Líderes e seus limites

Esperei deliberadamente a visita de Barack Obama ao Brasil para ler a extensa biografia escrita por David Remnick, excelente repórter e editor da revista The New Yorker, biógrafo também de Muhammad Ali. Fiz muito bem, porque o Obama que esteve no Brasil é o que aparece apenas em alguns momentos do livro, um Zelig mais interessado em dizer o que o público quer ouvir. Seus discursos, apesar de um detalhe chamativo aqui, outro ali (como a menção ao grande Jorge Ben), foram clichês para agradar à plateia. Não que o da presidente Dilma Rousseff tenha sido melhor; ao contrário, já que pouco falou da aproximação cultural entre os países e da singular história do visitante; mas, enfim, ele veio até aqui e deveria dizer coisas mais produtivas ou novas. Lendo a biografia, nos irritamos com algumas dessas suas estudadas hesitações.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2011 | 00h00

É fato que visitas assim não passam de gestos simbólicos, que os grandes acordos comerciais não são assinados num passeio de fim de semana. Só mesmo os ingênuos supunham que Obama fosse divulgar apoio oficial à pretensão brasileira de um assento no Conselho de Segurança da ONU ou então a derrubada de barreiras comerciais. Mesmo em regimes presidencialistas, os políticos eleitos para o cargo mais alto mandam bem menos do que as pessoas comuns pensam (para o mal ou para o bem, como Lula transferindo para os outros as principais decisões de política econômica). Os EUA estão de olho em commodities daqui, como o petróleo ainda potencial (se o pré-sal de fato render mais de 3 milhões de barris até 2030, como anunciado), e sabem que a China tomou seu lugar como maior parceiro comercial do Brasil e tem aproveitado oportunidades de infraestrutura como no porto Suape. Cabe ao Brasil agora chegar com um tratado em Washington e concretizar tudo isso.

O que Remnick mostra é um sujeito tolerante e muito qualificado, que um dia quis ser jogador de basquete e depois contista, mas que só quando era aluno em Harvard se descobriu político, transitando entre comunidades carentes e a alta sociedade de Chicago. Ele destoou do movimento negro radical, inclusive criticando a política de cotas quando substitutivas do mérito, e, ao mesmo tempo, jamais deixou de ser democrata por princípio: é a favor de aborto, união gay, ensino secular; usou drogas e confessa; e, também ao contrário do casal Clinton, não apoiou a Guerra do Iraque. Nesse sentido, é o oposto de um Zelig, pois ninguém consegue enquadrá-lo em lugar nenhum. Como presidente, tem cumprido promessas como na pesquisa da célula-tronco, na reforma do sistema de saúde, na crítica ao mercado financeiro, etc. A popularidade está baixa por causa da crise econômica, mas sua culpa é ínfima.

A rede mental. Escuto comentaristas apoiando a abstenção do Brasil e companheiros do Bric a respeito da intervenção na Líbia, que a ONU aprovou e depois a Otan. Argumentam que o país está em guerra civil, ou seja, vivendo um problema interno, e que apoiar os rebeldes não necessariamente vai fazer o país ficar melhor, já que corre o risco de se desunir territorialmente. E falam na morte de civis, que poderia ser maior com a intervenção. Eu me pergunto em que mundo essas pessoas vivem. Justamente por ser um problema antes de mais nada interno, que surgiu quando uma parte considerável do povo líbio mostrou seu descontentamento com uma ditadura de 40 anos, é que não se pode ficar omisso esperando que Kadafi continue esmagando o movimento. Apoiando os rebeldes agora, abre-se caminho para tê-los próximos depois, caso vençam; se vencerem sem intervenção externa, aí, sim, se julgarão no direito de fazer um governo fechado, antiocidental. Quanto aos civis, eles já estão sofrendo muito, pois Kadafi não tem a menor preocupação nesse sentido.

Não dá, em outras palavras, para defender um mundo mais democrático e aberto e achar que não se deve fazer nada quando a violência sobe. Desconfio que só agora tem gente descobrindo o que é a Líbia... Com Kadafi, só pode ser pior; sem ele, pode haver uma chance.

Cadernos do cinema. O filme Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami, é encomendado para que os críticos profissionais exaltem e os espectadores comuns durmam: diálogos intelectualizados, tempos lentos, dúvida entre o que é real e imaginado, etc. Um ensaísta de arte inglês (William Shimell) e uma dona de antiquário francesa (Juliette Binoche) se encontram na Toscana, aparentemente pela primeira vez, e saem para um passeio. Ele defende a tese de que não importa se uma obra de arte é original ou copiada e ela parece interessada na tese, até que, tomando um café em Lucignano, eles parecem assumir a identidade de um casal em crise. Sim, o argumento também parece bom. Mas não passa de ideia, não se desenvolve; a partir da metade, o roteiro já esgotou sua energia.

Críticos apontaram a alusão óbvia a Viagem à Itália, de Rossellini, mas isso só piora as coisas: não há vestígio da perturbação erótica que a personagem de Ingrid Bergman sente em meio à arte italiana e passa quase despercebida ao marido (George Sanders). A aparente inteligência da dupla, assim como o humor que a cena do filho no começo sugere, desaparece à medida que ela vai ficando mais instável e irritante e tudo que ele passa a dizer é "cada um tem sua vida". Kiarostami copiou mal o original de Rossellini.

Mea-culpa. Correção da semana passada: o título original do filme Em Um Mundo Melhor é "vingança". Tudo a ver...

Uma lágrima (de diamante). Começo por uma confissão: embora achasse que Elizabeth Taylor - morta na quarta aos 79 anos - foi linda em seu apogeu, como em Gata em Teto de Zinco Quente, jamais a listei entre as mais belas do cinema (Rita Hayworth, Grace Kelly, Ava Gardner, Ingrid Bergman, Catherine Deneuve, Isabelle Adjani, Catherine Zeta-Jones, etc). Me parecia uma mulher chata, sempre prestes a atirar um vaso na cabeça do companheiro (como Vivien Leigh, mas mais bonita, com seus tais olhos violetas). Fez, porém, uma carreira que merece toda reverência: filmes como Um Lugar ao Sol, Assim Caminha a Humanidade, De Repente, no Último Verão, O Pecado de Todos Nós...

Sempre atuando com presença física e controle cênico, uma mistura que era equivalente à dos grandes atores de sua geração como Montgomery Clift e Paul Newman - geração que levou o drama para o cinema sem fazer teatro filmado -, Liz era uma celebridade e uma atriz, combinação hoje também rara. Colecionava diamantes e maridos, e foram os diamantes que se casaram melhor com sua figura. Seu magnetismo era tal que nunca mais foi possível dissociar a imagem de Cleópatra de sua imagem no filme, ainda que os historiadores digam que a rainha egípcia foi tão diferente no aspecto físico.

Mas seu máximo como atriz foi em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de 1966, quando já começava a perder a beleza e atuou ao lado do marido, Richard Burton, lendário ator shakespeariano, e talvez por isso um tenha feito o outro chegar a camadas de interpretação aonde não haviam chegado até então, principalmente ele a ela, por meio dos densos diálogos de Edward Albee. Foi então que perdi o medo, ou melhor, a antipatia por Liz, pois sem sua intensidade nada disso teria sido possível. A estrela se foi; o brilho ficou.

Por que não me ufano (1). Algumas das melhores palavras não resistem ao desgaste e à distorção. Ética, por exemplo. Recentemente o técnico Muricy Ramalho deixou o Fluminense por uma série de fatores, como a mudança de equipe qualificada e a falta da estrutura prometida. Como o fez antes de um jogo importante na Libertadores (jogo que o time venceu graças ao retorno de jogadores machucados desde o começo do ano), disseram que faltou com a ética. Ele poderia ter esperado, talvez, mas usar o direito de ir embora, ainda mais depois de ter ganhado um título há muito esperado pelo clube, não tem nada a ver com falta de ética. Do mesmo modo, você pode ser contra atletas fazerem propaganda de cervejas, as quais patrocinam o esporte que comumente é visto pela TV com cervejas à mão; e também os atletas têm direito de beber cerveja de vez em quando. Dizer que são antiéticos é outra coisa.

Os exemplos poderiam ser muitos outros. O que dizer do uso da palavra "paixão" em frases como "era tão apaixonado pelo trabalho que ia todos os fins de semana"? Isso é mais-valia... E a confusão entre dinheiro e dignidade numa frase como "pelo menos ela é bem-sucedida no que faz"? Eis um sinal da americanização do mundo, como o emprego cada vez mais comum do adjetivo "popular". Tradução: se você não é rico nem famoso, é um "perdedor" ("loser").

Por que não me ufano (2). A tradição oligárquica da política brasileira é também cultural, claro. Historicamente são os "amigos do rei" que levam os maiores quinhões de dinheiro público, como já escrevi aqui algumas vezes; há maestros, diretores e cineastas que levam mais dinheiro sozinhos do que os municípios todos somados. O governo alega que não dá dinheiro; apenas aprova os projetos na lei para que patrocínios sejam captados no mercado. Mas, como se sabe, os patrocinadores podem abater praticamente tudo que investem: levam a fama e não perdem grana. Via renúncia fiscal, a conta, para variar, fica para o contribuinte. Agora o Ministério avalizou nada menos que R$ 1,3 milhão para um blog de Maria Bethânia. O valor alto foi justificado porque terá vídeos dirigidos por Andrucha Waddington e, de novo, não se trata de dotação direta. Mas a pergunta é: uma artista célebre e bem-sucedida como Bethânia precisa de dinheiro público para chegar ao mercado? A resposta é ululantemente óbvia.

Por que não me ufano (3). Por falar em oligarquias políticas e culturais, leio que foi publicada uma biografia de José Sarney, na verdade uma hagiografia, que o põe como vítima da ditadura, não investiga como se tornou dono do Maranhão sem tirar o Estado da condição de atraso atroz, ignora casos como o do convento e o dos atos secretos. Sarney, recentemente, foi dado como morto num site e depois apareceu com a velha piada "Oi, acabo de chegar do céu". Acha mesmo que vai para lá?

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