Lima Barreto, do sonho à literatura

Peça e debates recuperam a trajetória e os personagens do autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma

HELOISA ARUTH STURM / RIO, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2013 | 02h12

Literatura, racismo, loucura e marginalidade são escancarados diante da plateia no espetáculo Lima Barreto, ao Terceiro Dia, em cartaz no Teatro Dulcina, na Cinelândia. Questões sociais, preconceito e discriminação na então República nascente mostram o contexto onde surgiu o escritor, renegado em sua época e hoje objeto de estudo entre pesquisadores.

Escrito por Luis Alberto de Abreu e dirigido por Luiz Antonio Pilar, o espetáculo aborda a questão do negro no Brasil permeada por aspectos da vida e obra de Lima Barreto. "Enquanto a sociedade não vence um preconceito, isso é um elemento dramático para o teatro, o cinema ou a televisão. A sociedade brasileira ainda não venceu o preconceito racial, e isso está representado na obra dele", afirma o diretor.

O espetáculo, estruturado em três diferentes planos, narra três dias na vida do escritor em 1919, quando ele foi internado no manicômio por problemas de alcoolismo. O momento real, o da memória e o da imaginação se entrelaçam e provocam um embate entre o escritor já velho (Flavio Bauraqui), seu eu jovem (Nando Cunha) e Policarpo (Edgar Amorim), o célebre personagem da mais conhecida obra de Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma.

O sonho move o jovem Lima à criação literária, e o velho Lima, enfraquecido, defende a inutilidade da literatura no mundo, ao mesmo tempo em que seus personagens ficcionais ganham vida - dentre eles, Policarpo, que age questionando seu criador. "A discussão fundamental da peça, para não cair no eterno preconceito que o Lima é um cara que enlouqueceu, é a criação artística." São questionamentos que permanecem nos criadores por toda a carreira. "Como essa criação artística se dá, por que ela se dá e para quem? Para onde essa arte vai me levar?", questiona o diretor.

Relato. O texto, escrito em 1984, é de Luis Alberto de Abreu, responsável por criações inovadoras como Xica da Silva (1988) e o roteiro da microssérie Hoje É Dia de Maria, uma adaptação da obra de Carlos Alberto Soffredini. Para compor a peça, Abreu fez uma pesquisa extensa que incluiu romances e contos do escritor, além do impressionante relato sobre sua internação no Hospício Nacional dos Alienados, no Rio, em 1919, presente em Diário do Hospício, e da novela inacabada Cemitério dos Vivos, que traz o elemento ficcional dessa experiência da loucura, ambos publicados pela primeira vez postumamente, em 1953.

Um dos grandes trunfos do espetáculo é o elenco. "O Luís acaba escrevendo uma peça onde dez atores têm cada um o seu momento de brilhar. Isso faz com que o espetáculo ganhe uma projeção e uma importância maior do que qualquer nome. E o elenco, de uma forma generosa, entendeu isso muito bem", diz Pilar. Isso acontece porque a encenação, estruturada nesses diferentes planos, permite grande movimentação no palco e espaço para as memoráveis atuações de todos, especialmente Bauraqui, Paulo Mathias Jr. e Cristiane Amorim. Há momentos de tanta ação e força no palco, que você desejaria ter um par a mais de olhos.

"Isso é fruto do resultado da dramaturgia do Abreu. Além da excelência do diálogo e do conceito, tem essa boa distribuição", diz Pilar. Abreu afirma sentir muito apreço pela personagem Ismênia (Clara Nery), que ele fez questão de manter completamente deslocada em cena, de maneira proposital.

Às sextas-feiras, antes do início do espetáculo, há uma breve palestra de cerca de 15 minutos com estudiosos de Lima e da cidade. A ideia é contextualizar o autor em diálogo com o Rio de Janeiro, trazendo um intelectual ligado às manifestações culturais populares. São nomes como o historiador Joel Rufino dos Santos, professor aposentado de Literatura da UFRJ, e a pesquisadora Marília Trindade Barbosa, especialista em Música Popular Brasileira. É espaço para a reflexão não só do papel de Lima Barreto, mas do papel do negro no Brasil.

Cinema. Pilar critica o espaço dado à representação do negro nas artes cênicas. "Geralmente não se vê nada que resvala no humor. É sempre no sofrimento ou na marginalidade, ou na luta para se chegar a algum lugar. Nossas questões são sempre vilipendiadas ou subestimadas, e isso não reflete o espírito real." O diretor se incumbe então de preencher essa lacuna - o riso e o choro na plateia se intercalam ao longo de toda a apresentação.

Ele tem planos de levar a história de Lima Barreto para o cinema. "A biografia de Barbosa é um roteiro pronto", afirma, referindo-se à obra A Vida de Lima Barreto, do imortal Francisco de Assis Barbosa, publicada em 1952. Tanto o dramaturgo quanto o diretor se encantaram com o escritor ainda na juventude, quando leram o romance mais conhecido do autor.

Abreu decidiu escrever uma peça sobre Lima Barreto depois de ler também a biografia de Barbosa. "Temos uma dívida profunda com Lima Barreto. Ele foi um escritor importante, um intelectual extremamente avançado para a época, um pensador que olhava para as questões de racismo e desenvolvimento num País que surgia ali como república nascente. Mas foi engolido pela época dele e pelo Brasil parnasiano."

A peça, que fica em cartaz até o dia 30 de junho, está sendo montada no Rio pela segunda vez. A primeira montagem foi na década de 1990, pelas mãos do diretor Aderbal Freire-Filho, com o ator Milton Gonçalves no elenco. O público ainda não teve a oportunidade de ver o espetáculo em São Paulo. Mas se depender de Pilar, não por muito tempo. É possível que Lima Barreto e Policarpo cheguem aos palcos do Centro Cultural Banco do Brasil na capital paulista ainda neste ano.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.