Linha Imaginária faz mapa das artes no Brasil

O mais democrático projeto das artes plásticas brasileiras vai passar por São Paulo. Sem curador, sem nomes célebres, sem museus nem instituições, sem patrocínio e gerenciado pelos próprios artistas, o Linha Imaginária inaugura na noite de hoje sua 27ª exposição em solo nacional, batizada Diários, no Espaço Cultural Mário Pedrosa. Por atuar nos bastidores e não privilegiar apenas o "eixo nobre" da arte contemporânea (Rio, São Paulo e, de vez em quando, Salvador e Recife), o Linha já passou por 13 cidades, incluindo Bélem, Fortaleza, Goiânia, Vitória, Curitiba e Porto Alegre - com escalas inesperadas como Mariana (MG). Em março é a vez de Uberlândia. A intenção é mapear todo o Brasil. Levou a esses lugares mais de 300 artistas, que vêm de todo o País, reunindo-os em coletivas que não se preocupam em sublinhar relações entre suas obras. O possível diálogo quem inventa é o público que visita as exposições. Essa é outra das propostas do Linha Imaginária: ninguém, curador ou artista, vai ensinar ao espectador como e o que ver. É ele quem deve descobrir - na contramão da tendência mundial que agrupa obras e artistas sob o guarda-chuva de um tema qualquer, sempre sob a batuta de um curador. "Da maneira como acontece hoje, com a influência crescente de curadores e educadores de arte, é como se alguém estivesse lendo um livro para você. Queremos quebrar isso", diz o artista paraense radicado em São Paulo Sidney Philocreon, 32 anos, que coordena o Linha ao lado da paulistana Mônica Rubinho. Ele começou a produzir em 1990, quando se mudou para São Paulo e iniciou seus estudos na Faculdade Santa Marcelina. Sidney, que é artista do Escritório de Arte Rosa Barbosa, já participou de três mostras individuais. Mônica, 30 anos, artista desde os 22, é há 6 anos uma das artistas da Galeria Camargo Vilaça e contabiliza quatro individuais no currículo. São Paulo, Londres e NY - Também na contramão das megaexposições que foram a tendência dos anos 90 - em geral um enorme apanhado de obras menores de artistas célebres (como aconteceu com Dalí e Michelangelo no Masp, por exemplo) - , o Linha Imaginária aposta suas fichas em mostras mais íntimas, em que seja maior o contato com a obra e com os artistas - sempre presentes nos vernissages para receber os visitantes. Os artistas que integram a partir de hoje mais esta coletiva do projeto são Marcos Palmeira, de Patrocínio de Muriaé (MG), Orlando Maneschy, de Belém (PA), Fúlvia Molina, Lilia Kawakami e Marcelo Salum - estes três de São Paulo capital. No momento, o Linha conta com 325 inscritos, sendo que pouco menos que 20 deles ainda não participaram das coletivas. "São artistas que produzem em condições às vezes precárias, mas que estão preocupados com questões atuais, tanto quanto muitos nomes de Nova York ou de Londres." O Linha reúne criadores de trajetórias díspares. Entre eles estão Raquel Garbelotti, Oriana Duarte, Odires Mlászho, Ana Bela Santos, Fábio Carvalho, Ana Kesselring, Alex Cabral, Marta Neves e Albano Afonso. Mostra-concessão - A idéia é promover um intercâmbio, fazer com que os artistas e suas obras circulem pelo Brasil e ampliem seu contato com o espectador. Tudo para que a arte contemporânea se livre do estigma de "bicho-de-sete-cabeças" que tem no Brasil. "As artes plásticas continuam no limbo da coisa estranha, que ainda não é aceita pela sociedade, ao contrário da música e do cinema." Há quatro anos "correndo por fora", agora no novo milênio o projeto se prepara para alçar voôs maiores. A curadora da Bienal de Havana, Ibis Hernandez, já está com o portfólio do Linha em mãos e pretende levar um braço do projeto a Cuba. Em Paris, a Galeria Debret, que fica no Consulado do Brasil, prepara-se para sediar uma mostra em 2002. Em Berlim, a curadora Tereza Arruda pesquisa o Linha para selecionar artistas brasileiros e expor suas obras na Alemanha. "Mas se a coletiva trabalhar com a noção de eixo curatorial, aí não pode levar o nome do Linha Imaginária", avisa Sidney. Segundo ele, hoje em dia a mostra, parte mais visível do sistema de arte contemporânea, é uma espécie de "concessão" ao público. "Primeiro vem o museu ou instituição. Depois o curador. Então as obras, sempre ligadas à curadoria, o espectador e, lá no fim, aparece o artista", afirma. É um movimento contrário à "peste" que nos anos 90 disseminou pelo mundo variadas espécies de curadorias: geográfica (um país ou região), monográfica (centrada em um artista), por período histórico ou temática. O Linha, no entanto, segue apenas a fila de nomes pré-selecionados e adequa suas obras ao espaço físico disponível em cada cidade brasileira. Para participar, o único critério adotado por Sidney e Mônica é que o criador tenha uma pesquisa contemporânea em arte visual. "Não é uma seleção de gosto pessoal minha ou dela. Na arte contemporânea isso não deve mais existir." Um dado significativo: o MAM-SP chegou a sondar o Linha para a realização de uma mostra, o que só não ocorreu porque o museu trabalha apenas com curadorias, o que bate de frente com a filosofia do projeto. Sidney diz que sua iniciativa não é uma crítica, pelo menos explícita, ao atual sistema de curadores - que reinaram absolutos nos anos 80 e 90 e chegam ao terceiro milênio mais poderosos que nunca. "Em lugar de procurarmos um meio para atacar a estrutura, estamos aqui produzindo", diz Sidney. "É uma questão primária. Se eu sou artista, quero mostrar, discutir e refletir junto a outros artistas e ao público." "Salão" aberto a todos, o Linha tenta ainda quebrar a distorção histórica que traz a São Paulo artistas de outros Estados apenas para legitimar a produção local - o baiano Marepe, por exemplo, que depois de passagem meteórica, um tanto folclórica, desapareceu. O Linha Imaginária poderia fazer sua a célebre frase do professor-emérito da USP Miguel Reale (duas vezes reitor, hoje com 90 anos de idade) perpetuada na torre da Praça do Relógio: "No universo da cultura, o centro está em toda a parte". Linha Imaginária - Espaço Cultural Mário Pedrosa (R.Frei Caneca, 1.402, tel.: 253-2331). Hoje, às 19h. De seg. a sex., 9 h às 20 h; sáb., 9 h às 13 h. Até 18/1

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