Lima Duarte, 60 anos interpretando "o brasileiro"

A história pessoal de Lima Duarte é tão impressionante quanto a galeria de tipos que ele montou ao longo dos 60 anos de carreira que completou em 2005 no cinema, no teatro e, principalmente na TV, onde estão seus mais famosos personagens. E a maneira como ele conta sua trajetória é tão fantástica quanto a de um personagem de novela. Talvez ou também por isso, vira-e-mexe é "acusado" de interpretar sempre o mesmo personagem. Às críticas desse tipo, sempre deu de ombros e assumiu uma posição que é, de fato, política: "Interpreto o brasileiro." Este brasileiro, sujeito que passou do meio rural para o urbano numa rapidez incrível de 40 anos, é o estudo de uma vida. É ele mesmo, combinação do show biz que tem um pé na roça. A mãe América, era atriz de circo; o pai, Antônio, agricultor. Dela, ele herdou o gosto pelo palco e ganhou o nome artístico - o de batismo, Ariclenes Venâncio Martins, pareceu pouco apropriado a um futuro astro. "Use Lima Duarte, que é o nome do meu espírito de luz", aconselhou a mãe, espírita. Vindo de Desemboque, no interior de Minas Gerais, num caminhão carregado de mangas aos 15 anos, Lima caiu nas graças de uma dona de bordel, Madame Paulette, que o levou para um teste no rádio. O dinheiro que a mãe lhe deu antes de ele sair de casa - uma nota de 500 mil réis - está até hoje presa no mural do seu apartamento em São Paulo, entre fotos, recortes de jornais e várias recordações. "Eu não gastei, garota! Passei o diabo, mas não gastei. E hoje eu sou da Globo, viu só?" Depois de Paulette, vieram os vôos: primeiro, o sucesso como sonoplasta, depois as radionovelas, a inauguração da TV, a direção da revolucionária Beto Rockfeller (1968), O Bem-Amado e seu inesquecível Zeca Diabo (1973), a consagração no cinema com Sargento Getúlio (de Hermanno Penna, 1978), o Teatro de Arena, Sinhozinho Malta de Roque Santeiro (1985) e seu preferido, Sassá Mutema, de O Salvador da Pátria (1989). A idéia era comemorar os 60 anos de carreira e os 75 de vida no cinema - foram cinco filmes, um atrás do outro -, mas a TV que ajudou a fundar não vive sem ele. Lima começou 2005 com uma participação especial em Senhora do Destino e entra em 2006 como o turco Murat, de Belíssima. Muitas histórias, inúmeros detalhes e uma prosa boa, exclamativa, nesta entrevista à Agência Estado, em seu apartamento. "Eu não queria mais fazer novela, mas o Silvio de Abreu (o autor de Belíssima) jogou pesado: me disse que eu seria marido da Irene Ravache e amante da Fernanda Montenegro. Você acha que eu posso resistir?" O senhor participou de vários filmes neste último ano e, não fosse "Belíssima", comemoraria os 60 anos de carreira no cinema. Não é no mínimo curioso, para um ator tão consagrado na TV como o senhor?A verdade é que eu trabalhei muito no ano passado. Depois de Da Cor do Pecado (2004), fiz um filme lindo, Depois Daquele Baile (com previsão de estréia para abril). Tem direção do Roberto Bontempo, com a Irene Ravache e o Marcos Caruso. É tão bonitinho que parece filme argentino, sabe? Voltei a filmar em Portugal, com Manoel de Oliveira - com quem eu já havia feito Palavra e Utopia (2000), como Padre Antonio Vieira - e com Paulo Rocha, com quem fiz O Rio do Ouro (1998), que é um dos filmes de maior sucesso lá. Em Boleiros 2 (Ugo Giorgetti) sou um árbitro e, em A Ilha do Terrível Rapaterra, da Ariane Porto um vilão. as sua preferida continua sendo a televisão? Sim. Eu sou o único homem vivo que estava lá na inauguração (em 18 de setembro de 1950). A Hebe Camargo deveria ter ido, ia cantar o Hino Nacional, mas foi namorar. No lugar dela, cantou a Lolita Rodrigues. Eu tinha 20 anos. E já trabalhava na Rádio Tupi desde 1946. Em 1950 veio a televisão e eu fui buscar os equipamentos em Santos. Nós subimos a Via Anchieta num caminhão, soltando foguetes. Um dia, estávamos jogando peteca - eu, o Ribeiro Filho, Walter Foster, a Hebe - e chegou o (Assis) Chateaubriand dizendo "o que é isso? Vamos construir aqui a televisão". Há, bem no nosso campo de peteca! Era ali no Sumaré, e levaram dois anos construindo. Um ano depois da inauguração já havia mil aparelhos no País. Você é de uma infância com ou sem televisão? Com TV, totalmente televisiva. Eu sou de uma infância sem televisão. Acho que este tema daria uma bela matéria de trabalho para sociólogos, antropólogos e até mesmo jornalistas. Eu era muito pobre, sem televisão, sem rádio nem nada. Deveriam conversar com todos estes velhos como eu, que estão passando do rural para o urbano em apenas 40 anos. Eu levo isso para a TV: meus personagens têm um pé na roça, são meio rurais, meio urbanos. E, ao interpretar, é com essa gente que eu falo. Os que foram jovens comigo, que passaram tantas revoluções, viveram os anos 60. Essa década maravilhosa eu passei no Teatro de Arena. O senhor fez teatro depois de já consagrado na TV, um caminho incomum. Como foi? Em 1961, o Chico de Assis, Augusto Boal e o Gianfrancesco Guarnieri vieram até a Tupi falar comigo. O Teatro de Arena queria fazer uma revolução cultural. Me convidaram para uma peça chamada O Testamento do Cangaceiro e queriam uma interpretação brasileira. Essa foi a grandeza do Teatro de Arena: pôr o brasileiro em cena, porque o teatro da época não tinha isso. Foram dez anos na fronteira, na trincheira mesmo. Eles diziam todos os dias: "Esta noite vai morrer um em cena." E era uma arena, afinal! A gente interpretava olhando para o público e tentando adivinhar de onde viria o tiro. Não volta ao teatro?Não, não gosto. Já trabalho muito com televisão.Depois do Arena, o senhor dirigiu "Beto Rockfeller", a grande revolução das novelas. Foi uma conseqüência do seu trabalho no teatro? O Beto Rockfeller é um produto do teatro, onde eu aprendi a construir bem um personagem. Em 1968, resolvemos fazer uma novela absolutamente nova, com a experiência que eu tinha vivido no Arena. Mas não poderia ser rural porque não tínhamos condições de reproduzir o ambiente, nem equipamento para ir para a roça. Então, a idéia principal de Beto Rockfeller é a de um sujeito que nasceu na Rua Teodoro Sampaio e queria fazer a vida na Rua Augusta, uma rua de elite. Transpor aqueles cinco ou seis quarteirões era mudar de meio social, e dar a alma por isso. Era uma bela novela. As novelas se dividem antes e depois de Beto Rockfeller. Antes, era tudo "O Direito de Nascer" (1964), que eu dirigi também. E depois de "Beto", tudo virou "Beto". Quando o senhor é chamado pela Globo o senhor tem... Eu tenho muito prestígio e faço o que eu quero. Mas quando me chamam, geralmente vou. O cotidiano dos estúdios é infernal - egos, vaidades, gritos. É verdade que o senhor foi cotado para ser vice de Mário Covas, na eleição presidencial de 1990? Cotado? Não, fui convidado mesmo. Eu fazia "O Salvador da Pátria". Sassá Mutema é o meu personagem preferido. Não tinha história, tinha apenas um personagem e a trajetória dele - era a minha história. Ela foi planejada para terminar na sexta-feira que precedia a eleição de Domingo. De caso pensado? Sim, era o salvador da pátria. No meio da novela, a Globo começou a achar que era a história do Lula. Então, tivemos de mudar. Tive brigas homéricas. Era a história de um personagem que ia do nada ao entendimento. Quando estávamos gravando o último capítulo, os tucanos foram até o estúdio, me chamaram para uma reunião. Era um sábado, e estavam lá o José Serra, o Fernando Henrique Cardoso e o José Richa. O Richa disse que eu era o candidato. Não aceitei. Mas acho que a gente teria posto o Covas no segundo turno, não acha? Por que o senhor não foi pelo caminho da direção? Porque eu sou muito bom ator. Nunca me deixaram. O Dias Gomes me disse uma vez: "Não sei se prefiro você como diretor ou como ator. Mas faz o Zeca Diabo por enquanto." E o poder da direção não me seduz. Os elencos são montados na base da cupinchagem, e isso não é possível. É tão desagradável. Como ator, eu reino sobre mim. Como diretor, você tem de reinar sobre todos, e não quero.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.