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Línguas de veneno e bites de maledicência

Cyberstalking veio para ficar. Tudo o que você postar poderá ser (e será) usado contra você

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2017 | 02h00

O mundo contemporâneo cria ou divulga novas palavras. Há alguns anos, você nunca tinha usado empoderar, sororidade e apropriação cultural. Muitos neologismos têm roupagem anglo-saxã: bullying, hackear, deletar, standartizar... 

O admirável mundo novo exige novos termos. Sabemos que a língua é viva, mas o português anda tendo espasmos anglófonos tão frequentes que o som que Bilac ouviu da voz materna parece ter virado the last flower of Latium.

Uma tessela recente do mosaico contemporâneo é stalker. Existe até uma forma canibalizada no Brasil: stalkear. O sentido original é perseguir e violar a intimidade de alguém. Uma canção conhecida do Police, que muita gente canta como música de amor, é um desenho disso: “Every breath you take, I’ll be watching you”.

 

O stalker também é um perseguidor virtual, alguém que entra continuamente no seu perfil, explorando suas fotos, perscrutando suas postagens e está ali, como um vulto, em cada passo que você dê. 

O stalker já constitui tipologia. Tem tempo livre e pode passar muitas horas entrando em blogs, perfis e atrás de notícias. Ele mantém uma ambiguidade com sua vítima: deseja e odeia, ama e repudia. Seu interesse é fruto dessa contradição. Lennon morreu nas mãos de um ser assim. Reagan foi baleado por um stalker que queria chamar a atenção de Jodi Foster.

Nas cidades interioranas existiam formas arcaicas de stalkear. Era a vizinha que, sempre à janela, controlava, comentava, observava todos que iam e vinham. Algumas colocavam almofadas para apoiar seus cotovelos, enquanto cuidavam da vida alheia. O freguês que abria o botequim e era também o último a sair. Da cadeira do bar, vigiava, controlava e passava em revista a vida de todos. Eram a vanguarda do movimento. Ali estavam, em potência, os elementos do futuro cyber-fofoqueiro-vigilante. 

O cuidado com a murmuração, com a fofoca, vem de longuíssima data. A regra de São Bento (480-547) declara que não ser murmurador (cap. 39) e não ser detrator (cap. 40) é uma das obrigações básicas da vida monacal. A desaprovação beneditina à detração é visível, pois a palavra volta 12 vezes na regra, sempre acompanhada de viva condenação. 

No meu livro A Detração, Breve Ensaio Sobre o Maldizer (Editora Unisinos), escrevi que, do ponto de vista beneditino: “A murmuração é um vício, um desvio da caridade cristã, uma hipocrisia de um monge que obedece, porém segue relutante em seu coração, um divisor de comunidades. O irmão murmurador é uma espécie de doente que deve ser curado com o auxílio do abade e da comunidade. Caso isso não seja feito, quebra-se a comunhão do grupo (a koinonia grega). O básico do murmúrio entredentes, do som baixo dito a um irmão sobre uma tarefa ou sobre o abade, é que ele introduz a mentira, cujo pai é Lúcifer”. 

O stalker vai além. Ele não apenas calunia, todavia persegue. Desce da janela, sai do bar e espiona a vida alheia em cada respiro dado. O perseguidor foca no seu objeto e não consegue mais desmagnetizar o olhar. Vive se esgueirando, buscando como alimento a fama alheia. Em um mundo como o nosso, que tornou a exposição pública um bem enorme, quase fundamental, o stalker é um vampiro da força alheia.

 

Cyberstalking veio para ficar. Não sei se adianta advertir, os jovens em particular, que tudo o que você postar será do público para sempre e poderá ser (e será) usado contra você. Há seres dedicados integralmente ao computador todos os dias, não saindo do seu espaço e, do conforto do anonimato das redes, perseguindo notícias, pessoas e fatos. Criam perfis, inventam coisas, perseguem dados, republicam e transformam (falsas) notícias, são agressivos e controladores. 

Surgem novas palavras como doxing, cyberbullying e cyberharassment, que vão multiplicando sentidos e práticas de controle do alheio. Há um cruzamento de Admirável Mundo Novo com o livro 1984. Implode-se o campo da intimidade. Zygmunt Baumann chega a dizer que o conceito de vida íntima desapareceu no mundo líquido. 

Surge um campo vasto para uma nova psicologia do ser contemporâneo. São Bento ficaria abismado com as possibilidades. Não mais as celas de um mosteiro silente, todavia perfis e mais perfis, horas e horas num novo ofício litúrgico de ficar lendo sobre outros, buscando, coletando, repassando. Matinas, vésperas, completas: todas as horas canônicas em torno do Google e do Facebook, babando de curiosidade e ódio, crescendo como hera venenosa em torno do objeto odiado/amado/desejado. 

Talvez, em um futuro próximo, o bem maior a ser vendido no mercado seja privacidade. O mundo, afogado em exposição, temendo os vampiros da rede, acabará desejando a paz da individualidade e o sorriso do anonimato. Surgirão espaços blindados de desintoxicação nos quais cada pessoa poderá evitar todo o contato com o mundo.

No movimento pendular da história, podemos ver surgir a aurora do resguardo como valor supremo. Os novos invejosos dirão: você soube que ela não tem nenhum amigo ou contato e que, nunca, ninguém curtiu uma foto? O outro ouvirá incrédulo e desejoso do valor da invisibilidade. 

Tudo fica no plano utópico, claro. Por enquanto, likes definem a posição de cada ser no universo e popularidade é moeda de troca. Assim como o Buda percebeu, pouco antes da sua iluminação, que o mais perigoso demônio que o atormentava era ele mesmo, cada um de nós poderá notar que o pai de todo stalker é nossa própria vaidade. Atrás de toda reclamação de falta de privacidade pode existir um secreto orgulho e uma inconfessável soberba: vejam como sou importante e ninguém me dá paz. Bom domingo a todos vocês!

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