Imagem Humberto Werneck
Colunista
Humberto Werneck
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Línguas de fora

Tem assunto que, se bobear, nunca se acaba. Você acha que se esgotou, e lá vem ele pedindo mais crônica. Ameaça virar tema crônico. Quem me acompanha (desconfio que só o Anjo da Guarda, e olhe lá) talvez se lembre no que deu a ideia de escrever sobre o guilherme, a beatriz, a mônica, o bernardo e outras coisas com nome de gente. Choveram contribuições e rendeu repeteco - tanto quanto o filão dos estabelecimentos comerciais com denominações bizarras. Ainda ontem minha filha, a Luiza, topou em Belo Horizonte com uma loja chamada Vírus da Griphe.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2014 | 03h15

Nova enxurrada veio na esteira da crônica da semana passada, sobre as barbeiragens que cometemos no trato com idiomas estrangeiros.

O Álvaro desencavou o caso de um chanceler, já falecido, que viu pelo, não em ovo, mas no rosto da rainha da Inglaterra, a julgar pelos termos com que saudou Sua Majestade:

- God shave the queen!

Já o Mario deu notícia da brasileirinha que, num hotel mexicano, achando que "toallas" soaria português demais, pediu "entchugadores de cuerpo". Na Bolívia, a Tania deveria ter pedido "cucharón", mas, para constrangimento geral, disse "concha" - palavra que em países de língua hispânica remete ao órgão genital feminino. Não menos desastrada, a Andréa recomendou a um cubano que provasse "una pinga" - que, de resto, ele conhecia, e intimamente, pois pinga, em Cuba, designa o complemento masculino da concha que não é marinha. Talvez uma visita a país estrangeiro devesse começar por um banheiro público, desses profusamente caligrafados, para aclarar correspondências com a nossa língua.

Mesmo Portugal nos reserva armadilhas. Lá, como se sabe, fazer fila é entrar na "bicha", e quem franqueia as nádegas à seringa se expõe a tomar "pica". Ah, esses portugueses, suspira o Maurício, que, interessado nuns galinhos de cerâmica, indagou à vendedora quanto era a dúzia, e ouviu uma dessas respostas que emburrecem a pergunta:

- É doze, ó pá!

Infortúnio semelhante viveu um brasileiro (quem conta é Paulo Mendes Campos) que, em Paris, perguntou ao garçom o que recomendava como sobremesa; em vez de "dessert", porém, disse "désert" - e, além da conta, pagou mico, sob a forma de outro bicho:

- Um camelo, evidentemente!

Nos anos 50 (está numa carta de Otto Lara Resende a Fernando Sabino), o arquiteto Sérgio Bernardes foi mostrar em Bruxelas seu projeto para o pavilhão do Brasil numa feira internacional. Ao lado do prédio, explicou ele a um colega belga, haveria uma passagem para pedestres. Desastradamente, trocou "piétons", pedestres - e anunciou "une petite route pour les pédérastes".

Quem sou eu para rir dos que maltratam idioma estrangeiro, se em Buenos Aires mal começo a frase, caprichando no que suponho ser espanhol, e o interlocutor, com "jeitiño" portenho, já retruca no que julga ser língua portuguesa? Meu consolo é que mesmo os hispanos podem entre si se confundir. "Coger una guagua", que em Cuba é tomar um ônibus, no Chile dá cadeia: é ter relações sexuais com um bebê.

Mas como não rir? De uma querida amiga, por exemplo, que, sentindo-se mal em Nova York, gastou na farmácia todo o inglês de que dispunha para a circunstância:

- I'm bad...

O importante é que se fez entender e logo ficou good.

Na mesma cidade, deu-se o célebre tropeço linguístico daquele sarado presidente brasileiro. Cercado de jornalistas, foi ao Strawberry Fields, o memorial que homenageia John Lennon no Central Park, e, crente que abafava, recitou:

- Give a piece a chance!

Hilariante tragédia. "A piece", em vez de "peace", avacalhou o verso que pede uma chance para a paz, fazendo o falecido Lennon interceder por uma inesperada personagem:

- Dê uma chance à "piranha"!

"A moça até merece uma chance", me disse um repórter que presenciou a cena, "mas não foi isso o que o cara quis dizer...". Ele explica que a palavra compõe a expressão "she is a piece of ass", ela é um pedaço de bunda, mas também se usa, isolada, no sentido desse peixe que se pesca na calçada.

Em Miami, por fim, conta o Rodrigo, deu-se o caso de um amigo dele que, escandalizado com os preços, só faltou xingar o vendedor:

- Toy have hour!

Orgulhoso de si, virou-se para a mulher, a porção monoglota do casal, e traduziu:

- Estou dizendo pra ele que brincadeira tem hora!

Tudo o que sabemos sobre:
Humberto Werneck

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.