Lígia Cortez contracena com o pai

Intérprete de Regane, a atriz Lígia Cortez vive uma situação muito especial na montagem de Rei Lear. Contracena com o pai, interpretando o papel de uma filha crudelíssima. Uma dessas magias do teatro propiciou esse encontro.Diretora do Teatro Escola Célia Helena - filha do ator Raul Cortez e da atriz Célia Helena -, Lígia convidou Ron Daniels para dirigir uma oficina na escola. Ron aproveitou para revisitar o Teatro Oficina, onde iniciou sua carreira e acompanhou alguns ensaios de Cacilda!, espetáculo no qual Lígia teve uma participação brilhante.No Oficina, Ron reecontrou Raul Cortez e ali nasceu o compromisso para a direção de Rei Lear, que se concretizaria dois anos depois. A iniciativa de Lígia acabou resultando num presente para o pai e, agora, como intérprete de Regane, também para si mesma, presente conquistado nos ensaios de Cacilda!.O duplo embate pai e filha não assusta Lígia. "Não influencia em nada e ao mesmo tempo influencia em tudo", argumenta. "Tem um lado muito gostoso, de cumplicidade, mas ao mesmo tempo a relação é tão diferente; digo e faço coisas com Lear que jamais faria ao meu pai." E, certamente, a ninguém. Afinal, Regane manda arrancar os olhos do bom Glócester que tenta defender Lear e, espada em punho, ainda mata pelas costas um servo. "É uma cena terrível, não consegui ir até o fim na primeira vez que a ensaiamos", conta.Nos ensaios, a força da ficção supera tudo. O embate é entre personagens e Lígia, antes de mais nada, contracena com um grande ator. "Quando eu o rejeito, o sofrimento em seu olhar é tão intenso que chego a pensar: Meu Deus, eu não posso", afirma a atriz. "Ele está tão bom que às vezes a gente fica assistindo mesmo."A tendência, numa primeira leitura de Lear, é não diferenciar Regane e Goneril, as duas filhas malvadas. "Regane é mais feminina que Goneril e, ao contrário da irmã, ama o marido e não tem a mesma sede de poder", diz. "Ou parece não ter, porque na verdade ela é sonsa; ela é a filha do meio e elas costumam ser sonsas", brinca.Engana-se quem pensa que, por ser filha de atores, a carreira de Lígia estava traçada desde sempre. "Na infância e na adolescência eu rejeitei o teatro", conta. "Eu via minha mãe saindo de noite, com chuva; era uma vida muito dura." Mas um espetáculo - Pano de Boca, de Fauzi Arap - mudou sua visão. "O teatro era tema da peça e mostrava o envolvimento do artista de forma tão bonita, com tal visceralidade que eu pensei: isso eu quero!"

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