Lima Barreto por ele mesmo

Reunião de textos do carioca ilumina o escritor - e reflete questões atuais

Vinicius Jatobá,

17 de agosto de 2012 | 20h00

Não surge da leitura de Lima Barreto: Uma Autobiografia Literária uma nova visão sobre o legado e a obra do escritor carioca, uma vez que o recorte do livro reafirma o lugar marginalizado que o autor ocupou durante boa parte de sua vida. No entanto, é o tipo de projeto que pode revitalizá-lo com os leitores: divertido, ágil, fluente. A montagem de trechos de cartas, diários, crônicas, romances e artigos que o pesquisador Antonio Arnoni Prado realiza é uma vitória graciosa na tentativa de construir a vida de um escritor usando suas próprias palavras. E mesmo temperada pelas necessárias notas iluminando referências históricas e culturais obscuras, a legibilidade do livro impressiona.

O Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) que salta do livro é o cronista reativo de seu tempo. Um dos elementos centrais em Lima é seu desconforto diante da cultura carioca - os jornais, as editoras, os críticos, os autores. Da preocupação em se afastar ao máximo de Machado de Assis, até incursões em polêmicas contra a revisão ortográfica imposta por gramáticos e a falta de senso crítico e engajamento que enxergava em colegas jornalistas, o que se vê em Lima Barreto é um intelectual preparado para comprar qualquer briga, sem qualquer trato político que lhe garantiria o espaço público que seu talento mereceu. Essa é a narrativa oculta do livro: como o autor de romances poderosíssimos terminou sua vida tão devastado?

Há, porém, pérolas do humor involuntário nessas páginas. Do uso de palavras estrangeiras à caricatura da ineficácia do funcionalismo público, das picuinhas de redação de jornal ao narcisismo do mundo literário, de suas lendárias birras contra o militarismo à descrição do caos da vida urbana, além de uma impagável crítica ao futebol, Lima Barreto... é um livro que também ajuda a jogar luz em certos traços do estado atual da cultura brasileira - provocando reflexão no leitor acerca de certas inusitadas correspondências.

LIMA BARRETO: UMA AUTOBIOGRAFIA LITERÁRIA

Organização: Antonio

Arnoni Prado

Editora: 34

(200 págs., R$ 39)

 
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