Limite moral do mercado

NOVA YORK - O mercado é amoral, dirá o leitor, já se opondo ao título da coluna. Concordo e explico: trata-se do subtítulo do novo livro de Michael Sandel, o professor de filosofia de Harvard, responsável pela série Justiça, que se tornou um dos cursos mais frequentados da história da Universidade.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2012 | 03h06

What Money Can't Buy: The Moral Limits of Markets (O Que o Dinheiro não Pode Comprar: Os Limites Morais dos Mercados) se tornou o mais popular entre uma safra de livros inspirados pelo crash de 2008 e a contração da economia mundial. O choque da farra financeira e suas consequências provocaram o que um comentarista comparou à traição no casamento. O colapso do comunismo havia selado uma era de celebração da sabedoria ilimitada do mercado que, por sua vez, passou a bloquear qualquer julgamento moral sobre a "securitização" de tudo. Sandel está longe de ser um esquerdista ou um crítico do capitalismo. Ele alerta que não foi uma explosão assintomática de ambição a responsável pela crise financeira. A mudança começou há 30 anos com o triunfalismo do mercado. Nós partimos de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado. A economia de mercado é uma ferramenta de produtividade. A sociedade de mercado é um mundo onde tudo está à venda.

O livro começa, não com a defesa do argumento do autor, mas com uma lista às vezes obscena do que o dinheiro pode, de fato, comprar. Alguns exemplos:

Um detento pode comprar, por US$ 82, um upgrade para uma cela com mordomias na prisão de Santa Ana, na Califórnia. A moda começa a se espalhar por outras cidades.

Alugue uma parte do seu corpo para publicidade. A companhia aérea Air New Zealand contratou 30 pessoas para rapar a cabeça e aplicar uma tatuagem temporária com publicidade. Mas Kari Smith, mãe solteira do Estado de Utah, estava tão desesperada para pagar a educação do filho que leiloou online uma tatuagem permanente por US$ 10 mil. Um cassino gostou da oferta e a testa da mulher exibe o endereço do website do cassino.

Compre com desconto a apólice de seguro de vida de um idoso e recolha o pagamento após a morte. A indústria que aposta na vida de estranhos prosperou no começo da epidemia da aids, quando doentes terminais não conseguiam pagar o custo astronômico do tratamento médico. Hoje, os chamados "Bônus da Morte" movimentam anualmente mais de US$ 30 bilhões nos Estados Unidos.

Por US$ 15 a hora, uma empresa contrata homeless para fazer fila no Capitólio. Eles cedem lugar aos lobistas que querem lotar os assentos das audiências legislativas.

O negócio de furar fila é cada vez mais lucrativo. Nesta segunda-feira, a Delacorte Theater, aquela arena ao ar livre do Central Park, construída para a série Shakespeare in the Park, faz 50 anos. O criador visionário da série, Joseph Papp, morreu em 1991 sem assistir à violação do princípio que o fez enfrentar poderosos caciques políticos de Nova York na década de 60: Shakespeare no Parque seria sempre grátis. Oficialmente continua a ser - 70% dos ingressos são grátis, 30% vão para os convidados de patrocinadores corporativos. Mas, quando Al Pacino viveu o Shylock do Mercador de Veneza, em 2010, havia gente pagando até US$ 200 para alguém passar a noite na fila. É ilegal? Não. Se você entra no website do festival, antes de descobrir o horário das produções, vai ser convidado a se tornar um membro pagante do Public Theater e a lista de benefícios começa com: "Fure a fila, encomende os ingressos antes de eles serem oferecidos ao público".

Sandel lembra que mais empregados de empresas privadas participaram das ocupações do Iraque e do Afeganistão do que soldados americanos. O debate sobre a terceirização da guerra não existiu. A inércia transfere para o mercado as decisões. E como o mercado não faz julgamento ético, a decisão é amoral.

Essa forma de "precificação" de todas as áreas da nossa vida tem consequências graves, escreve Michael Sandel. Ele deixa claro: não acredita que a democracia exige a igualdade perfeita. Mas a democracia exige que esbarremos uns nos outros. A sociedade de mercado segregou os americanos a tal ponto que eles vivem vidas paralelas, nunca se encontram. Quanto mais o dinheiro invade áreas como saúde, educação e política, maior é a segregação. A extinção progressiva da experiência comum, diz o autor, é o perigo para a democracia.

E ele conclui com a pergunta: Nós queremos viver com bens cívicos independentes do mercado? Se a resposta é "sim", então, precisamos decidir o que o dinheiro não pode comprar.

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