Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Lilia Schwarcz investiga o lado republicano da tela de Pedro Américo

Livro da pesquisadora chega à segunda edição um mês após seu lançamento

Antonio Gonçalves Filho , O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2013 | 22h58

Pinturas históricas quase sempre provocam discussões por seu conteúdo narrativo ou ideológico. No caso da monumental tela A Batalha do Avaí, do paraibano Pedro Américo (1843-1905), no acervo do Museu Nacional de Belas Artes, foram ambos os motivos que causaram reações negativas de quem encomendou a obra ou figurou no centro dela – respectivamente, o imperador Pedro II e o Duque de Caxias. Pintada em Florença entre os anos 1874 e 1877, a tela, do tamanho de um kitchenette (50 metros quadrados), é analisada pela historiadora Lilia Moritz Schwarcz e dois de seus orientandos (Lúcia Klück Stumpf e Carlos Lima Junior) no luxuoso livro A Batalha do Avaí, da Sextante Artes, que, para surpresa até da autora, chega à segunda edição um mês após seu lançamento.

O subtítulo do livro – A Beleza da Barbárie – destaca na capa a ambiguidade desse quadro histórico que deveria celebrar a Dezembrada, fase final da guerra da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) contra o Paraguai, em dezembro de 1868. O acadêmico Pedro Américo, que o imperador mandara estudar na Europa com uma bolsa, tenta agradar seu mecenas homônimo, à beira do ocaso, enaltecendo a grande guerra que consumiu todos os recursos do tesouro entre 1864 e 1870. De um lado, soldados fardados defendendo a “civilização”. De outro, os “bárbaros” paraguaios, retratados quase despidos, descalços e com patuás ao redor do pescoço. Redução a estereótipo era com Pedro Américo mesmo, pintor que, aliás, estudou Ciências Sociais na Sorbonne.

Porém, mesmo financiado pelo Império, ele não deixou de ouvir ecos da campanha contra a Coroa que fortaleceu o Exército e conduziu o Brasil à República dos militares. Vale lembrar que o pintor, na própria Batalha do Avaí, pinta a si mesmo como um soldado com expressão de horror e uma cabeça ao lado esquerdo do quadro em tudo semelhante à decepada de Tiradentes Esquartejado, tela realizada em 1893, quatro anos depois da proclamação da República. Um vira-casaca? Lilia Schwarcz compara Pedro Américo ao neoclássico Jacques-Louis David (1748-1825), que apoiou a Revolução Francesa, pintou seus líderes e depois se bandeou para o time do vitorioso Napoleão.

 

Outras comparações – desta vez francamente desfavoráveis ao acadêmico – foram feitas por críticos de sua pintura, que viram tanto em A Batalha do Avaí como em Independência ou Morte (1888) dois descarados plágios dos pintores Andrea Appiani e Ernest Meissonier, respectivamente. O cavalo de Caxias pintado por Pedro Américo seria o de Napoleão num quadro de Appiani (1754-1817). Já de Meissonier (1815-1891), ele resolveu copiar a cena inteira de A Batalha de Friedeland (1875) pintada pelo francês, em que este também retrata Napoleão, figura polivalente que tanto serve de modelo para Américo pintar Caxias como D. Pedro I, este dando o grito de independência às margens do Ipiranga.

Enfim, plágio em pintura não era exatamente incomum no século 19, quando os pintores estudavam na Europa às custas da famosa “bolsinha” de D. Pedro II. Não é, porém, o propósito do livro – concebido por Victor Burton, também designer gráfico do projeto – avaliar afinidades estéticas, mas identificar nos personagens da tela de Pedro Américo sinais ideológicos de manipulação da batalha do Avaí. Lilia Schwarcz diz que o pintor “politizou” a tela, ao retratar os “ordeiros” militares brasileiros contra os “bárbaros” paraguaios.

A historiadora diz que o Império não poupou esforços para registrar a batalha que aniquilou a resistência paraguaia às margens do riacho Avahy, mas que a encomenda, afinal, não serviu bem ao propósito propagandístico do imperador. “O quadro foi visto como republicano”, conta Lilia. “Mas é uma tela ambivalente, eu diria”. Duque de Caxias, o principal comandante na Guerra da Tríplice Aliança, ficou horrorizado quando viu sua farda desabotoada na tela, comentando que nem em seu quarto o pintor o veria desse modo – e ele enviou pelo correio uniformes militares para servir de inspiração a Pedro Américo, que preferiu copiar outro modelo, uma litografia de Gustave Doré retratando a batalha de Montebello (o brasileiro só mudou a cor dos cavalos).

O pintor, segundo a historiadora, ciente da popularidade do general Osório, preferiu colocar o defensor dos ideais republicanos em destaque na tela, dando ordens de avanço à tropa, enquanto o sangue jorra de sua boca (ele foi ferido no maxilar). Américo, copiando uma tela de Delaroche (em que Carlos Magno cruza os Alpes), teria idealizado a figura do herói popular, colocando-o em evidência ao eliminar do entorno outras figuras?

“O fato é que o contraste maior nem é o de Caxias e Osório, mas entre as tropas, pois a brasileira tem uniformes garbosos, enquanto os paraguaios são retratados com torso nu ou vestidos com farrapos, como para justificar o objetivo do Império de mostrar que aquela era uma guerra civilizatória contra os bárbaros.” Muitos consideraram o quadro violento demais, a ponto de Ângelo Agostini, caricaturista do Império, publicar uma charge com os furiosos soldados de A Batalha do Avaí invadindo a pacata tela em que Vitor Meireles retrata A Batalha de Guararapes – sem nenhuma ação e hoje, curiosamente, exposta ao lado de Pedro Américo no Museu Nacional de Belas Artes.

BATALHA DO AVAÍ - A BELEZA DA BARBÁRIE

Autores: Lilia Moritz Schwarcz com Lúcia Klück Stumpf e Carlos Lima Júnior.

Editora: Sextante (174 págs. R$ 150)

 

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