Limites da arte em tempos sombrios

Piscina (Sem Água), do britânico Mark Ravenhill, questiona os valores e expõe a fragilidade das relações

Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2010 | 00h00

Entre o bem e mal. O motor da ansiedade impregna de tensão todas as falas do grupo          

 

 

 

 

 

 

 

Como prática disciplinar das religiões cristãs, o exame de consciência supõe que cada indivíduo, sendo dotado de uma parcela da razão divina, é capaz de distinguir entre o bem e o mal. À medida que as religiões cristãs perdem a hegemonia na cultura ocidental, contudo, essa prática útil também como modelo ficcional cede lugar para uma linguagem em que o ponto de observação do narrador é exterior às personagens.

Sempre do lado de fora, observando o modo como agem as criaturas ficcionais e evitando atribuir aos atos um valor moral, as diferentes modalidades da narrativa contemporânea contornam a um só tempo os temas do pecado e da virtude. Pois o dramaturgo britânico Mark Ravenhill está a meio caminho de uma retomada dessa perspectiva. Por enquanto, o caminho para o restabelecimento do foro íntimo foi percorrido apenas pela metade porque, pelo menos na peça Piscina (Sem Água), a consciência que atribui valor aos atos e pensamentos não se localiza no interior de uma subjetividade, mas é, antes, exercício coletivo de destrinchar, analisar e sopesar intenções e atos. Na verdade, a moderada ousadia do texto resume-se a dissolver por várias vozes o discurso habitualmente monológico da personagem singular.

Na peça de Ravenhill, o grupo de artistas cercando uma amiga bem-sucedida e próspera se aglutina como um coral de vozes ressentidas. A frustração e a inveja consequente distribuem-se de modo igualitário e não há, portanto, a investigação íntima e secreta de sentimentos malévolos e atos perversos. Porque agem como um coletivo assediando e explorando a confiança e a vulnerabilidade da amiga acidentada, os quatro companheiros de ofício são, sem dúvida, emblemáticos de um comportamento vinculado aos valores sociais que distinguem fracasso e sucesso.

No entanto, não é apenas à ética coletiva que se refere a peça, uma vez que o formato de discurso interior reproduz as idas e vindas do pensamento recalcado e examina a intuição malévola que pode não se transformar em ato, mas incomoda de forma aguda a consciência em que se aninha. É essa espécie de inquietação, por vezes intenso sofrimento, que faz com que a peça se assemelhe aos exercícios espirituais e confere a essas confissões grupais o aspecto de pecado.

Mal-estar sem grandeza, o sentimento da inveja na peça provoca um movimento cujas consequências daninhas seriam mínimas, se levadas a ferro e fogo. Na verdade, a ação imaginada pelo grupo é, em gênero e grau, muito semelhante à da obra que, no passado, deu impulso à invejada carreira da amiga. É porque as coisas em si não são nem boas nem más que as personagens se agitam de modo quase frenético na tentativa de evadir a ética. Toda a peça se organiza, de modo célere, em direção a uma ultrapassagem do objetivo invejado e isso parece mais importante do que a posse dos mesmos bens e o usufruto dos privilégios do artista bem-sucedido.

Ânsia de superação e rapidez nessa disputa inglória são dois impulsos acentuados pela direção de Felícia Johansson no espetáculo que mereceu o primeiro prêmio no Cultura Inglesa Festival desse ano. O motor da ansiedade impregna de tensão todas as falas desse discurso ininterrupto do grupo e a rapidez inspira um desenho coreográfico que dá ao espetáculo um acabamento mais refinado, sugerindo a linguagem artística em que se expressam as figuras do texto.

O elenco integrado por Einat Falbel, Ester Laccava, William Amaral e William Ferreira é homogêneo e competente na combinação desses dois impulsos que, no caso desta peça, devem estar sempre a serviço das frases. Embora mesquinhos, os sentimentos e projetos dos artistas, são todos instruídos em uma linguagem que celebra a visualidade e o espetáculo reflete essa vocação por meio das cores fortes da iluminação sobre as superfícies cenográficas.

Não se acomoda a esse cuidado estilístico o figurino de Eliana Carneiro, cujo aspecto banal, beirando intencionalmente a feiura, faz justiça ao significado dos atos das personagens, mas destoa dos outros elementos de composição do espetáculo. Tudo tem a pretensão de ser muito simples, desde os equipamentos cenotécnicos expostos até as vestimentas dos intérpretes, mas roupas muito descuidadas desdenham o fato de que se trata de pessoas para quem a aparência é essência. É, aliás, a aparência da "outra" que pretendem sequestrar e usar em benefício próprio.

Pecados são um tema fora de moda e, ao retomar esse motivo por meio do exame da consciência culpada, a peça sugere o avesso da ética contemporânea fundada exclusivamente no humanismo. Mais instigante é o subtema igualmente anacrônico da vocação como sopro apolíneo. Artistas de verdade são criaturas assinaladas, gloriosas por direito natural e imunes às espetadelas da consciência culpada.

PISCINA (SEM ÁGUA)

Teatro Cultura Inglesa Pinheiros (193 lugares).

R. Dep. Lacerda Franco, 333, 3814-0100.

Sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 30. Até 12/9.

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