Lilian Pacce lança livro sobre história da moda

A estilista inglesa Vivienne Westwood não vem para o lançamento, mas seu recado está logo no prefácio que escreveu especialmente para o livro Pelo Mundo da Moda - Criadores, Grifes e Modelos (Editora Senac, 520 págs., R$ 75), que a crítica de moda do jornal O Estado de S. Paulo, Lilian Pacce, lança nesta quarta-feira, em São Paulo. A mulher que inventou o visual punk do grupo Sex Pistols conheceu Lilian em 1991, quando veio ao Brasil fazer um desfile. Lembra que, como ela, a jornalista brasileira triunfou no mundo da moda - conduzido pelas duras leis do mercado - justamente por conseguir impor seu estilo. Não por outra razão, a seleção dos estilistas que entraram no livro parece ditada justamente pelo culto a personalidades que, antes de uma dócil submissão a grandes conglomerados, resolveram criar elas mesmas suas grifes pessoais e intransferíveis. Lilian, que também faz cobertura de moda para o canal a cabo GNT, já começa o livro com uma revolucionária da moda, a francesa Coco Chanel, que morreu há 35 anos e ainda mantém seu espírito circulando em ambientes sofisticados, seja pelo pretinho básico (que, segundo Lilian, acabou virando a salvação de qualquer mulher elegante) ou por seu perfume Chanel nº 5, aquele que Marilyn Monroe usava para dormir no lugar da camisola. Conhecer os aposentos de mademoiselle Chanel na rue Cambon, em Paris, há dez anos, foi apenas uma das conquistas de Lilian como jornalista, hoje reconhecida por grandes estilistas na capital francesa graças à cobertura da Semana de Moda para o Estado e o GNT Fashion. Não foi fácil conquistar esse espaço. A internacionalização da moda nas duas últimas décadas fez aumentar a concorrência entre estilistas e metrópoles, que disputam com Paris a primazia de revelar novos talentos. É preciso ter vocação visionária para reconhecer um deles. Lilian, antes de lançar seu livro que reúne artigos e entrevistas publicados nos últimos 20 anos, assinou, por exemplo, o volumoso tomo dedicado ao paulista Alexandre Herchcovitch pela editora Cosac Naify, ele que hoje é considerado o mais talentoso entre os estilistas da nova geração. Para ser justa com todos os outros estilistas brasileiros, Lilian não incluiu nenhum em seu livro. Apenas estrangeiros e modelos brasileiras que triunfaram nas passarelas lá fora. "Elas fazem a conexão com os grande estilistas, estabelecem esse vínculo entre o Brasil e o mundo da moda", justifica. Há duas exceções entre os criadores brasileiros, ainda assim porque assumiram a direção criativa de conhecidas grifes estrangeiras: os mineiros Inácio Ribeiro, elevado a essa condição há seis anos na Cacharel francesa, e Francisco Costa, contratado há três anos pela grife norte-americana Calvin Klein. Jovens estilistas A nova geração de estilistas ganha generoso espaço no livro da crítica. O belga Olivier Theyskens, de 29 anos, é um deles. Theyskens vestiu Madonna para a festa do Oscar em 1998 e foi chamado para ressuscitar a Maison Rochas em 2002. O talento de Theyskens não foi suficiente para dar sobrevida à divisão de moda da tradicional maison criada por Marcel Rochas. O livro já estava no prelo quando a Proctor & Gamble resolveu fechá-la, mantendo apenas a divisão de perfumes. Mas Theyskens não ficou desempregado. Em março, ele volta à tona apresentando sua nova coleção como diretor artístico da grife Nina Ricci. Outro representante da nova geração chamado por uma grife tradicional para renovar seu visual é o norte-americano Marc Jacobs, entrevistado por Lilian no GNT Fashion há exatamente dois anos. Quando a Louis Vuitton decidiu diversificar sua linha de produtos, abrindo-se para roupas prêt-à-porter, chamou Jacobs (em 1997). O rapper, que aprendeu a tricotar com a mãe e teve sua fase grunge, levou para o mundo da moda a cultura das ruas, chamando colaboradores como o grafiteiro Steven Sprouse. "São esses jovens estilistas como Theyskens e Jacobs, atentos à moda que interessa aos adolescentes, os grandes responsáveis por sua renovação", diz Lilian, observando que, a despeito da globalização, os jovens estão cada vez mais resistentes a padrões, interessados em imprimir sua marca pessoal também no vestuário. O livro, porém, não fala apenas de jovens estilistas. Há entrevistas com veteranos como Pierre Cardin - comentando justamente o trânsito entre a alta cultura e a alta costura - e Valentino. Nessa primeira parte (o livro é divido em três) desfilam ainda estilistas como o neobarroco francês Christian Lacroix, o tunisiano Azzedine Alaïa ("ele tem um cozinheiro africano divino"), o alemão Karl Lagerfeld e o inglês Alexander McQueen ("ele está sempre desafiando padrões"), entre outros. Glamour A terceira parte fala das mulheres que usam seus modelos começando pela veterana top model Dalma Callado, a brasileira que já pisou mais de 2.500 vezes numa passarela, a última delas justamente para mostrar um modelo da maison Chanel desenhado por Lagerfeld. Há também uma entrevista com Gisele Bündchen quando a top começava a carreira, além de perfis de Shirley Mallmann, Kate Moss e Naomi Campbell. O texto que deve despertar maior discussão, no entanto, é o último, publicado há nove anos no jornal O Estado de S. Paulo. Ele relata um episódio trágico, a morte do fotógrafo de moda napolitano Davide Sorrenti, aos 21 anos, de overdose. Lilian analisa a glamourização do vício pelo mundo fashion para vender roupas. Felizmente, segundo ela, essa estética, que copiava Nan Goldin, já saiu de moda. A onda, agora, é ser saudável. Tanto que Lilian lança, no próximo ano, seu livro sobre biquínis. Pelo Mundo da Moda. De Lilian Pacce. Editora Senac. Surface to Air Loja. Al. Lorena, 1.989, 3063-4206. Hoje, 19 h

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