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Límpido, belo, delicado

'Cadernos de João', de Aníbal Machado, é desses livros a serem degustados ao longo de uma vida inteira

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

19 de março de 2019 | 02h00

Já perdi a conta das vezes em que entrei num sebo e, ultimamente, também na Estante Virtual, em busca de Cadernos de João, de Aníbal Machado. Em dia de sorte, arremato quantos exemplares houver. Não esqueço uma pescaria especialmente afortunada, da qual saí, pisando em nuvens, com meia dúzia de volumes, quase todos em muito bom estado. Presentes escolhidos antes da escolha dos presenteáveis. Sou exigente – e mais ainda nisto: tem que ser da primeira edição, lançada pela José Olympio há mais de 60 anos. Só ela me interessa, e não exatamente porque seja a primeira; o que me pega, ali, além da poesia e da prosa de Aníbal, é o capricho investido pela editora, a melhor e mais prestigiosa de seu tempo.

Escoada lentamente, pois nem de longe chegou a ser um best-seller, a primeira edição de Cadernos de João terá sido um desses livros que me parecem morar, esquecidos, nas prateleiras de uma livraria, à espera do bom faro de quem de fato os mereça. Quando me interessei por ele, aos 20 anos, ainda se podia achar uma fartura num depósito da José Olympio em Belo Horizonte. De lá saí ainda sem saber que levava um literal livro de cabeceira, fadado a estar o tempo todo à mão para incontáveis folheadas vadias, nenhuma das quais desprovida de alguma gratificação. 

Fosse hoje e eu não cometeria o crime de mandar encadernar esse vitalício companheiro de viagem, tarefa confiada há mais de meio século a um brutamontes que, farejando inexperiência no cliente, não hesitou em descartar a capa e a contracapa, e mais, a refilar o volume, aparando na guilhotina os três lados que não eram a lombada, eliminando assim beiradas irregulares deixadas pelo gume rombudo das espátulas de abrir livro, então obrigatórias. Menos mal que haja, numa das primeiras folhas, uma reprodução da capa, em rubro e negro, desenhada por Manuel Segalá, que a imaginou como folha de papel pautado arrancada de um caderno de espiral, sem que alguém a tenha refilado...

A participação do artista espanhol no projeto gráfico, justamente, é uma das razões que me levam a encarar com menos entusiasmo as edições posteriores de Cadernos de João, nenhuma delas portadora das vinhetas em ocre de Segalá, que ajudam a fazer tão sedutora a edição de 1957. Nessas sexagenárias 245 páginas, aliás, tudo é acolhedor, do entrelinhamento generoso à tipologia elegante e de tamanho amigável.

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Durante quase meio século, da década de 1920 à sua morte, em 1964, aos 69 anos de idade, o escritor mineiro foi infatigável divulgador de vanguardas estéticas e políticas brotadas na Europa e nos Estados Unidos. E também um notável agregador de gente boa. Tornaram-se legendárias as “domingueiras” que Aníbal Machado promovia em sua casa, em Ipanema, estimulante opendoor a que comparecia a melhor fauna literária, intelectual, artística, política e até mundana que houvesse no Rio, aí incluídos forasteiros de passagem, entre eles Albert Camus e Orson Welles. 

Nos fundos do 487 da rua Visconde de Pirajá, nasceu o Teatro Tablado, que por décadas teria o comando de Maria Clara Machado, uma das seis filhas de Aníbal. Não só. “Muitos novos receberam ali a iniciação literária e muito livro foi ali batizado”, rememorou um dos habitués daquelas noitadas, Otto Maria Carpeaux, que via em Aníbal um “animador sem-par”, e mais, “o Colombo de novos continentes poéticos”. Disse ainda Carpeaux: “Nenhuma estatística verificará jamais quantos livros importantes, bons ou sofríveis, qual parte da literatura brasileira entre 1930 e 1960, foram concebidos nas conversas daquela sala da rua Visconde de Pirajá; e quanta música boa se inspirou nos cantos folclóricos ali ouvidos”.

A mesma sorte não teriam, porém, naquela casa e alhures, os escritos finos do animador das domingueiras. Com exceção de A Morte da Porta-Estandarte e Outras Histórias, que teve alguns de seus contos transpostos para o cinema (Tati, a Garota, Viagem aos Seios de Duília, O Iniciado do Vento – nas telas chamou-se O Menino e o Vento – e A Morte da Porta-Estandarte), a pequena e preciosa obra de Aníbal Machado não conquistou ainda o público que por certo merece. Para João Ternura, seu único romance, não só por isso singular, escrito ao longo de 40 anos e publicado em 1965, após a sua morte, não houve ainda a devida sensibilidade crítica, nem sucesso de livraria – em parte, quem sabe, por culpa de seu título açucarado. Em Minas há quem nunca o tenha lido, mas saiba que foi Aníbal, mirrado ao ponto de lhe caber o apelido “Pingo”, o autor, em 1908, do primeiro gol do Atlético, fundado naquele ano por filhos da elite belo-horizontina. 

Cadernos de João, que esperou quase três décadas para ser republicado, parece ter sido vítima de uma dificuldade de classificá-lo, num país onde a declaração de gênero pode ser decisiva para o leitor. Reunindo plaquetes lançadas em edições confidenciais nos anos 1950, o livro, de fato, não cabe num rótulo. Contém poemas, poemas em prosa, reflexões tão agudas quanto despretensiosas, e pequenos textos de ficção, não raro sob a forma de teatro. Para o autor, trata-se de “amostras de cerâmica verbal”, “afloramento de íntimos arquipélagos, luzir espaçado das constelações predominantes”. Tudo é límpido, belo, delicado, cheio de humor e lirismo, como nos antológicos A Bicicleta do Filho Pródigo e O Transitório Definitivo, dois pontos altos entre muitos. Aqui e ali, farpas contra “o conforto cívico da boa linguagem”. 

A certa altura, Aníbal sonha escrever “... um livro em que esteja ventando em cada folha e fazendo sol nas margens; um livro que suscite no leitor a vontade de fechá-lo depressa e ir vivê-lo fora de suas páginas”. Um livro como Cadernos de João, exatamente – mesmo que não seja em sua primorosa primeira edição. 

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