Lilliput em São Paulo

Representante uruguaio na 56.ª Bienal de Veneza, em cartaz até o dia 22, Marco Maggi traz para São Paulo um pouco do que ele exibe na mostra italiana, desde ontem, 14, na Galeria Nara Roesler. E esse pouco é um mundo liliputiano, delicado, que contrasta com o gigantismo gulliveriano da arte contemporânea. Na exposição Uma Frase com Três Cantos, como indica o título, está embutido o conceito de uma retórica impossível, algo surrealista, em que padrões lineares sugerem circuitos de computador, vistas aéreas de cidades, diagramas do sistema nervoso ou fragmentos de um mapeamento genético. Tudo menos a retórica verbal, o que seria natural em se tratando do filho de dois conceituados escritores uruguaios, María Inés Silva Vila (1926-1991) e Carlos Maggi (1922-2015).

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2015 | 02h04

Criado em ambiente literário - por sua casa circulavam autores como Felisberto Hernández -, Marco Maggi parecia, enfim, destinado à literatura. E, de certo modo, as pequenas figuras que formam esse mundo intimista do artista evocam uma narrativa verbal, um vínculo com a linguagem literária, ainda que sem o compromisso da lógica. Não há mensagens cifradas nessa "frase com três cantos" de Maggi. Há, sim, a exemplo de sua instalação 'site specific' da Bienal de Veneza, uma linguagem abstrata que desafia o espectador a fazer associações de caráter subjetivo, não necessariamente sintonizadas com a sintaxe do autor.

Escanear esses trabalhos é trabalho para um míope, disposto a penetrar nessa dimensão microscópica para ver o macrocosmo. Tanto que a instalação na mostra italiana, feita com pequenos pedaços de papel, lápis e varetas, chama-se, apropriadamente, Global Myopia (Miopia Global). Não se trata de uma crítica à incapacidade de ver mais adiante, como se supõe, mas o contrário. Maggi convida a olhar o que está próximo. "Em Veneza, as pessoas entram na sala e, aparentemente, sentem-se logradas por estar num ambiente branco, achando que se trata de uma brincadeira conceitual", diz o artista, referindo-se à discreta presença material daqueles desenhos singelos, feitos de fragmentos de papel, na exposição - mostra que caberia toda numa mala de mão.

Os circuitos de Maggi evocam os da artista venezuelana (de origem alemã) Gego (1912-1994) - em particular sua série Reticulárea, sua obra mais popular, rede de peças modulares de aço que se expande pelo ambiente. Numa das paredes da Galeria Nara Roesler, Maggi lida com a mesma questão de Gego, a da obra que revela o espaço circundante, convidando o observador a acompanhar o desenho das cordas tensionadas por um conjunto de lápis fixado perpendicularmente à parede.

Maggi confirma esse interesse pelo trabalho de Gego, acrescentando que, a exemplo dela, o que pretende, ao intervir no espaço expositivo, é criar uma outra realidade espacial. Não um espaço negativo carregado de metáforas e alegorias, como se vê nas instalações contemporâneas, mas um espaço que convide o espectador à contemplação, ao exercício de se adaptar a um desenho de dimensão diminuta para ver melhor. "Não sou pessimista nem acho que estejamos à beira do apocalipse", admite, o que justifica sua aproximação com a vanguarda suprematista do começo do século passado - notadamente Malevitch - comprometida com a construção de um mundo novo pela arte.

Quando usa a cor, Maggi o faz com parcimônia, como na "escada" cromática de cinco metros de altura feita de papel Fanfold branco. Contra a parede branca, ela desaparece, como nas melhores obras do suprematismo malevitchiano, deixando apenas os degraus pintados (com cores primárias ou preto) à vista, provocando um efeito intrigante ao tornar obscura a estrutura da escada. Esse senso de humor refinado dialoga com o de seu amigo brasileiro, o escultor Waltercio Caldas, que está com uma mostra no Instituto de Arte Contemporânea e mantém forte vínculo com a tradição, adensando sua relação com a história da arte.

Maggi diz que as pequenas estruturas geométricas recortadas no papel não são signos indecifráveis. "Quero tentar a alta indefinição", sintetiza. "O que me interessa é o espaço entre as palavras, muito mais que a semântica." Isso significa que os recortes de papel, ao formar um desenho diminuto, conduzem à fronteira do visível para que o olho transcenda. Como na Reticulárea de Gego, o uso da repetição leva o espectador a perceber as peças como obras sem fim. É uma visão epifânica que contrasta com a visão ordinária das obras caracterizadas pela monumentalidade presentes em bienais. Maggi esteve nas maiores (a Bienal de São Paulo, em 2002) e entrou nos museus mais importantes (MoMA, Whitney, Guggenheim) sem precisar aumentar a escala. "O que me interessa é uma intimidade objetiva, criar um espaço que permita o diálogo, que é difícil numa escala em que alguém se sinta pequeno."

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