Ligado no mundo de chuteiras

Como escapar da Copa do Mundo? Não escapando dela, ora. Inevitável e cada vez mais onipresente, com ela há nove dias nos deitamos e levantamos, ardendo em febre: a febre do futebol diagnosticada e estudada por Nick Hornby, conterrâneo dos inventores do outrora chamado "violento esporte bretão". Bola pra frente, portanto.

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

Driblando o óbvio, não lamentarei aqui as parcas relações da nossa literatura com o futebol, nem repisarei os disparates que dois craques da ficção nacional, Graciliano Ramos e Lima Barreto, cometeram contra o "violento esporte bretão". Tampouco evocarei o entusiasmo pelo futebol de Olavo Bilac, José Lins do Rego e outras estrelas literárias da "pátria de chuteiras". Falarei da reação dos gringos ao soccer; e a menção da palavra soccer já identifica os gringos a que me refiro, os únicos que reservam a expressão football para uma modalidade de esporte estranhamente praticada mais com as mão do que com os pés.

Há três Mundiais que acompanho pela internet a cobertura que os americanos dão ao evento. Um tanto por curiosidade, outro tanto pelo prazer de acompanhar jornalistas e intelectuais digladiando-se contra e a favor do verdadeiro futebol. Esse embate é um dos mais interessantes do que lá chamam de "guerras culturais", com sofisticados, liberais, cosmopolitas e internacionalistas de um lado e conservadores, provincianos e jacobinos na trincheira oposta.

De quatro em quatro anos, a blitzkrieg do soccer se intensifica. Claro que a Copa de 1994 e a participação da equipe dos Estados Unidos nos últimos Mundiais ajudaram um bocado a promovê-lo, mas o crescente interesse pelo futebol na terra do beisebol se deve, acima de tudo, à também crescente miscigenação da sociedade norte-americana e ao empenho da geração baby boomer em "abrir-se para o mundo", em romper com o provincianismo soberbo de seus antepassados e os preconceitos da América casca-grossa.

Esses sempre desprezaram e demonizaram o futebol como um esporte bárbaro, estrangeiro (Graciliano Ramos também pegou por aí), passatempo de gentinha ("quanto mais patético um país, maior o fanatismo de seus habitantes pelo futebol", sentenciou uma famosa colunista política americana, na Copa de 2006), jogo sem emoção e gratificação instantânea, com escores parcimoniosos, que nem sempre premiam a melhor equipe em campo.

Sem emoção, mas de appeal universal, razão pela qual, aliás, os americanos investiram pesado na cobertura da Copa da África. Provinciano é o beisebol, o football (o rúgbi americanizado). Também são parcimoniosos os escores do hóquei no gelo.

"A indiferença dos Estados Unidos pelo futebol há muito é motivo de intensa desconfiança mundial", alfinetou o ex-secretário de Estado Henry Kissinger numa conversa com o analista de política internacional Roger Cohen, no New York Times de terça-feira. Gostar de futebol é a única virtude do Kissinger. Embora pudesse ter ouvido boleiro mais respeitável, Cohen, também fã do esporte das multidões, prestou um bom serviço à causa, com observações procedentes sobre a ignorância e a insularidade dos americanos, cujo otimismo seria incompatível com o fatalismo do futebol ? a mais lúdica expressão de culturas com "uma visão trágica do universo", segundo outro escriba do Times.

A Copa deste ano foi capa em diversas publicações americanas de primeira linha, motivou a criação de uma seção especial dedicada ao soccer no portal do New York Times e mobilizou seus comentaristas (além de Cohen, David Brooks e Gail Collins fizeram um tête-à-tête sobre futebol). Mas divertido, mesmo, é seguir os posts diários da revista The New Republic, sob o comando de Leon Krause, americano nascido no México, filho do historiador Enrique Krauze e irmão do romancista Daniel Krauze, um dos baluartes do site literário Letras Libres.

Além de editar os artigos do Goal Post, frequentemente premiado com pautas de prazerosa leitura (sobre os malefícios da vuvuzela, a evangelização dos jogadores brasileiros, a relevância de Richard Wagner para o futebol), Krauze fez uma análise precisa sobre a germanização da seleção brasileira na era Dunga e o abrasileiramento da atual seleção alemã, fruto do melting-pot em que se transformou o futebol teutônico nos últimos anos, com jogadores de origem tunisiana, polonesa, espanhola, bosniana e até brasileira.

Também desovam posts no site o escritor bósnio Aleksandar Hemon (radicado nos Estados Unidos e com três romances publicados pela Rocco); o romancista israelense Etgar Keret, o peruano Daniel Alarcón, além do editor da The New Republic Franklin Foer, irmão de Jonathan Safran Foer (autor de Tudo se Ilumina) e que os brasileiros conhecem por um título fundamental da bibliografia futebolística, Como o Futebol Explica o Mundo, traduzido pela Zahar em 2005.

Hemon, cuja maior tristeza é saber que o ser humano não vive, em média, mais do que 20 Copas do Mundo, estreou no site com um artigo sobre Dunga, Diego (Maradona) e o Destino. Só não é mais presente no Goal Post do que Krauze, Foer e o versátil escocês Alex Massie, que, até por admirar muito o nosso futebol, decidiu torcer pela Espanha. Frasista emérito, Massie abriu seu post de quinta-feira com esta provocação: "Ok, aqui vai um adendo à Guerra do Futebol. A verdade é uma só: o futebol venceu." Na América, queria dizer. Pois na África, cá entre nós, ficou devendo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.