Antunes vence a rendição gozosa ao prazer construtivo, bem-humorado e surpreendente do jogo verbal, que tanto serve ao universo da canção como ao caderno infantil, ao design gráfico ou à performance multimidiática. Entre acadêmicos, há mais austeridade, consentida (por vezes obrigada) a corrosão intelectual: em Marcos Siscar, no livro tão ambígua e sugestivamente intitulado O Roubo do Silêncio, as experiências projetadas estão indissoluvelmente ligadas ao recorte de sua expressão, na ponte das precariedades comuns: "O silêncio é o sofrimento da palavra, quando a poesia do silêncio lhe é roubada. A vingança dos desapropriados é o barulho da prosa do mundo. Se eu pudesse falar, pegaria andorinhas em pleno voo". Em outro poema do mesmo livro (Provisão Poética para Dias Difíceis), há esta confissão: "Eu queria a maçã de Bandeira, mas não seu quarto de hotel". No universo bandeiriano, a maçã e o quarto se pertencem de forma absoluta, mas a cisão aventada por Siscar refuta a circunstância indesejável do quarto despojado, para fazer sobrar a ideia da imagem essencial.

Já em Elipse, de Júlio Castañon Guimarães (Poemas), lê-se: "Há obras que, no limite, só resistem sob lentes, de fato seus simulacros, produzidos nos próprios interstícios da fábrica". Acho difícil encontrar forma mais lapidar para introduzir um leitor no âmbito mais denso da poesia de oficina. O verso, mesmo, não chega a ser necessário: o poético se insinua como discurso de busca, forma que também é a da prosa. Nessa ampla arte voltada para a consciência dos procedimentos, pressentem-se a bibliografia erudita, a intertextualidade, as alusões cultas, a investida filosófica. Já não se trata de uma genérica "crise do verso", mas da desconfiança de que o poético se arrisca a perder (ou a ganhar) tudo por conta de seus excessivos armamentos. Em todas as modalidades, há um temor comum permanentemente à espreita: o de o poeta se mostrar ingênuo diante dos signos convocados.

Na janela da rua. Aqui, as experiências vividas surgem como uma matéria mundana a ser modulada e transfigurada, nos tons e afetos mais variados. Nessa matéria há já uma força de impacto que é o detonador da criação. Nas suas polarizações, essa poesia pode imitar o grito da vivências brutas, numa espécie de gestualidade corpórea, ou transfigurar os códigos da violência mundana no expressionismo das imagens.

Há em Ferreira Gullar muitas dessas matrizes obstinadas, cuja síntese maior é o Poema Sujo: a sujeira, agora, não é apenas a das palafitas e da miséria da cidade, mas sobretudo da híbrida linguagem que arrasta a tudo em seu ritmo vital e veloz. Em momentos de Cinemateca, livro de poesia forte e delicada, Eucanaã Ferraz vale-se de imagens cuja força de gravidade puxa o leitor para a água-forte do jogo amoroso ou para o abate de um boi; em Página Órfã, Régis Bonvicino costura com linha grossa e culposa o luxo e a sucata mais visíveis nas ruas do consumo e da miséria. Nos limites extremos, um Manifesto Coprofágico, de Glauco Matoso, ou as alucinações escatológicas de Roberto Piva ou de Waly Salomão parecem demandar o grito como ponto de chegada; querem alçar os pés sobre a mesa na performance incontornável: o momento poético parte do corpo para viver o máximo e agonizar nessa mesma finitude.

Uma tão extrema variação de tonalidades não dispensa, no fundo, a nervura de um fato, de um acontecimento, de uma situação mundana, dos quais a poesia parece se desencadear como rito celebratório ou exorcista. Há muito vitalismo na base e na execução da linguagem, correm-se os riscos de afrontamento desarmado das ideologias, da tábula rasa do senso comum, da atitude vingativa, rebelde ou posada; mas pode haver também aquela intensidade poética que se alia à sensibilidade histórica, quando ambas se fazem problemáticas uma para a outra, numa junção dramática e reveladora do nosso tempo. A par da elaboração, da reflexão e da transfiguração que há em toda forma artística, essa poesia convoca-nos também como personagens seus, para atuarmos todos numa rua que se deseja reconhecer como espaço de vivências e de questões comuns.

Recolha decantada. Numa concepção clássica, o gênero lírico não se define pelo tema escolhido, mas pela relação íntima que o poeta estabelece com as coisas, pela ordem pessoal (por isso, reveladora) que lhes impõe nesse recolhimento. Marcante, uma experiência sensível sobreviverá no modo delicado mas resoluto pelo qual o poeta soube mantê-la em estado de revelação. Há, pois, delicadeza, sabedoria e técnica nessa composição, de que costumam resultar poemas incisivos, minimalistas, sapienciais, em que subsiste uma maturidade sem alarde, sugerida na ressonância profunda dos eventos. Veja-se Orides Fontela (Poesia Reunida), por exemplo, em quem as privações da vida se decantam e se apuram em acontecimentos poéticos medulares, numa altíssima sublimação que exige o máximo de uma escuta atenta: "Onde a / fonte? Na sede/ um frescor nascituro / se acentua". A delicadeza é a um tempo condição ética e depuração técnica nos poemas substanciosos e maduros de Paulo Neves, em Viagem, Espera. Essa aliança se mostra com clareza no poema Francesco, apreensão pessoal do franciscano: "E a carne é somente um meio / de abordar o enigma / que há na carne,/ de receber os estigmas / que só se leem na carne". E uma diretriz essencial se formula em Invocação: "O que peço à poesia: / não que ela me baste / mas que me dê / a medida do possível, a certeza do que basta".

Se o horizonte dessa poesia promete um certo essencialismo, a trajetória sabe incluir o cotidiano mais batido, cujo sentido se refina na percepção e se constrói no interior da linguagem mais limpa. O resultado não é abstração, mas concreção poética. Nos poemas de Em Trânsito, Alberto Martins dá a ver o espaço do metrô, da padaria, da esquina ou do escritório, e em todo lugar há signos sugestivos, notícias depuradas de um mundo que de repente perde a aspereza para ser sólido com outra brandura: "inveja das paineiras / que soltam no ar / sem aviso prévio / seus fardos de algodão". O voo e o peso das plumas é o voo e o peso das palavras.

O desafio posto a esta poesia é o de assumir-se o poeta como sujeito consistente num mundo de experiências dispersivas. Ele se responsabiliza pelo sentido mesmo que se depura das vivências, refutando assim uma imposição do nosso tempo: fornecer coisas já codificadas e significadas. Intimista na aparência é, no fim das contas, uma aposta decidida (não necessariamente ganha) na reserva poética que subsiste com dificuldade dentro de nós.

Vinheta. Terá ficado claro que aqui se buscou rascunhar operações poéticas, e não classificar poetas e obras, mencionados para abrir tendências, sem pretender esgotá-las. Tais operações circulam na criação de hoje, mesclando-se aqui, apurando-se ali, mas sugerindo linhas de força que parecem à espera de um momento maior de consolidação: a criação que saiba enfeixar os múltiplos nervos de nosso tempo relativista, representando-o numa forma superior, voz para as nossas mais fundas necessidades.

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