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Língua e vida

Indicar um amigo querido como bicho já foi afetivo. Hoje implica ser fã de Roberto Carlos

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 03h00

A língua é viva e poucas coisas envelhecem tão rapidamente nela como a gíria. Nascidas de um termo da moda, de uma tendência passageira ou de algum leve agito na superfície dos vocábulos, as gírias raramente permanecem. Mais: saber algum termo denuncia idade. Uma propaganda, por exemplo, fundiu o termo bocó com mocorongo e surgiu “boko-moko” e ninguém jovem tem a mínima ideia de que era algo para indicar brega, cafona, kitsch. 

Indicar um amigo querido como bicho já foi afetivo. Hoje implica ser fã de Roberto Carlos. Você ainda elogia alguém como batuta? Há chance de a pessoa se ofender se for mais recente seu nascimento. “Batuta é a sua mãe, filho de uma batuta!” Seu amigo dança com habilidade? Se você disser que ele é um pé de valsa, pode soar como algum tipo de joanete específico para muitos. “Chegou serelepe à festa supimpa?” Isso hoje pode ser que usou “bala” ou “doce” antes do evento? Se você nunca imaginou que “doce” se refira à droga LSD ou que “bala” possa se referir ao universo das anfetaminas, parabéns, você está “limpo”, outra gíria do gueto dos “brisados”.

Grupos específicos criam muitas gírias. 

Vai beber? Se pedir goró, mé, caninha, cachaça, birita, pinga, solicitar algo para molhar o bico ou para calibrar indicará que tem idade legal para consumir. Falar birita, aliás, já quase sinaliza que você poderia passar à frente da fila do bar protegido pelo estatuto do idoso. Está na hora de buscar sua patota, a turma que assistia ao Patrulheiro Rodoviário na adolescência.

Sinal claro de testosterona em declínio: “Aquela menina é um broto”. Se ela retribuir e disser que você é um “pão”, convide-a para sair, pois vocês pertencem à mesma geração e podem compartilhar seus remédios de controle de colesterol. 

Há termos superados pela tecnologia. “Cair a ficha” ou “virar o disco!” não apenas perderam o sentido, distanciaram-se do real porque quase nada mais usa ficha e o disco de vinil é peça pouco comum. Novas tecnologias causam novos termos. Na internet, alguém pode “hitar” (fazer sucesso) ou um novato no grupo de game: “Noob”. 

Volto a repetir mesmo não sendo da área: a gramática e o dicionário de uma língua são museus; a vida pertence à rua e aos usuários nativos que usam, moldam, transformam e “deformam” os sentidos. 

Da mesma forma que a dinâmica linguística é fascinante e bela, existem palavras que atravessam os séculos com força. As gírias/palavrões com conotação sexual são as mais notáveis. Mestre Houaiss registra que o termo mais vulgar e comum para descrever o ato sexual começa com f. e tem origem no século 13. Incrível! Algumas pessoas nem imaginariam que houvesse sexo na pudica e piedosa Idade Média, mas não só havia intercurso, conúbio amoroso e fornicação, como havia f. O que feria ouvidos da época ainda não pode ser descrito totalmente em ambientes sofisticados e puritanos. Porém, de todos os termos, o infinitivo e o particípio passado de f. é o mais plástico e amplo. Em si, designa verbo que envolve prazer. Pode ser indicativo também de uma vingança de pessoa abandonada por amante: “Eu vou f. com sua vida”. Pode ser um poderoso elogio quando substantivado: “Você é f., cara!”.

Caracteriza o fundo do poço existencial no particípio passado: “Estou f.”. Assinala absoluta indiferença com certa negatividade: “Eu quero mais é que se f.”. Há sentidos mais complexos, como “está de f. o orifício anal do palhaço”. Indica, no último caso, tarefa árdua, com dificuldades extremas. Normalmente, nas ruas e praças ou WhatsApp, orifício anal é substituído pelo símbolo do elemento cobre na Tabela Periódica. 

Língua é viva, ampla, pulsa muito além da sala de aula. Se você é jovem ou mais maduro, adepto de vocabulários sofisticados ou busca neologismos de internet, saiba, sempre, que a comunicação vai além do indivíduo e do seu mundo. Língua é ponte e muitos a querem como muro. Língua comunica e há quem insista que ela deve ser tão fossilizada que impeça a comunicação. Quando você estuda a fundo a gramática, isso deve ser um trampolim para entender qual a dinâmica de uma língua, muito mais do que supor que as proparoxítonas devam ser todas acentuadas. As proparoxítonas, antigamente chamadas de esdrúxulas, têm uma sílaba tônica na antepenúltima sílaba e, na língua usual, esse ritmo de sílaba forte é pouco comum. Assim, ao estudar gramática, você percebe a melodia da língua, suas exceções e saltos, sua vida e a história dos mais fundos conceitos que regem nosso cérebro com a sua respectiva língua materna. Nossa língua pode ser “rude e dolorosa” como especificou Bilac, pode usar gírias de internet ou antigas, pode ter a cadência camoniana ou o brilho dos termos em iorubá: sempre será a nossa, viva, rica, multicolorida, mestiça, com pai latino, vibrantes tios africanos e indígenas, invasão de algum software e, sempre, sempre, acima de tudo, a língua que ouvimos da nossa mãe. Amar a língua nunca será acompanhá-la à sala de necropsia, todavia expandi-la em novos gritos de vida. E, ao fim, com sorte, depois de termos dado nossa vida com ela e através dela, assinalará, em sonoro português, que “aqui jaz” um usuário da língua portuguesa e que, momentaneamente, não pode mais receber seu WhatsApp. É preciso falar da palavra portuguesa esperança. É um termo lindo. 

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