Lindo, mas um tanto obsoleto

Depois da Árvore da Vida, a do Amor. O novo Zhang Yimou não tem a pretensão de ser um conto filosófico sobre a origem da vida (e do mal), como o de Terrence Malick, que ganhou a Palma de Ouro, em maio. A Árvore da Vida tem defensores ardorosos, embriagados demais pela pretensão do filme para perceber tudo o que há de banal, sob aquela pompa e circunstância. O Zhang Yimou sofre de um tratamento inverso.

O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2011 | 03h07

O Romeu e Julieta do diretor chinês recebeu a etiqueta de 'melodramático' e, como tal, passou a ser desqualificado. O melodrama de Yimou é político e visa a dar uma visão crítica da China sob o comunismo. Como sempre, o visual é impecável - fotografia de Zhao Xiaodoing - e o cineasta, mais uma vez, revela que tem bom olho para as mulheres. Depois de revelar Gong Li e Zhang Ziyi, ele dá a primeira oportunidade à estreante Zou Dongyu.

Ela faz garota da cidade que é enviada com os colegas para um período de reeducação no campo. O conceito do regime é que intelectuais burgueses precisam desse contato com a terra - e os camponeses - para se livrar dos seus preconceitos, basicamente da sua suposta superioridade. Os pais de Jing - é seu nome - estão em desgraça junto às autoridades. O pai é um intelectual que foi preso, a mãe, uma professora que foi rebaixada a faxineira. Ambos dependem agora de Jing e ela se dedica com afinco à disciplina do partido. Mas surge o garoto, Sun (Shawn Dou).

Ele também é estudante, sentem-se atraídos, mas, como na tragédia lírica de Shakespeare, o Romeu e a Julieta chineses vão encontrar todo tipo de empecilhos. Entre outras coisas, Sun, que se beneficia de uma posição social mais elevada, está tendo seu casamento arranjado pelos pais. Ele some, e isso desestabiliza Jing.

E onde entra a Árvore, nisso tudo? A Árvore é a própria representação do regime. Presta-se à mistificação oficial. Diz a lenda que a árvore, em vez de flores brancas, dará flores vermelhas, adubadas com o sangue dos heróis da revolução de Mao. Se o filme tem essa dimensão 'Romeu e Julieta', o espectador pode esperar pelo desfecho trágico. Tem a ver com a crítica de Zhang Yimou ao comunismo chinês. É um filme bonito, um tanto inócuo, talvez. Zhang Yimou, de dissidente, virou cineasta oficial? Ele fez a abertura das Olimpíadas, como você deve se lembrar. Para o entendimento das contradições da China Atual, mais vale o cinema de Jia Zhang-ke. / L.C.M.

Filme narra a história de garota da cidade

que é enviada ao campo para ser reeducada

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