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Lúcia Guimarães
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Lingua franca

Estava numa região em que as escolas públicas registram alunos que falam 125 línguas nativas

Lúcia Guimarães , O Estado de S. Paulo

31 Agosto 2015 | 02h00

É possível que, quando você esteja diante desta coluna, a colunista esteja diante de um juiz num tribunal de causas civis. Ou, quem sabe andando de lá pra cá, ansiosa, num corredor, enquanto o homem de toga emite sua decisão. Nunca pus os pés num tribunal americano. Não estou sendo processada. Tento ajudar uma pessoa próxima cuja inexperiência, condição de imigrante e limitações na língua inglesa a fazem vulnerável a uma escalada judicial. Ela não tem advogado e não pensou, a tempo, em procurar um escritório de defensores pro bono. 

Talvez não esteja sendo justa quanto à limitação da língua. O adversário da jovem tem o inglês apenas suficiente e ideal para um papel secundário num antigo episódio dos Sopranos, em Nova Jersey. Quando o alquebrado octogenário italiano abriu a boca, apertei o botão de gravar no meu iPhone. É ilegal gravar a voz das pessoas sem seu consentimento e, se eu não tivesse que apagar a gravação, depois de anotar os dados que não quis anotar na sua frente, para não deixa-lo nervoso, quem ouvisse o diálogo ia me dar razão. O homem seria perfeito como o capo suave, explicando num sussurro, como, de fato, me explicou, que a famiglia é mais importante que tudo. 

Nossa conversa discreta, ambos sentados numa mureta nos fundos de um edifício, num bairro com grande população brasileira e italiana, não corria risco de terminar numa saraivada de balas de uma minissérie. Mas tomei o cuidado de não tirar da bolsa dezenas de páginas que imprimira com registros da prefeitura sobre irregularidades em propriedades do grupo daquele sósia de um tio da família Corleone.

Não, nós conversamos sobre netos e sobre trabalhar com afinco. Conversamos sobre a inesgotável fonte de excentricidade que é Nova York. Ouvi sua saga para se livrar de uma inquilina com trinta e tantos gatos. Sabia que a inquilina não é americana mas sua nacionalidade não entrou na narrativa. Compreendo o que ele descrevia. Meu edifício é um território de tensão constante entre os yuppies que pagam aluguéis altos e os velhos solitários remanescentes de contratos de décadas, cuja morte, esperada ansiosamente pelos donos do prédio, porá fim a aluguéis irrisórios ainda sujeitos a uma antiga lei municipal. Enquanto o que pago de aluguel é o dobro do que pagaria para morar num apartamento de 300 metros quadrados nos Jardins em São Paulo, meus vizinhos de parede reproduzem o cenário daquele documentário Grey Gardens, dos irmãos Maysles, depois transformado em filme com Jessica Lange e Drew Barrymore, no papel das hoarders, parentes de Jacqueline Kennedy. Vivem cercados de sacolas e pilhas de jornais.

Depois de obter uma promessa de leniência na conversa ao ar livre, caminhei até a casa do homem-personagem. As alusões a clichês étnico-cinemáticos continuavam. Um anão no jardim, uma matriarca de camisola tomando sol. Seu sorriso sugeria que ela vive mentalmente num mirante cercado de névoa. Todos trocamos gentilezas, àquela altura, praticamente sinceras. Prometi aparecer no tribunal para dar apoio. Agradeci a oportunidade de ajudar a impedir a continuação da ação legal e saí caminhando pelas ruas semidesertas do sábado modorrento de agosto. Estava numa região em que as escolas públicas registram alunos que falam 125 línguas nativas. Pensei no drama dos imigrantes morrendo para chegar à Europa. Pensei na feiura de alemães rancorosos, em skinheads britânicos, em racistas húngaros. 

E me dei conta de que não me lembro de um só exemplo em que o fato de ser brasileira foi usado contra a minha pessoa. Nas histórias cheias de rancor do homem-personagem, países de origem não foram citados. Mas ele e eu nos encontrávamos em alguma forma de lingua franca, assim como o idioma comum que unia povos mediterrâneos, nossa linguagem tinha sido adquirida em sobrevivência e acomodação.

O laboratório imigrante americano é imperfeito. Mas é vastamente mais sofisticado e harmônico do que sugerem mercadores do ódio racial como Donald Trump. 


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