Lília Cabral em mais uma comédia hilariante

Uma mulher esquecida na prateleira, tal qual um produto velho. Que "causa congestionamento no céu de tanta promessa que faz para arranjar um marido". Tenta desde a adolescência, e nada, segue solteirona. E virgem. À beira dos 50 anos. Essa é Maria do Caritó, a nova personagem de Lilia Cabral, que enternece e faz rir no palco do Teatro das Artes, no Rio.

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2010 | 00h00

A estrela da peça é considerada uma das maiores atrizes brasileiras em atividade; o autor é Newton Moreno e o diretor, João Fonseca, ambos premiados; as críticas, positivas, ressaltam o alto nível da trupe que transita pelo universo de Maria (Leopoldo Pacheco, Silvia Poggeti, Dani Barros, Fernando Neves, todos em mais de um personagem, o galanteador, o coronel, a cúmplice, a mãe, a aproveitadora, o pai).

Resultado: os ingressos somem da bilheteria, tal qual água no sertão nordestino, onde a narrativa se situa. Nada que tire do lugar a cabeça de Lilia, também produtora do espetáculo. "Podem pensar que cheguei a um estágio em que ninguém vai falar mal de mim, porque venho de um espetáculo que ficou três anos em cartaz, mas não é nada disso", revela a atriz, referindo-se a Divã, peça que virou filme e será série da TV Globo. "Se fosse assim, perderia o sentido."

O texto, terceiro de Moreno encenado no Rio, foi escrito para Lilia, que capricha no sotaque nordestino. Caritó é a prateleira no alto das paredes das casas sertanejas que contém objetos que devem ficar longe das crianças. Apesar de debochada e desafiar o pai opressor a todo momento, Maria do Caritó é inatingível para os humanos, por ter sido prometida a um santo que não existe.

Ganhou status de santa, mas o rejeita: tudo o que queria era apagar "o fogareiro debaixo da saia" com um homem que nunca chega. É por um bom marido que ela clama, mas quem acaba cruzando seu caminho é um aproveitador. "Ela é como o povo brasileiro", "ingênua, acredita em tudo, nunca perde a fé", parece a Cabíria de Fellini, compara João Fonseca. O público torce por Maria, quer que encontre um amor verdadeiro, e teme por ela, quer protegê-la dos perigos do mundo.

Lilia sabe que sua exposição na TV e no cinema chama público, mas prefere não se deitar na cama do sucesso, feita ao longo de 30 novelas, 6 filmes e 15 peças de teatro. "Estamos fazendo teatro puro. É uma história lúdica e os sentimentos são próximos do público. Nós crescemos acompanhando essa cultura popular. Gosto dessa carpintaria, de pegar a madeira e transformá-la numa cômoda. É muito diferente de TV e cinema: a cabeça trabalha o tempo inteiro."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.