Limites da farmacologia

Um pequeno mal-entendido voltou à minha memória como um luminoso de néon numa rua escura.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2010 | 00h00

A manchete na TV gritava: "Larry King vai se divorciar pela oitava vez." Bocejo. "Mulher do apresentador da CNN acusa a própria irmã de traição com o marido." A foto da irmã mais nova, siliconada e malhada, como a barriguinha de fora, caminhando ao lado de King, conseguiu plantar minha atenção na tela.

Não faz muito tempo, esbarrei em Larry King no Columbus Circle em Manhattan. Ele sorria magnânimo, se antecipando aos ahs! de reconhecimento popular. O meu ah! mudo se deveu muito menos ao encontro com uma celebridade B ? afinal uma moradora de Manhattan desenvolve uma atitude blasé diante desses esbarrões fugazes ? do que à minha surpresa diante do envelhecimento evidente do apresentador. Uau, e pensar que ele tem filhos pequenos. Ao acompanhar com os olhos sua caminhada, me ocorreu que, se aquele homem não fosse o entrevistador piegas que me mantém longe da CNN toda noite às 9, se aquele homem tivesse escrito um grande romance, uma bela canção, se ele soubesse conversar com o humor de Mark Twain e o charme cosmopolita de Tom Jobim, não haveria a menor chance de sedução. A diferença de idade e a falta de atrativos me impediriam de chegar perto. Se Larry King fosse o gerente do restaurante aqui na esquina, ele não teria passado do segundo casamento.

O que me fez lembrar uns minutos de confusão, há uns dez anos, na casa de uma poeta nova-iorquina da geração de Larry King. Ela recebia amigos e me apresentou seu namorado, um dramaturgo relativamente desconhecido e muito charmoso de 72 anos. O namorado trouxe um amigo. Os convidados eram, em média, 25 anos mais velhos do que eu. Pois enquanto se planejava um encontro para ir ao teatro ou algo que o valha, o tal amigo convenceu-se de que eu iria como sua namorada. Fiquei mortificada porque não era possível dizer a um homem gentil e idoso que ele não estava no meu radar. Quando o homem me telefonou, dei uma desculpa em código e, ao menos nesse episódio, o temor bíblico que o homens nova-iorquinos têm das mulheres funcionou como proteção contra o mal-entendido.

Hoje percebo o que o gentil desconhecido e Larry King devem ter em comum: a pílula azul. Uma colunista mordaz de um tabloide local bradou: dormir com Larry King? Nem por US$ 1 milhão (a suposta soma da sua generosidade com a cunhada). Nem por US$ 14 milhões (seu suposto salário anual).

Um jovem colunista do Daily Beast diagnosticou a nova inquietação social provocada pela "Brigada do Viagra". E usou até o argumento da saúde pública para os riscos do exército de homens idosos armados com receitas de pílulas contra a impotência: explosão de doenças venéreas entre aposentados da Flórida que passaram a frequentar prostitutas.

O colunista lembrou que Larry King pertence à primeira geração de homens da terceira idade que podem adiar sua caminhada para o ocaso sexual. E, para manter esse barco à tona, eles vão jogando ao mar as mulheres da sua geração. Um advogado de divórcios famoso por defender celebridades nova-iorquinas chegou a apelidar a pílula de "veneno" para casais mais velhos. Mas pelo menos um laboratório usa a frase "Obrigada, menos um divórcio" para promover remédio contra a impotência. O problema aflige homens de idades variadas, é claro que se trata de um progresso da ciência que promove autoestima, salva relacionamentos e gera bilhões de dólares para grandes corporações.

Mas o novo choque de gerações provocado pela pílula é um fato e a afluência do homem é o elemento quase obrigatório dessa nova combinação. Quantas vezes a vitalidade desigual salta aos olhos ao se folhearem revistas com fotos de celebridades?

Semanas depois daquele pequeno mal-entendido, minha amiga terminou com o namorado em plena viagem de férias. Ele ficou inconsolável e recusou a sugestão de voltarem a ser amigos. Por um momento, pensei, que mulher corajosa. Aos 70 anos, uma viúva dispensa um setentão inteligente, charmoso e solteiro. Quando perguntei o motivo da separação, ela suspirou e disse: "Já fui casada, tenho filhos, sou avó. Nós dois somos escritores, mas o assunto é ele, ele, ele o tempo todo. Narcisismo assim, numa idade em que sexo já não me importa tanto, é muito chato. O fato é que as minhas amizades são mais estimulantes."

Quem sabe, a próxima "eureca!" da indústria farmacêutica vai estimular outras regiões. Uma pílula vermelha contra o tédio.

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